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Resenhas

Cultura letrada no Brasil Colônia

Trabalho de pesquisadora contribui para a história da leitura

E fui ter com o anjo, dizendo-lhe que me desse o livro. E ele disse-me: Toma o livro, e devora-o; e ele fará amargar o teu ventre, mas na tua boca será doce como mel…

Pois saibam os leitores que livros também se comem, como nos diz o trecho acima, tirado ao Apocalipse de São João. A importância conferida à leitura do texto sagrado ombreia-se à da assimilação adequada da palavra de Deus e à predestinação daquele escolhido para anunciar os juízos divinos. Há, pois, que se ler bem e há que se dar o livro a gente escolhida. O sistema social percorre e contamina todo o processamento da comunicação letrada, desde a natureza mesma da própria linguagem, que é social, até os limites de interpretação e réplica dos leitores em determinada época, em determinadas condições político-econômicas, sob determinadas restrições ideológicas. Ao ler, um indivíduo ativa seu lugar social, suas vivências, sua biblioteca interna, suas relações com o outro, os valores de sua comunidade. E por isso existe o controle exercido pela sociedade sobre o ato de ler, manifesto de formas diversas. Os espaços de circulação do livro já determinam uma forma de exclusão.

Os Caminhos dos Livros traçados por Márcia Abreu colocam o leitor diante de material de pesquisa surpreendente. O mapa a ser percorrido tem como ponto de partida, como nos diz a própria autora, uma desconfiança. Toma duas referências: os textos de viajantes queixosos de que aqui não havia leitores, de que não circulavam livros nos primeiros séculos do Brasil colonial e os milhares de pedidos de autorização para envio de material impresso constantes do Catálogo para exame dos livros para saírem do reino com destino ao Brasil. “Se aquelas pessoas não liam, por que buscavam tão assiduamente os censores a fim de obter permissão para ter perto de si alguns livros?”, é a pergunta que põe em marcha a pesquisa e que serve de guia ao leitor por um caminho calçado em pesquisa de fontes e levantamento rigoroso de referencial teórico, com uma linguagem agradável e fluente. A primeira parte – O Trânsito das Letras – nos leva para o conhecimento do controle dos “passes” dos livros da Europa para o Brasil e dos caminhos da censura. A autora se dedica, a seguir, a um levantamento das obras solicitadas e submetidas à censura portuguesa entre 1769 e 1807 que viriam para o Rio. A conclusão a que se chega, na contramão do que se afirmava nos livros sobre a indigência cultural do Brasil Colônia, é que os habitantes do Rio, nos finais do século 18 e primeiras décadas do 19, não estavam excluídos do universo das belas letras. Mas quem eram esses leitores? Passa-se, então, pelas relações de livros constantes dos inventários e dos livros de contas de livrarias, pelas bibliotecas dos padres e até por relações de vendedores não formais e por lugares inesperados como armazéns e farmácias.

A segunda parte do livro – Julgar e Sentir – coloca o leitor na rota de como se lia à época, através dos textos que postulavam uma preceptiva, indicações sobre a correta maneira de ler e sobre o que se supunha ser um bom livro, com o objetivo de traçar o perfil deste leitor tão distanciado no tempo. Chega-se, assim, ao leitor carioca do período que, muitas vezes, lia insurgindo-se contra a lista dos “recomendados”, já que se dedicava aos romances. Debruçar-se sobre o que lia o carioca leva-nos ao último capítulo do livro, A Leitura do Romance, com direito aos argumentos pró e contra o gênero e ao estudo dos processos de sedução do leitor.

Esta deliciosa viagem pelos caminhos dos livros proposta pelo brilhante texto de Márcia Abreu, além da disponibilização de farto material de pesquisa, contribui de modo extraordinário para a história da leitura e de seus mecanismos de circulação, fornecendo uma visão nova sobre a cultura letrada no Brasil Colônia.

 Maria Zilda Ferreira Cury é professora titular de Teoria da Literatura da UFMG, onde coordena o Programa de Pós-graduação em Estudos Literários.

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