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Artes no corpo

Plugados no mundo

Estudo inovador mostra como a dança e o corpo evoluíram em conjunto e ambos em sintonia com a tecnologia

Uma boa forma de entender a dança contemporânea é saber que ela quer estar plugada no mundo. No trabalho dos coreógrafos está presente o acaso, o improviso, os movimentos comuns do cotidiano. Quanto mais suas obras estiveram impregnadas de mundo, contaminadas por ele, melhor. Só não se pode dizer que não há nenhuma regra, porque uma, pelo menos, é seguida à risca: a busca da diversidade. Como uma das propostas desse movimento é caminhar no tempo da sociedade, a tecnologia não poderia ficar de fora desse palco. Desde o final da década de 80, sensores, câmeras e microcâmeras filmadoras, vídeos, holografias, software e hardware específicos, laser e scanner entraram em cena como agentes do espetáculo e representam um reflexo estético dessa evolução.

Datam de 1964 os primeiros registros da utilização de computador na dança, mas praticamente não há estudos no Brasil sobre o tema. Essa foi a proposta da coreógrafa e bailarina Ivani Santana, recém-doutora do Departamento de Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com o livro Corpo Aberto: Cunningham, Dança e Novas Tecnologias, editado pela Educ, com apoio da FAPESP. A proposta é entender dança e corpo como pertencentes ao mesmo processo evolutivo em uma cadeia semiósica. Sendo assim, nota-se que essa nova forma de dança não emergiu como um fato isolado, agregada apenas ao universo artístico, nem se trata de uma estética inaugural, uma forma de arte criada pela extensão de novos artefatos.

A dança-tecnologia surgiu a partir da mudança do macrossistema. A chave para assimilar o trabalho desses artistas está no próprio corpo, um dos instrumentos utilizados para sinalizar as mudanças no universo, pois nele próprio estão contidas muitas dessas transformações. Para entender como funciona a dança-tecnologia, tem de se ter em mente que a era digital não entra em cena como um mero recurso cênico. “Não se trata de produções que justapõem várias mídias, não é colagem”, diz Ivani. Para a autora, as criações que usam essa tecnologia apenas cenograficamente não fazem parte de suas reflexões. Os recursos tecnológicos são agentes do espetáculo, tão importantes quanto o bailarino, o músico e o programador, e interage com cada um deles. Arte, ciênciae tecnologia ficam entrelaçadas.

Software
O livro traça um panorama do uso da tecnologia na era digital. A primeira pesquisa conhecida no uso do computador como assistente cenográfico foi realizada por Paul Le Vasseur, em 1964, na França, e Jeanne Beaman, em 1969, nos Estados Unidos. Desde então, softwares foram desenvolvidos para várias funções, tais como: notação e composição coreográfica (espécie de partitura da coreografia), pesquisa, análise, criação e captura de movimentos, programas para auxílio educacional e ambientes de computação para interferência em tempo real. Os sensores podem ser colocados em qualquer lugar do palco – no chão, nas paredes, nos cenários, nos corpos.

Com tudo isso à disposição, surgem performances como a apresentada em L’Aprés-midi d’un Faune, de Marie Chouinard, no Canadá. Vestida com aparatos tecnológicos, a bailarina Pamela Newell dança entre cinco colunas de luz, tendo a chance de controlá-las. Há também obras mais radicais. Em Escultura do Estômago, Stelarc, na Austrália, discute literalmente a questão do corpo na arte. Um minúsculo aparelho, utilizado em implantes, é engolido pelo artista e capta a imagem do interior do corpo, exibindo uma luz que acende e apaga em sincronia com o som de uma campanhia. O célebre bailarino Mikhail Baryshnikov usou o peso da tradição de 400 anos do balé clássico para contribuir com a divulgação da dança-tecnologia. Em Heartbeat: MB, de Christopher Janney e Sara Rudner, comemorou 50 anos de palco deixando audíveis as batidas de seu coração.

O grupo Palindrome (Alemanha) utiliza a captura de imagem para controlar o meio. Arquivadas na memória do computador, elas são inputs que se transformam em uma nova informação, como música, projeção, ou iluminação. Uma câmera é colocada em cima e duas são dispostas nos cantos do palco para registrar a altura, a largura e a profundidade da imagem e estabelecer uma visão tridimensional (esse sistema é chamado de Frame-Grabbing). Elas se tornam um poderoso sensor, pois percebem qual a trajetória realizada pelo movimento do corpo no espaço e no tempo.Outro exemplo da sofisticação que esses programas podem chegar é o Very Nervous System, do artista canadense David Rokeby, que detecta, via câmera de vídeo, a presença, a imobilidade e a velocidade da ação do performer.

As imagens captadas por um ou dois aparelhos são mapeadas por uma grade pré-definida. Cada pequeno quadrado, ou outra forma permitida, dessa grade, informa as mudanças ocorridas – e o alerta é feito por meio das alterações de luz em cada região. O programa mais conhecido no meio é o Life Forms, utilizado para auxiliar na criação coreográfica. Por meio de avatares é possível criar e simular a movimentação no espaço e no tempo. Nessa seara, tudo é possível. “O meio ambiente da obra é controlado por tecnologias emergentes e experimentais”, diz Ivani.

Equipe
Com tantos protagonistas no palco, o trabalho em equipe torna-se fundamental. Nesse tipo de espetáculo, a criação é dividida tanto pelo coreógrafo quando pelos especialistas em tecnologia e o bailarino, um co-criador em tempo real, que muitas vezes controla as várias mídias do palco, durante a apresentação. Para conceber a obra, cada um deve conhecer um pouco o trabalho do outro. O artista multimídia precisa entender de dança e o performer também não pode ser analfabeto em novas tecnologias. “A criação da dança-tecnologia não necessita da prestação de serviços de outras áreas, ela carece de verdadeiros projetos colaborativos, pois as artes funcionam enoveladas”, diz. Desde 1996, Ivani trabalha com o músico Fernando Iazzetta, pesquisador da relação música-novas tecnologias.

O coreógrafo norte-americano Merce Cunningham faz parte do título do livro porque é um dos grandes responsáveis por toda essa abertura na dança, pela inserção dessa arte no mundo contemporâneo. Inovador desde os anos 50, autor de frases como “os bailarinos trabalham com seus corpos e cada corpo é único”, Cunningham está na ativa até hoje, aos 83 anos. Criou o processo do acaso, mudou a forma de o corpo ser trabalhado, decretou que os bailarinos poderiam dançar em qualquer ponto do espaço. E desde 1989 anda às voltas com o mundo digital.Quando se interessou pela dança-tecnologia, em 1994, Ivani não tinha nem computador.

Naquele período, já havia trabalhos na Austrália, no Japão, nos Estados Unidos, segundo pesquisa feita por ela. No país, não havia nenhuma bibliografia disponível, nem estudo divulgado. Esse foi um dos motivos pelos quais a autora buscou o Departamento de Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O resultado prático do trabalho de Ivani é o espetáculo Gedanken, Dança Imagem Tecnologia. Uns acreditam que a tecnologia pode acabar com a dança. Outros, que ela é a salvadora da pátria. Ivani tenta entender esses opostos, nessa forma de dança que acende paixões.

O Projeto
Corpo aberto: mídia de silício, mídia de carbono. a dança em interação com as novas tecnologias (nº 01/04092-0); Modalidade Auxílio publicação; Coordenadora Helena Katz – Programa Estudos Pós-Graduados, Comunicação Semiótica/Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); Investimento R$ 3.500,00

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