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Fármacos

Peçonhas valiosas

Estudos com animais venenosos resultaram no licenciamento de sete patentes candidatas a medicamentos

ROBERTO P. MORAESTaturana: potencial para tratar trombose e tumoresROBERTO P. MORAES

Sintetizadas a partir do veneno da jararaca, da cascavel, das cerdas da taturana e da saliva do carrapato-estrela, moléculas desenvolvidas pelo Centro de Toxinologia Aplicada (CAT), com sede no Instituto Butantan, já resultaram em sete patentes licenciadas pelo Consórcio Farmacêutico (Coinfar), formado pelos Laboratórios Biolab-Sanus, União Química e Biosintética. Com a assinatura do contrato de licenciamento, finalizado em janeiro deste ano, o consórcio assume o compromisso de financiar todas as pesquisas necessárias para que as moléculas possam se transformar em um novo medicamento, como estudos pré-clínicos, que consistem, entre outros, de testes toxicológicos e em animais, e clínicos, feitos com seres humanos.

Três dessas patentes são de anti-hipertensivos chamados de evasins, da sigla em inglês endogenous vasopeptidase inhibitor, obtidos do veneno da jararaca (Bothrops jararaca). Esses anti-hipertensivos estão na fase de ensaios pré-clínicos há mais de dois anos, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “É provável que ainda este ano passemos aos ensaios clínicos”, diz o professor Antonio Carlos Martins de Camargo, coordenador do CAT, um dos dez Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiados pela FAPESP.

Duas outras patentes referem-se à proteína lopap, retirada das cerdas que recobrem o corpo da taturana Lonomia obliqua, que mostrou ter potencial para transformar-se em um medicamento para tratar a trombose. A primeira patente da lopap trata da obtenção e caracterização da proteína a partir das cerdas, e sua indicação de uso na prevenção de trombose. E a segunda diz respeito à obtenção e ao uso da proteína recombinante produzida a partir de bactérias geneticamente modificadas.

As duas últimas patentes licenciadas tratam, respectivamente, de uma proteína com poder analgésico chamada enpak (endogenous pain killer), obtida do veneno da cascavel (Crotalus terrificus) (veja Pesquisa FAPESP nº 100), e de uma proteína inibidora de fator de coagulação, extraída da saliva do carrapato Amblyomma cajennense, a amblyomin-X. Em uma única dose, a enpak mostrou ter um poder de analgesia 600 vezes mais potente que o da morfina. Já a amblyomin-X mostrou ter ação em várias culturas de células tumorais, porém sem atingir as normais, conta Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, do Laboratório de Bioquímica e Biofísica do Instituto Butantan, coordenadora das pesquisas da lopap e da amblyomin-X. “Camundongos com melanoma tiveram remissão completa do tumor e, um ano depois, ainda estão vivos e saudáveis”, diz Ana Marisa.

O CAT recebe da FAPESP cerca de US$ 900 mil por ano. No entanto, alguns gastos, como manter uma equipe para cuidar da parte administrativa, não podem ser pagos com essa verba. Eles são bancados com o montante repassado pelo Coinfar, correspondente a 10% do investimento feito pela Fundação. A partir da assinatura do contrato de licenciamento de patentes, o consórcio responde pelos custos do desenvolvimento do produto. “Se for para a prateleira das farmácias, cada uma das partes, Instituto Butantan, FAPESP e Coinfar, receberá um terço dos royalties das vendas”, diz Camargo.

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