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Física experimental

Pé no acelerador

Participação em futuros experimentos do CERN deve aprimorar formação de físicos brasileiros e beneficiar a indústria

MIGUEL BOYAYANSalmeron: expectativa de melhor compreender as partículas elementaresMIGUEL BOYAYAN

O financiamento autorizado para a empreitada científica de inserir  os físicos brasileiros nas experiências internacionais que terão o grande acelerador de partículas do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (CERN)  como locus privilegiado “é um pouco menos da metade do que pretendiam os seis grupos de pesquisadores envolvidos na empreitada”, capitaneados pelo respeitado professor Roberto Salmeron, ou seja, US$ 1 milhão por ano, ao longo de cinco anos.

Mas certamente o total de aproximadamente R$ 2,4 milhões concedidos pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) será um suporte da maior importância para dar velocidade e mais densidade ao desenvolvimento da pesquisa contemporânea em partículas elementares no país e, ao mesmo tempo, assegurar o crescimento da participação nacional na investigação comprometida com o avanço dessa área da física.

Em mais detalhes, o que está em foco aqui são seis projetos de pesquisa experimental e  um projeto teórico, “propostas maravilhosas todas”, segundo Salmeron, cujo financiamento continuado era fundamental para viabilizar a presença brasileira nas experiências no acelerador de partículas de 27 quilômetros de extensão, instalado em Genebra, Suíça, que começará a operar em fins de 2007. O acelerador, que começou a ser planejado no fim da década de 1980, é, por razões óbvias, a menina dos olhos da comunidade de físicos de partículas. “O conhecimento sobre propriedades da estrutura da matéria, das partículas que a compõem, deve avançar de modo extraordinário com as enormes experiências no acelerador”, comenta Salmeron, 84 anos, que viajou algumas vezes da França para o Brasil no último ano para atuar na coordenação desses projetos e em sua apresentação e defesa junto às agências de financiamento. Aposentado de suas atividades na Escola Politécnica de Paris, Salmeron continua trabalhando firmemente com consultorias, de forma especial para o Brasil.

Os grupos envolvidos nesse projeto são da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “A maioria é mesmo do Rio de Janeiro. São grupos de pesquisadores muito bons, muitos deles com formação no Fermilab e no CERN”, observa Salmeron.

A expectativa do professor, que deixou o Brasil nos anos 1960 em decorrência direta das perseguições da ditadura militar (veja detalhes na excelente entrevista que ele concedeu à Pesquisa FAPESP, edição número 100), é de que todos esses projetos tenham impacto na formação de novos físicos de excelente nível no Brasil. “Com a ciência da computação, os progressos na física de partículas elementares fazem-se astronômicos. Por exemplo, um programa de uma nova geração chamada Grid torna possível o acesso imediato aos dados gerados no CERN, desde o momento em que colidem dois prótons e saem as primeiras partículas secundárias”, conta ele. Esse compartilhamento de dados em tempo real, em sua visão, tem influência decisiva no avanço das pesquisas.

Salmeron, que vê a pós-graduação nas áreas de física, química e engenharia muito bem no país, enquanto a graduação permanece a imensa distância do padrão que se tem nos países mais desenvolvidos, observa que para o Brasil é muito vantajoso entrar em grandes programas científicos numa área em que toda a tecnologia é de vanguarda. “Isso acontece na área de partículas elementares, o que significa que mesmo a indústria brasileira pode se beneficiar diretamente desses novos financiamentos para a pesquisa.”

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