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Antropologia

O álbum de família patriarcal

Tese reúne as visões conflitantes de Nelson Rodrigues e Gilberto Freyre sobre a formação caseira do brasileiro

CÍCERO DIASIlustração de Cícero Dias para a edição de 1933 de Casa Grande & SenzalaCÍCERO DIAS

Em uma só tese, a antropologia e o teatro nacionais ganharam novas interpretações no fim do ano passado. Com orientação do eminente antropólogo Gilberto Velho e defendida pela historiadora Adriana Facina, a tese de doutorado Santos e Canalhas – Uma Análise Antropológica da Obra de Nelson Rodrigues, que deve virar livro ainda este ano, faz uma leitura de como o teatro e a produção jornalística de Nelson Rodrigues retratam uma visão de mundo presente em diversas parcelas da sociedade em sua época e não só na obra do autor.

O desafio da pesquisadora foi desenvolver um trabalho antropológico sem a possibilidade de utilizar as metodologias clássicas da antropologia: o trabalho de campo e a observação participante. Além disso, era preciso o convencimento de que uma obra não pertencente à tradição do pensamento nacional pudesse ser analisada sob esse prisma. Para superar esses impasses, Adriana optou por uma aproximação da antropologia com a história, retirando dos documentos rodriguianos – suas peças, crônicas, artigos de jornais – o substrato para sua pesquisa. O material publicado na imprensa sobre o teatro de Nelson Rodrigues também foi levado em conta.

O resultado é um texto dividido em quatro capítulos que fazem uma análise clara da obra de Nelson Rodrigues, desenvolvida em diversos domínios – da opinião pública sobre o polêmico dramaturgo às representações da família e da cidade em suas peças. Adriana chega a traçar um paralelo entre as obras teatrais de Nelson Rodrigues e os estudos de Gilberto Freyre sobre o Brasil colonial. Ao fim, faz uma análise do conservadorismo que tomou conta dos textos jornalísticos de Nelson durante a ditadura militar. “A idéia central que norteia a análise desse extenso conjunto de fontes é a de que há, na obra de Nelson Rodrigues, a construção de uma visão sobre a natureza humana que oscila entre um profundo pessimismo e a busca de possibilidades de redenção”, explica Adriana.

Essa ambigüidade com que Rodrigues via a natureza humana, e que deu origem aos “santos e canalhas” do título, foi acompanhada de uma oscilação de opiniões sobre sua obra no início de carreira. Nelson Rodrigues escreveu sua primeira peça teatral, A Mulher sem Pecado, em 1941, assumidamente para ganhar dinheiro – era jornalista esportivo de O Globo. Enquanto redigia o segundo ato, descobriu que tinha talento. E foi seu segundo texto, Vestido de Noiva (1943), considerado marco da dramaturgia moderna brasileira, que fez Nelson cair nas graças da melhor crítica teatral, que passou a considerá-lo gênio sem precedentes.

Porém, com Álbum de Família (1946), Nelson Rodrigues foi amaldiçoado por público e crítica por apresentar com toda crueza uma história baseada em relações incestuosas: pais que amam filhos e vice-versa, irmão que deseja irmã, cunhada apaixonada por cunhado. Tornou-se autor maldito, tarado, que perturbava as famílias brasileiras com seus personagens traiçoeiros, lascivos, ambíguos.

Mas, conforme a tese de Adriana sugere, são justamente esses personagens aparentemente perturbados que podem aproximar Nelson Rodrigues de Gilberto Freyre. Além de terem sido ambos pernambucanos e terem mantido uma admiração recíproca, Freyre e Rodrigues tiveram a família brasileira no centro de suas obras – uma antropológica, outra teatral. Assim, a representação da família rodriguiana, que mantém relações incestuosas e é também vítima de traições e violência, seria uma continuidade da família patriarcal e endogâmica descrita por Freyre em obras como Casa Grande&Senzala, mas feita pelo seu avesso.

“Rodrigues fazia uma crítica ao modelo apresentado por Freyre”, diz Adriana. “Enquanto Gilberto Freyre viu na família patriarcal um sistema civilizatório do período colonial, Rodrigues, que escrevia em outro momento histórico, captou o momento de desagregação dessa família”, explica a pesquisadora. É resultado dessa desagregação, segundo ela, a presença forte do elemento feminino como algo diabólico. A mulher que trai ou que seduz o parente é a mulher em busca de uma individuação que não existia na família patriarcal de um Brasil mais antigo e rural. “A busca da individuação dos personagens rodriguianos é também um reflexo do ambiente urbano”, diz ela. “Gilberto Freyre tinha uma visão muito mais otimista que Nelson Rodrigues no que diz respeito a essa família patriarcal”, compara Adriana.

O pessimismo de Nelson Rodrigues estava nos próprios motivos que o levavam a colocar na dramaturgia os fantasmas mais assustadores da natureza humana. “Para ele, quanto mais horrores, quanto mais essa dimensão de trevas da alma humana o teatro colocasse em cena, mais o teatro teria uma função purificadora”, comenta Adriana. “É como se os seres humanos, ao serem confrontados com o aspecto mais satânico de sua natureza, pudessem se purgar disso, pelo menos parcialmente. Essa seria a função do teatro para Nelson”, conclui a pesquisadora.

Em sua tese, Adriana analisa a produção jornalística de Nelson Rodrigues em dois momentos. Num primeiro, dos anos 50, com a coluna diária A Vida Como Ela É, Nelson Rodrigues aproveitava o espaço privilegiado para dar respaldo a sua criação teatral. “Os contos eram importantes para oficializar a imagem de tarado e também serviram de laboratório para suas peças”, explica Adriana. Já nos anos 60 e 70, Rodrigues usou o jornalismo para mostrar seu radicalismo quanto às noções esquerdistas, surpreendendo a muitos pelo seu engajamento com os militares e no ataque à intelectualidade contestatória em geral.

Os homens e as mulheres de Gilberto Freyre

No ano em que se completam os 70 anos de Casa Grande & Senzala, dois estudos inusitados sobre a obra e a vida de Gilberto Freyre esperam apoio editorial para sair do forno. O livro A Festa do Sexo – O Feminino e o Masculino na Obra de Gilberto Freyre, de Fátima Quintas, faz uma análise da descrição que Freyre fez das mulheres no Brasil colonial em Casa Grande & Senzala e em Sobrados e Mucamos. Também coordenado por ela, um projeto ainda sem título reúne 50 entrevistas com o antropólogo publicadas em jornais e revistas.Secretária-executiva do Núcleo de Estudos Freyrianos da Fundação Joaquim Nabuco, do Recife, Fátima Quintas publicou Sexo e Marginalidade (Vozes, 1987) e A Mulher e a Família no Final do Século (Fundação Joaquim Nabuco, 2000). Logo notou que Freyre foi o primeiro antropólogo a contextualizar a mulher na história do Brasil. “Ele mostrou como essa mulher foi oprimida e subjugada ao sistema patriarcal”, comenta a pesquisadora.

A opressão atingiu principalmente o vértice português do triângulo racial colonizador. “A mulher portuguesa foi extremamente oprimida sexualmente”, explica Fátima. Além de ter sido atribuído a ela o papel único da procriação, a portuguesa foi precocemente introduzida em um sistema endogâmico perverso, em que primos, tios e até irmãos casavam-se entre si. “Elas tinham de se casar aos 12 ou 13 anos com homens de que não gostavam. Estavam permanentemente grávidas e muitas vezes morriam cedo em um dos partos”, diz a pesquisadora.

A situação se agravava pelo próprio sistema açucareiro. Extremamente sedentárias, essas mulheres permaneciam a maior parte do tempo em casa, comendo os doces e as guloseimas produzidas na Casa Grande. “Tornavam-se obesas e muitas vezes desinteressantes”, comenta a pesquisadora. Não é difícil imaginar que fosse comum o senhor de engenho buscar prazer sexual mais fora do casamento do que dentro dele. Essa foi uma das portas de entrada para que a negra tomasse importante papel no cotidiano da Casa Grande.

“A portuguesa foi obrigada a conviver com a traição de seu marido, que mantinha relações intensas com as mucamas”, continua Fátima. A atração sexual era acrescida de uma afetividade presente no fato de as escravas serem as amas-de-leite das crianças paridas pelas brancas. “As portuguesas não tinham amas-de-leite porque queriam, mas porque, estando sempre grávidas, não conseguiam também amamentar”, explica Fátima. O convívio entre brancas e negras muitas vezes deu vazão à crueldade das senhoras de engenho. “Em uma passagem de Casa Grande & Senzala, uma senhora manda arrancar os olhos de sua mucama e servi-los em uma bandeja ao patriarca”, conta Fátima.

Embora a índia não estivesse obrigatoriamente presente na arquitetura interna da Casa Grande, Fátima não a deixou de fora em seu estudo. “O contato entre as índias e os portugueses foi de grande `intoxicação sexual`, segundo Freyre”, diz ela. Vários motivos facilitaram as relações entre portugueses e índias. Primeiro, o caráter nômade da cultura autóctone, com longas ausências dos índios homens. Depois, a ausência da noção de traição no seio dessa cultura.

Além de inédita para o seu tempo, a apresentação que Gilberto Freyre fez do universo feminino no Brasil colonial denota, na opinião de Fátima, uma característica pessoal que o antropólogo soube emprestar a sua obra. “Freyre usava todos os seus sentidos para ampliar seus conhecimentos”, diz ela. Foram essas características pessoais que a pesquisadora quis captar nas entrevistas selecionadas para seu outro projeto. “Além de serem autobiográficas, as entrevistas contêm a essência do pensamento freyriano”, avalia Fátima. Entre as conversas, está uma famosa, de 1980, em que Freyre disse à revista Playboy que, para ele, era necessário conhecer todos os ângulos da vida. Assim, já experimentara a homossexualidade – tendo optado, ao final, pela heterossexualidade.

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