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Boas práticas

O jogo da afiliação

Evidências de fraude faz Arábia Saudita perder espaço em lista de pesquisadores altamente citados

Na mais recente lista de pesquisadores altamente citados publicada pela empresa Clarivate Analytics, só 26 cientistas eram afiliados a universidades da Arábia Saudita. Na lista de 2022, os nomes associados ao país eram 109 e em 2023 76. A redução progressiva é atribuída à descoberta de uma prática fraudulenta, denunciada em uma reportagem publicada no ano passado no jornal espanhol El País: a existência de um esquema no qual pesquisadores de vários países recebiam cerca de US$ 75 mil por ano, o equivalente a R$ 450 mil, para mentir sobre o seu local principal de trabalho e dizer que sua vinculação primária era com uma universidade saudita. Isso para aumentar artificialmente os indicadores de desempenho dessas instituições e colocá-las em melhor situação em rankings acadêmicos internacionais.

Segundo análise do farmacêutico suíço Yoran Beldengrün feita para a consultoria espanhola Siris Academic, a inclusão do nome de um pesquisador altamente citado na lista da Clarivate nos quadros de uma universidade é capaz de fazê-la saltar até 100 posições no Academic Ranking of World Universities (Arwu), produzido desde 2008 pela Universidade Xiao Jing Tong, da China. Beldengrün contou 210 cientistas altamente citados de diferentes países que, no intervalo de uma década, declararam uma universidade da Arábia Saudita como seu principal local de trabalho. A maioria deles era da China (44), da Espanha (19), dos Estados Unidos (16) e da Turquia (14).

O El País se debruçou sobre os casos espanhóis, como o do químico Damià Barceló, que entre 2016 e 2022 declarou falsamente que sua principal afiliação era a Universidade Rei Saud, em Riad, quando na verdade dirigia o Instituto Catalão de Pesquisas Hídricas em Girona, no nordeste da Espanha. Outro caso rumoroso envolveu a Universidade de Córdoba, que suspendeu de suas funções por 13 anos, sem direito a vencimentos, o químico Rafael Luque Alvarez de Sotomayor, um dos mais prolíficos pesquisadores espanhóis, após descobrir que ele havia declarado falsamente que seu principal local de trabalho também era a Universidade Rei Saud (ver Pesquisa FAPESP nº 327). De acordo com uma reportagem recente do jornal, na lista mais recente da Clarivate permanecem nomes de cientistas espanhóis que efetivamente se mudaram para a Arábia Saudita, caso dos ecologistas Carlos Duarte e Fernando Maestre, atualmente na Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah, na cidade de Thuwal.

Para zelar pela credibilidade de sua lista, a Clarivate ampliou o escrutínio sobre os pesquisadores cuja produção científica recebe um grande volume de citações em outros artigos, a fim de detectar tentativas de manipulação. Em 2021, foram desclassificados pouco mais 300 cientistas por adotarem práticas capazes de manipular seus índices de desempenho. O expurgo alcançou 550 nomes em 2022 e pouco mais de mil em 2023. Neste ano, houve um recorde de 2 mil exclusões – isso, em uma lista tem 6,6 mil pesquisadores. “Continuaremos a melhorar nossa metodologia para manter a confiabilidade e a integridade das futuras listas e continuamos a receber feedback de nossos colegas na comunidade de pesquisa para nos ajudar a melhorar nosso programa anual”, informou a Clarivate em um comunicado.

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