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Novos Materiais

Plástico de buriti

Óleo de palmeira misturado a polímeros produz material capaz de absorver e emitir luz

Dos frutos da palmeira buriti, encontrada em áreas alagadas da Amazônia e do Cerrado, é possível extrair um óleo que, misturado a polímeros, resulta em um plástico capaz de assimilar parte da radiação solar, inclusive os raios ultravioleta. O novo material mostrou em testes de laboratório que tem também as propriedades ópticas necessárias para ser empregado na fabricação de diodos emissores de luz (LEDs), utilizados, por exemplo, em computadores, celulares e semáforos. Os estudos foram conduzidos no Laboratório de Pesquisa em Físico-Química de Polímeros da Universidade de Brasília (UnB) por Jussara Angélica Durães, orientada pela professora Maria José Araújo Sales.

A idéia de usar o óleo como um componente dos polímeros surgiu principalmente por causa de suas propriedades ópticas, como a de absorver luz visível e na faixa do ultravioleta. “O betacaroteno e o ácido oléico são os dois principais componentes, entre os vários presentes no óleo, responsáveis por essas propriedades”, diz Jussara. Cabe ao betacaroteno, um pigmento amarelo-avermelhado presente na cenoura e em outros vegetais recomendado para uso na alimentação por combater a deficiência da vitamina A, a propriedade de absorção da luz. “O buriti tem o maior porcentual de betacaroteno dentre todas as plantas conhecidas”, diz Jussara. Já o ácido oléico, presente em 76% do óleo de buriti e  principal componente do óleo de oliva, é o responsável pela emissão de luz.

Processo contínuo
A pesquisadora explica que o tipo de ligação molecular do betacaroteno permite que os elétrons mudem facilmente de um nível de energia para outro. Quando uma luz incide sobre o material, os elétrons absorvem energia, mudam para um nível excitado e ganham mais movimento. Ao retornar para o nível original, eles devolvem a energia novamente na forma de luz. “O processo de absorver e emitir a luz é contínuo”, diz Jussara. Como o processo deixa o óleo com cor bastante acentuada, na mesma tonalidade do betacaroteno, é possível enxergá-lo na região do visível. No entanto, quando o polímero recebe a adição do óleo de buriti, ele emite luz na região do verde.

A descoberta de que o óleo de buriti absorve radiação ultravioleta é do professor Sanclayton Moreira, do Departamento de Física da Universidade Federal do Pará (UFPA), que estuda as propriedades físicas de óleos da região desde o início da década de 1990. Ele verificou que o óleo de buriti, extraído tanto da polpa como da casca do fruto, é um filtro solar natural. Como estava interessado em fazer testes com plásticos, entrou em contato com o Laboratório de Pesquisa de Polímeros da Universidade de Brasília no início de 2002. O estudo, desenvolvido em parceria com a UFPA, foi o tema da dissertação de mestrado de Jussara e teve o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), resultando em um depósito de patente para os compósitos plásticos que absorvem radiação solar e funcionam como fotoprotetores. “O óleo natural faz com que o material absorva radiação solar na região do ultravioleta. Isso ocorre porque o plástico incorpora com facilidade as propriedades do óleo, permitindo também que o material se torne fotoluminescente, capaz de emitir luz na região do visível”, explica a orientadora Maria José. O óleo foi adicionado ao poliestireno, material utilizado na produção de copos plásticos descartáveis, e ao poli (metacrilato de metila), matéria-prima para peças de acrílico, como as lentes de óculos escuros.

Agora, em sua tese de doutorado, Jussara vai avaliar o tempo de degradação do compósito plástico. E também vai pesquisar mais a fundo a propriedade de emissão de luz do óleo de buriti para construir um dispositivo emissor de luz (LED). O novo plástico fotoluminescente representa, possivelmente, uma alternativa mais barata aos LEDs existentes no mercado, feitos de substâncias inorgânicas como cristais de silício, o que encarece o processo. Outra característica do óleo de buriti é a capacidade, verificada em testes preliminares, de acelerar a degradação do polímero.

“Ainda não dá para estimar com precisão quanto tempo seria necessário para ele se decompor na natureza, mas já temos fortes indícios de que é um material com degradação mais rápida que o polímero puro”, diz Jussara. Quando descartados, os plásticos comuns levam cerca de 200 a 450 anos para se decompor na natureza, contribuindo para o aumento da quantidade de lixo e a redução das reservas de petróleo, matéria-prima da qual se obtém o produto. Outra linha de pesquisa que também está sendo desenvolvida no mesmo laboratório da UnB é a mistura do amido de mandioca com poliestireno e o óleo de buriti para fabricar plásticos corretos do ponto de vista ambiental. A biodegradação do material também está sendo estudada.

Árvore-da-vida
Também chamado de palmeira-do-brejo, o buriti é encontrado em abundância em terrenos de várzea e brejos. Muitas comunidades amazônicas vivem da extração da palmeira com grandes folhas dispostas em leque, chamada também de árvore-da-vida. Dela aproveitam-se as raízes, as folhas, o caule e os frutos para consumo e extração de óleo. Uma árvore produz anualmente oito cachos, com cerca de 500 frutos em cada um. Os frutos são semelhantes a coquinhos de cor marrom-avermelhado, com forma elíptica, revestidos por duras escamas brilhantes. Dentro encontra-se uma polpa de cor amarelo-ouro, com a qual se preparam doces, sorvetes, cremes, geléias e licores. É também da polpa, que possui uma semente comestível, de onde se extrai um óleo de cor vermelho intenso utilizado tradicionalmente pelas populações locais contra queimaduras e como cicatrizante. Das folhas da palmeira são feitos balaios, esteiras, redes de dormir e cordas. Se, além dessas aplicações tradicionais, o buriti ganhar as telas de computadores, celulares e as lentes de óculos escuros, não só a tecnologia brasileira vai ganhar novos produtos originados de um material tão insólito. As várias famílias de comunidades amazônicas serão as principais beneficiadas com a extração do produto da palmeira de forma sustentável, como também está previsto na pesquisa da UnB.

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