Após um hiato de oito anos, voltará a ser produzida a Pesquisa de Inovação (Pintec), levantamento trienal sobre a extensão e a intensidade das atividades de inovação em empresas brasileiras e a dinâmica do investimento do setor privado em pesquisa e desenvolvimento (P&D). A Pintec vinha sendo feita desde 2000 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e se tornou referência para estudos acadêmicos e políticas públicas sobre inovação empresarial, mas a série histórica parou de ser atualizada em 2017. Será a oitava vez que a pesquisa é realizada, agora com base em informações referentes aos anos de 2023, 2024 e 2025 fornecidas por dezenas de milhares de indústrias e empresas de serviço com pelo menos 10 funcionários. A coleta de dados deve acontecer a partir de maio do ano que vem e a divulgação dos resultados finais está programada para 2027.
O questionário, ainda em fase de validação, terá novidades metodológicas, como a inclusão de mais tipos de atividades de inovação. As edições anteriores da Pintec computavam a chamada inovação de produto, que é o lançamento de mercadorias ou serviços novos para o mercado ou para o portfólio da empresa, e a inovação de processo, definida como a implementação de tecnologias ou de métodos de produção. Já a nova metodologia amplia esse escopo e, na hora de avaliar os esforços das empresas e seus dispêndios em P&D, passa a considerar as “inovações em processo de negócios”, adicionando duas novas categorias à dos processos tecnológicos. Uma delas é a inovação de marketing, que tem a ver com a implementação de técnicas novas ou aperfeiçoadas de comercialização e promoção de produtos e serviços. Outra é a inovação organizacional, que se refere à aplicação de novas ideias e métodos de trabalho capazes de aprimorar a eficiência na gestão e a competitividade das empresas, com impacto em seus resultados financeiros.
A ampliação deverá ter o condão de aumentar a taxa geral de inovação, que é a proporção de empresas consideradas inovadoras no país. Na edição de 2017, essa taxa foi de 33,6% de um universo de 116.962 empresas brasileiras privadas e públicas pesquisadas vinculadas aos setores industrial, de serviços selecionados e de eletricidade e gás – esse percentual das firmas, de acordo com a pesquisa, havia feito algum tipo de inovação em produtos ou processos.
A descontinuidade da Pintec se deveu principalmente a limitações orçamentárias. As primeiras edições da pesquisa foram bancadas pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), mas a de 2017 dependeu exclusivamente de recursos do IBGE, rivalizando com as dezenas de outras pesquisas que o corpo técnico do órgão elabora. O envelhecimento dos conceitos e métodos também teve peso na interrupção. Em 2018, o Manual de Oslo, que é a principal fonte de diretrizes para coleta e uso de dados sobre atividades inovadoras de indústrias, sofreu alterações, com a incorporação, por exemplo, das inovações de marketing e organizacionais.
Para adequar o levantamento que deveria ter sido feito em 2020 às mudanças conceituais e torná-lo comparável com dados internacionais, havia a necessidade de remodelar seu questionário, o que, associado à necessidade de ajustes operacionais na coleta de dados, foi considerado inviável em um ambiente de restrição orçamentária severa, explica a economista Fernanda Vilhena, da Coordenação de Estatísticas Estruturais e Temáticas em Empresas do IBGE, uma das responsáveis pela Pintec. “Não havia recursos financeiros e de pessoal para fazer a pesquisa naquele momento, implementando as reformulações necessárias, mas a gente nunca desistiu da Pintec”, diz. “Felizmente, conseguimos reconstruir os mecanismos institucionais para elaborá-la.”
Vitor Rocha
Segundo o secretário-executivo do MCTI, Luis Fernandes, a retomada da Pintec será essencial para guiar os investimentos públicos em inovação. “A ausência de informações mais detalhadas sobre investimento, pesquisa, desenvolvimento e inovação no Brasil é trágica para a política pública”, afirmou, ao anunciar o retorno do levantamento. Fernandes foi um dos artífices da articulação para ressuscitar a Pintec, buscando novas formas de financiá-la. Dessa vez, ela não dependerá do orçamento do IBGE. Será produzida com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), disponibilizados pela Finep, e terá apoio de bolsistas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Com a pausa de oito anos, o país ficou privado de indicadores detalhados sobre suas atividades de inovação. “Infelizmente, houve um abandono da preocupação do governo em registrar informações sobre investimentos que são cada vez mais importantes para impulsionar a competitividade das empresas e do país”, lamenta o economista João Carlos Ferraz, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele explica que os investimentos em inovação e seus resultados não são fáceis de mensurar e o desenvolvimento de uma metodologia capaz de contabilizá-los mobilizou especialistas no tema pelos últimos 60 anos. “Sem os dados da Pintec, ficou comprometida a capacidade do governo de criar e monitorar políticas para inovação com base em evidências.”
O hiato não chegou a constituir um apagão estatístico completo porque, nesse intervalo, o IBGE se engajou em uma iniciativa que gerou um conjunto de indicadores básicos sobre inovação. Com financiamento da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e suporte acadêmico de pesquisadores da UFRJ, o instituto começou a fazer em 2022 um levantamento batizado de Pintec Semestral. Seu escopo, contudo, era bem mais restrito: baseou-se na aplicação de um formulário de 20 questões, aplicado a cerca de 10 mil indústrias com mais de 100 funcionários. Já na Pintec tradicional, coletam-se dados de três anos subsequentes por meio de um questionário com mais de 40 perguntas junto a um agrupamento de mais de 100 mil empresas que tenham 10 ou mais funcionários, incluindo as de serviços selecionados e energia, além das industriais.
A Pintec Semestral não é capaz de mensurar a quantidade de empresas inovadoras do país – as startups com menos de 100 funcionários, por exemplo, ficam de fora – tampouco a intensidade da inovação que praticam, mas seus dados são úteis para estimar investimentos em P&D nas empresas, já que a maior parte dos dispêndios se concentram mesmo nas indústrias com mais de 100 funcionários pesquisadas. Uma das principais vantagens é que suas informações são divulgadas rapidamente, três meses após o fim da coleta de dados. Apesar da referência ao período semestral em seu nome, ela gera dados gerais sobre inovação só uma vez por ano – enquanto o levantamento no semestre subsequente trata de temas específicos, como o uso de tecnologias digitais avançadas e a adoção de práticas ambientais nas empresas.
De acordo com a Pintec Semestral, em 2023, a taxa de inovação das indústrias extrativas e de transformação com 100 ou mais pessoas ocupadas no Brasil foi de 64,6%, abaixo do contabilizado em 2022 (68,1%) e 2021 (70,5%). O melhor desempenho foi observado nas indústrias de máquinas e equipamentos e de produtos químicos, com taxa de inovação na casa dos 88% – o pior, na fabricação de produtos de madeira (31,2%). Os resultados da sexta rodada da Pintec Semestral, sobre a adoção de tecnologias digitais avançadas, devem ser divulgados em setembro. Também no segundo semestre, serão coletados os dados da sétima edição, sobre atividades de inovação em 2024. Depois disso, ela será interrompida para que os técnicos do IBGE se dediquem integralmente à Pintec Trienal até 2027.
