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Personalidade

Paixão e rigor em doses iguais

Assim pode ser definido o trabalho do sociólogo Octavio Ianni, morto no mês passado

JORGE MARUTA/ USP/CCS/DVIDSON/ARGUSIanni: rigor científico e militância por um capitalismo nacionalJORGE MARUTA/ USP/CCS/DVIDSON/ARGUS

Ele começou analisando a questão racial em Florianópolis, uma dissertação que, em 1956, lhe deu o título de mestre na FFCL da Universidade de São Paulo, para terminar a vida dissecando a dinâmica global capitalista recente. Nessa caminhada do micro para o macro, algo nunca mudou: a paixão pela busca da “idéia de um Brasil moderno” e a certeza de que se deveria fazer sociologia com a precisão e rigor de um cientista, sem, no entanto, deixar de lado a preocupação em analisar os problemas sociais imediatos do país. A mistura de cientista e militante foi a marca de Octavio Ianni, morto no mês passado, em São Paulo, aos 77 anos.

Um dos responsáveis pela sistematização da sociologia no país, Ianni, natural de Itu, fez seus estudos na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, onde obteve o título de mestre com o estudo Raça e mobilidade social em Florianópolis. Ao lado de As metamorfoses do escravo, o estudo marca o período do interesse de Ianni pelo legado da escravidão na formação da sociedade brasileira e de que forma se poderia inserir o recorte racial na análise dos processos de constituição das sociedades. Ianni, com argúcia, percebeu como a sociedade de castas aos poucos se transformou na sociedade de classes e de que maneira a raça foi uma arma usada pelas elites nacionais com instrumento de exploração social.

Durante os anos 1960, ao lado de colegas, particou do chamado Seminário Marx, da USP, um ponto de inflexão importante em sua ideologia pessoal e intelectual, levando-o a abraçar, com vigor, o ideal do tempo sobre a necessidade do engajamento dos intelectuais nos temas da atualidade. Daí, a sua guinada dos estudos raciais para a problemática do subdesenvolvimento, que gerou A industrialização e desenvolvimento social no Brasil, de 1963, e O Estado e o desenvolvimento econômico no Brasil, de 1964. Ianni não via com olhos esperançosos a formação dos aparelhos de planejamento do Estado brasileiro que, para ele, estavam intimamente interligados ao capitalismo e, dessa forma, não seriam a forma de resolução de problemas nacionais que afligiam o Brasil.

O Estado nacional ganhava um crítico severo e implacável. Em especial, o populismo, tema de seu O colapso do populismo no Brasil, de 1968, obra seminal de avaliação das variadas formas políticas da América Latina, que exibia as mazelas dos modelos de desenvolvimento adotados pelos políticos nacionais até o golpe militar de 1964.

Os militares entenderam a mensagem e, em 1969, Ianni foi aposentado compulsoriamente da USP por causa do AI-5. Mais tarde, voltou a lecionar (e também a pesquisar no Cebrap), sua paixão, na PUC-SP e, depois, na Universidade Estadual de Campinas, onde deu aulas até 15 dias antes de sua morte. Há dez anos, descobriu o seu interesse final: a globalização e seus efeitos sobre os países do TerceiroMundo. O professor defendia o retorno a um projeto de capitalismo nacional, pois o Brasil se transformara, rapidamente, numa província do globalismo. “Todos jogam com a hipótese de que, se o Brasil desmontar o seu projeto nacional, entrará no Primeiro Mundo. É um desastre”, disse.

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