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Carta da editora | 207

O peso do talento individual na ciência

Há duas belas personagens, entre tantas que aparecem nesta edição de Pesquisa FAPESP, que nos propõem refletir com vagar sobre a influência e o peso da personalidade ou, se preferirmos, da singularidade do indivíduo, sobre o desenvolvimento de determinadas práticas sociais – neste caso, a produção do conhecimento científico e a formação do ambiente propício para tanto. Refiro-me, primeiro, a Paulo Vanzolini, morto aos 89 anos em 28 de abril, cujo obituário publicamos na página 50. Polêmico, tantas vezes apontado como ranzinza e mal-humorado e, simultaneamente, como senhor de fino e corrosivo humor, Vanzolini, o cientista, teve papel fundamental, teórico e prático, na constituição de uma zoologia efetivamente contemporânea no país. Os especialistas, observou o filósofo Luiz Henrique Lopes dos Santos, coordenador científico do projeto desta revista, não exageram quando o definem como o introdutor da zoologia evolutiva no Brasil. Já Vanzolini, o compositor, autor de belíssimos clássicos da música popular brasileira, como Ronda e Volta por cima, embora tenha seu talento amplamente reconhecido, ainda deve provocar novas e acuradas análises sobre a dimensão de sua influência neste âmbito de nossa cultura. Entretanto, talvez o traço menos festejado de Vanzolini seja sua inteligência brilhante, decisiva, no trabalho de forjar o caráter de instituições centrais para o desenvolvimento científico do país. E aqui me refiro, valendo-me de novo das palavras de Luiz  Henrique na conversa que tivemos sobre a personagem de múltiplos talentos, não apenas ao Museu de Zoologia, mas também e principalmente à FAPESP, em cujo eficiente e respeitado modus operandi brilham a distância o espírito visionário e a sagacidade política de Vanzolini.

A segunda personagem fascinante em que me detenho é Michel Rabinovitch, um cientista em plena atividade aos 87 anos, que nos revela um pouco da riqueza profissional e pessoal de sua trajetória na entrevista que concedeu a Neldson Marcolin e Ricardo Zorzetto, respectivamente, o editor-chefe e o editor de ciência da revista. Os primeiros 15 anos de sua carreira na USP, quando já se destacou como um grande formador de novos cientistas, e os 33 anos seguintes de trabalho em respeitadas instituições de ensino e pesquisa nos Estados Unidos e na França – Rabinovitch deixou o Brasil em 1964 para escapar à violência da ditadura – emergem de um depoimento sensível e generoso que se descola da primeira pessoa e conduz suavemente o olhar do leitor para o ambiente mais amplo da construção do saber científico no país. Vale a pena se deter na entrevista a partir da página 24.

É tempo de passar à reportagem de capa desta edição, elaborada pelo editor especial Marcos Pivetta, que trata, a partir da página 18, da descrição simultânea de 15 novas espécies de aves da Amazônia, em artigos científicos previstos para serem publicados em julho num volume especial do Handbook of the birds of the  world, obra de referência fundamental  para ornitólogos profissionais e amadores. A descrição representa uma contribuição brasileira da maior importância para o conhecimento da biodiversidade e, ao mesmo tempo, configura a maior descoberta de nossa ornitologia em nada menos que 140 anos.

Gostaria de destacar também, ainda na seção de ciência, a reportagem elaborada por Igor Zolnerkevic e Ricardo Zorzetto a respeito das novas explicações geológicas propostas para os terremotos no país (página 44). Sim, o Brasil tem terremotos, embora com intensidade sempre de fraca a moderada, mas que ainda assim provocam alguns transtornos porque não há nenhuma política pública ou medidas preventivas para seu enfrentamento. Para finalizar, destaco a reportagem do editor de política científica e tecnológica, Fabrício Marques, sobre a digitalização de documentos ligados à repressão da ditadura pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo (página 30), que deverá ter grande impacto na pesquisa histórica e na investigação das violações dos direitos humanos no país; e o relato de nosso editor de humanidades, Carlos Haag, sobre o interessante tratamento dispensado à ciência pelo Diário da Noite, jornal sensacionalista do grupo empresarial de Assis Chateubriand (página 78), que amplia nossa percepção sobre a divulgação científica no país.

Desejo a todos uma boa leitura!

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