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carta da editora | 218

O golpe de 1964 nos marcos da pesquisa científica

O golpe de Estado de 1964 e a longa ditadura que ele inaugurou no Brasil da segunda metade do século XX constituem um tema polissêmico, complexo e polêmico, provocador de paixões, e de dores, perdas e sofrimentos profundos, ainda pulsantes. Ao mesmo tempo, no que cabe aos estudos no campo das humanidades, apresentam-se como objeto de pesquisa dos mais fundamentais e desafiadores para uma interpretação criadora e consistente do Brasil e da sociedade brasileira – de sua história recente, de seu presente e do futuro em construção. Foi neste segundo âmbito que Pesquisa FAPESP, fiel à sua missão de levar aos leitores a produção científica brasileira mais relevante sem se descolar da ancoragem jornalística que a mantém antenada no pulso do presente imediato, tomou os 50 anos do golpe de 31 de março de 1964 como tema de capa desta edição de abril. Assim, levamos aos leitores, a partir da página 16, um conjunto de reportagens que traz à cena uma parte do que a academia tem produzido de mais rigoroso sobre o acontecimento em questão. É um material de fôlego, que vale a pena conferir.

Depois disso, um pouco de leveza e frescor: na seção de ciência, reportagem do editor especial Carlos Fioravanti, com fotos de Eduardo Cesar, relata com vivacidade a quinta viagem de um grupo de pesquisadores ligados ao Instituto Oceanográfico da USP – de uma série de 23, programadas até 2015 – para mapear a diversidade e a distribuição de cetáceos, ou seja, baleias e golfinhos, no litoral de São Paulo. A boa notícia que a equipe tem para os mais preocupados com o ambiente é que tanto a diversidade quanto a abundância desses animais na área estudada são maiores do que se pensava. A propósito, esta edição traz um brinde para os leitores no campo da biodiversidade: um dvd com os 10 vídeos das palestras do Ciclo de Conferências do Biota Educação 2013.

É simples coincidência, mas o destaque desta edição no âmbito da tecnologia também envolve animais – neste caso, bichinhos, é verdade. Dito mais precisamente, trata-se de novas estratégias baseadas na extração de substâncias químicas de insetos e de plantas para combater poderosas pragas agrícolas. A editora assistente Dinorah Ereno conta em detalhes como pesquisas levadas adiante em laboratórios da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP) propiciaram a obtenção de novos feromônios de insetos e de substâncias vegetais voláteis que se mostraram muito eficazes, por exemplo, no combate do greening, o atual terror dos citricultores.

Por último, sugiro que não deixem de ler a entrevista que nos foi concedida por Ecléa Bosi e que se deixem seduzir completamente por seu delicado convite à reflexão sobre temas tão capitais quanto a experiência de leitura entre operárias, vivências de velhos, tempo e memória (página 64). Ouvir as frases musicais de Ecléa, depois de ter sabido de sua militância em diferentes fronts e de ter lido páginas nascidas de estudos rigorosos no campo da psicologia social que, ainda que o tentem, não conseguem ocultar uma vocação literária marcada por uma espécie de poesia inata, faz pensar que nela tudo converge para a criação de sentido. Sua fala confronta o pensamento da vida como uma história sem nenhum significado contada por um idiota e cheia de som e fúria.

Boa leitura!

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