Fazia pelo menos cinco anos que pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) investigavam a dieta de mosquitos da Mata Atlântica. O que viram foi uma tendência dos culicídeos (do grupo dos pernilongos e muriçocas) de se alimentarem de sangue humano em vez do de outros animais silvestres, como seria esperado, conforme descreveram em artigo publicado neste mês na revista Frontiers in Ecology and Evolution.
“Como a Mata Atlântica vem sofrendo com as ações antrópicas, a falta da fonte alimentar preferencial do mosquito faz com que eles se adaptem, garantindo a reprodução da espécie”, explica o virologista Sérgio Machado, da UFRJ e um dos autores do artigo. “A hematofagia dos culicídeos é essencial para que as fêmeas consigam produzir ovos férteis”, diz o especialista.

Paulo José Leite / UFRRJSérgio Machado instala armadilha em área de mata degradadaPaulo José Leite / UFRRJ
Se não houvesse a presença humana na região, os mosquitos se alimentariam de sangue de outros primatas e vertebrados, como felinos, aves, canídeos ou roedores. Essa seria a sua alimentação natural, de acordo com os pesquisadores.
No entanto, o desmatamento, as mudanças no clima e o aumento da presença humana obrigam animais selvagens a se deslocarem para outras áreas de mata fechada. “Quando o ser humano invade a floresta, algumas espécies de culicídeos são atraídas a ele por fatores como a temperatura corporal, a exalação de dióxido de carbono e o suor”, afirma Machado. “Temos também de considerar que somos primatas, logo temos fatores de atração parecidos aos não humanos.”
Os pesquisadores fizeram a captura de 1.714 mosquitos de diferentes gêneros e espécies em áreas da Reserva Ecológica de Guapiaçu e do Sítio Recanto Preservar, no Rio de Janeiro. As armadilhas eram instaladas no fim do dia e retiradas ao alvorecer, um horário em que não há pessoas circulando na floresta. Mesmo assim, das 27 sequências genéticas obtidas no laboratório para identificação das espécies consumidas, 18 indicavam o consumo de sangue humano.
As descobertas do estudo preocupam os pesquisadores porque o comportamento dos mosquitos poderia ampliar a circulação de vírus que os utilizam como vetor e aumentar os casos de doenças, como febre amarela, chikungunya, leishmaniose, entre outras. “A melhor prevenção seria composta por ações como a de recompor a fauna e flora de mata nativa e ter uma vigilância epidemiológica a agentes causadores de doenças circulantes, além do monitoramento do comportamento de culicídeos de forma permanente”, aconselha Machado.
Uma versão deste texto foi publicada na edição impressa representada no pdf.
ALVES, D. C. V. et al. Aspects of the blood meal of mosquitoes (Diptera: culicidae) during the crepuscular period in Atlantic Forest remnants of the state of Rio de Janeiro, Brazil. Frontiers in Ecology and Evolution. v. 13. 14 jan. 2026.
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