O advogado e especialista em ética médica Daniel Sokol chamou a atenção para um problema que ganha evidência em universidades do Reino Unido: o aumento no número de atestados médicos falsos produzidos por estudantes para abonar faltas, apresentar recursos ou cumprir tarefas fora do prazo. Sokol, que já foi professor de ética médica do Imperial College de Londres e escreve regularmente sobre o assunto no British Medical Journal, fala com conhecimento de causa. Seu escritório defende estudantes acusados de má conduta e tem recebido vários clientes, na maioria alunos estrangeiros, que usaram atestados falsos produzidos com a ajuda de programas como o Photoshop e o ChatGPT.
“Alguns estudantes usam suas habilidades técnicas para replicar atestados médicos que receberam no passado”, disse Sokol à revista eletrônica Times Higher Education. Rastrear atestados fraudulentos nem sempre é tarefa fácil, ele observa. “É possível consultar o Conselho Geral de Medicina para checar se o médico existe. Se o profissional for real, é preciso entrar em contato com ele para ter certeza do atendimento.” Já se for um médico estrangeiro, a verificação é mais difícil.
A dificuldade é agravada pela sobrecarga das equipes das universidades do Reino Unido com a análise de solicitações de alunos, que às vezes soam excessivas ainda que sigam as regras. Um levantamento publicado na revista acadêmica Studies in Higher Education entrevistou 41 funcionários de uma universidade no nordeste da Inglaterra, cuja identidade foi mantida em sigilo, e eles apontaram má-fé em pedidos frequentes apresentados por estudantes.
Para requerer um adiamento de prazo naquela universidade, o aluno precisa apenas apresentar uma declaração informando que está doente ou passando por um problema. “Semanas antes do final do prazo, ouvi um aluno dizer que usaria uma autodeclaração para obter uma prorrogação porque iria visitar alguns amigos”, disse um dos funcionários entrevistados. Outro relatou a percepção de “desonestidade generalizada” entre os estudantes. “O sistema é muito permissivo”, explicou.
A autora do levantamento, a psicóloga Helen Saint Clair-Thompson, da Universidade de Newcastle, disse ao Times Higher Education que resolveu examinar o problema depois de ouvir relatos sobre volumes “enormes” de solicitações que se tornaram “incontroláveis”. “Alguns funcionários questionaram se não seria melhor ter sistemas automatizados que aprovassem um número mais restrito de solicitações, para que não fosse necessário avaliar tantos pedidos”, explicou.
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