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Carta da editora | 107

O poder, luminoso ou sombrio, da imagina

Esta primeira edição de 2005 oferece um brinde aos leitores: dois belos contos, para ler na primeira vez de um fôlego só, e para reler depois com infinita calma, curtindo a delicadeza da relação entrevista no diálogo refinado que constitui o primeiro, deixando-se arrastar, no segundo, pelo denso mar de palavras que constrói uma fantasia poderosa em torno de um inventor real movido por convicções socialistas no século 19. Trata-se de ficção de alto nível, que a nosso ver agrega valor e uma sutil elegância à revista, fundada no equilíbrio entre múltiplas abordagens da nossa produção intelectual. Ciência, tecnologia, humanidades e – por que não? – um pouco de criação literária em primeira mão, em suma, conhecimento produzido sob muitas formas neste país, assim é Pesquisa FAPESP .

Passo à reportagem de capa desta edição e me dou conta de que, se a ficção é narrativa que reinventa, violenta a realidade, descola-se dela ou a ultrapassa, de uma certa maneira permanecemos em seus arredores no texto que começa na página 38, embora de forma sombria em vez de luminosa, mais perto do pesadelo que do sonho. Nas seis páginas dedicadas a um levantamento mundial sobre os distúrbios psiquiátricos que vem sendo feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o editor de ciência, Carlos Fioravanti, informa que seus primeiros resultados revelam que mesmo nas cidades mais isoladas do mundo os transtornos mentais começam ainda na infância e geralmente apresentam os mesmos estágios de desenvolvimento, independentemente dos estilos de vida ou das condições econômicas em que vivem as populações, para criar, na vida adulta, o que ela chama de prisioneiros da própria imaginação descontrolada.

Quer dizer, nos piores transtornos psiquiátricos, não há mais adesão à realidade e a mente cria suas trágicas ficções. Mas o que o estudo da OMS abre é a perspectiva de se detectar precocemente o processo de perda do controle emocional e assim evitar o surgimento de problemas mais graves. Notícia promissora no quadro desalentador da saúde mental no mundo.A boa imaginação do leitor, de todo modo, está agora convocada para acompanhar os novos resultados de uma pesquisa arqueológica, ou seja, o estudo de nove crânios na região de Lagoa Santa, Minas Gerais, e um de Caatinga do Moura, Bahia, que sugerem com grande força que os primeiros habitantes da América não eram mesmo mongolóides. E que Luzia – personagem criada nos anos 1990 por cientistas brasileiros a partir do achado em 1975 do crânio de uma jovem que teria vivido há cerca de 11 mil anos na região -, com suas feições que lembram negros africanos e aborígines australianos, não seria exceção nem aberração, mas a regra. Esse novo e fascinante capítulo da Pré-história brasileira está relatado pelo editor especial Marcos Pivetta, a partir da página 44.

E, para encerrar os destaques, recomendamos atenção especial à reportagem que abre a seção de Tecnologia, na página 64, em que a editora assistente Dinorah Ereno detalha como a Agência de Inovação da Unicamp, a Inova, em apenas um ano de atividade conseguiu fechar 13 contratos de licenciamento com empresas para a exploração de 26 patentes – todas relativas, aliás, a produtos de alta relevância social.

No mais, toda a equipe de Pesquisa FAPESP deseja aos leitores um novo ano fecundo e prazeroso e promete também se esforçar por isso. O ano de 2004 viu alguns eventos importantes para a vida da publicação – a edição especial número 100, o lançamento do livro Prazer em conhecer, coletânea de entrevistas originalmente publicadas na revista, o lançamento do programa Pesquisa Brasil, resultado de parceria com a Rádio Eldorado, prêmios… Nossa expectativa é poder constatar no final de 2005 que continuamos fecundos.

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