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carta do editor | 362

Paisagens

Um dos privilégios de fazer parte da equipe de Pesquisa FAPESP é saber em primeira mão, com riqueza de detalhes, o que há de novo em algumas das numerosas áreas do conhecimento que cobrimos. Nesta edição, trazemos uma informação que põe fim a uma dúvida antiga: o Brasil tem montanhas? Para quem, como eu, passou grande parte da vida subindo e descendo a serra do Mar, nunca houve dúvidas. Para sair de Santos e alcançar São Paulo, edificada a quase 800 metros acima do nível do mar, era preciso vencer “a muralha”, como era chamada pelos primeiros portugueses a linda montanha enfeitada pela Mata Atlântica.

A dúvida existia em razão de um conceito antigo. Apenas nas regiões do planeta onde há colisão de placas da litosfera – a camada sólida mais superficial da Terra – haveria a possibilidade de existir montanhas. Em 2019, uma nova classificação do relevo começou a ganhar forma durante um congresso de geografia física realizado em Fortaleza, no Ceará. A partir dali, uma equipe composta por 70 geólogos e geógrafos, com o apoio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dedicou seis anos à tarefa de atualizar a definição analisando mapas e indo a campo.

Após esse período de estudos, convencionou-se que montanhas são formas de relevo agrupadas com pelo menos 300 metros de altura em relação às áreas vizinhas, com topos aguçados e encostas íngremes. E podem ter se originado de vários processos geológicos, não somente da colisão de placas litosféricas. Em maio, o IBGE deve apresentar publicamente o mapa de revelo do país. A reportagem do editor de Ciências da Terra, Carlos Fioravanti, antecipa parte dessas conclusões.

Outra linha de pesquisa bem diferente da geologia e geografia também se dedica a desfazer mal-entendidos. Grupos de cientistas da computação de diversas universidades brasileiras trabalham em novos softwares para identificar conteúdos falsos e combater a desinformação, que estão cada vez mais presentes em vídeos e aplicativos de mensagens. Não se trata apenas de questões envolvendo política, mas também de conteúdo falso sobre saúde e até vídeos manipulados de regiões em conflito, como no Oriente Médio. A repórter Sarah Schmidt conta, com bons exemplos, o empenho dos pesquisadores na busca pela verdade dos fatos.

Para quem gosta de cerveja, esta edição está especialmente atraente. O repórter colaborador Gilberto Stam mostra as pesquisas que procuram criar uma bebida nacional, utilizando ingredientes locais, métodos próprios e receitas que diferem das bebidas tradicionais feitas na Europa. O desenvolvimento ocorre em vários estados brasileiros e não está mais restrito aos laboratórios de universidades e cervejarias artesanais. Pelo menos um grande fabricante se mostrou interessado nas leveduras raras que permitem produzir cervejas com sabor regional.

A entrevista de Reginaldo Prandi contribui para a diversidade de temas deste número. Feita pela editora assistente Christina Queiroz, versa sobre a trajetória multidisciplinar do sociólogo. Prandi passou pela demografia, foi um dos primeiros a trabalhar com informática no país, investigou as pesquisas eleitorais e ajudou a consolidar o campo da sociologia da religião.

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