Uma das contribuições mais valiosas do campo da história para a educação em ciências e divulgação científica é retratar a ciência como um empreendimento humano. Esse é um dos maiores méritos da biografia escrita pelos jornalistas Marta Góes e Tato Coutinho. Lattes e sua participação na descoberta do méson pi, hoje chamado píon, são o personagem e o caso mais conhecidos na história da física brasileira. Entretanto, como a obra nos revela, não é só talento que faz um grande cientista nem só as descobertas que fazem a ciência.
Em prosa agradável, Góes e Coutinho contam a história de Lattes a partir dos eventos que o tornaram um herói nacional. Já no primeiro capítulo, embarcamos em um navio rumo à Inglaterra do pós-guerra. Entre histórias curiosas e apresentações acessíveis de conceitos físicos, os autores mostram como Lattes desempenhou um papel crucial no desenvolvimento de métodos de detecção de partículas elementares baseados em emulsões fotográficas e na descoberta do píon. A obra consegue uma síntese abrangente e acessível da literatura sobre a física em torno da descoberta dos mésons e dos trabalhos de Lattes e colaboradores no período em que passou na Inglaterra e nos Estados Unidos, além de acrescentar elementos inéditos.
Nessa biografia, experienciamos a ascensão, a queda e a recuperação parcial de um cientista que abriu mão da possibilidade de uma carreira confortável nos Estados Unidos para fazer física e formar físicos no Brasil, bem como contribuir para o processo de institucionalização da ciência brasileira. Conhecemos a família Lattes, de origem italiana, as circunstâncias da imigração, a formação escolar de Cesar, mas também o Brasil na década de 1930, com seu sistema educacional elitizado.
Fica claro que genialidade e esforços, por si sós, não explicam como Lattes, aos 23 anos, encontrava-se em um grande laboratório inglês, no momento certo, para participar da descoberta do píon e surfar na onda de prestígio da física do pós-guerra. Influente e bem conectado, Giuseppe Lattes encurtou a trajetória acadêmica de seu filho mais jovem em dois anos e Cesar ingressou na Universidade de São Paulo (USP) aos 16, com vantagens acumuladas. De outro modo, sua história teria sido muito diferente. A própria história da ciência brasileira teria tomado um rumo distinto, pois a repercussão da participação de Lattes na detecção do píon catalisou o processo de institucionalização da ciência no país.
No pós-guerra, quando Lattes iniciou sua carreira, a física estava no ápice de seu prestígio no mundo, graças ao seu papel na guerra. No Brasil, além desse fator, a experiência de engajamento do Departamento de Física da USP em pesquisas militares e a grande repercussão midiática dos trabalhos de Lattes precipitaram a articulação entre as elites científicas, econômicas, militares e políticas que resultou na criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), em 1949, no Rio de Janeiro, e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em 1951.
Como diretor científico do CBPF e membro do Conselho Deliberativo do CNPq desde a fundação desses órgãos, Lattes participou ativamente da construção da infraestrutura necessária à realização de pesquisas de ponta no Brasil. Parecia que o país se tornaria uma das nações líderes em física de partículas quando, em 1955, um escândalo de desvio de recursos no CBPF por um burocrata, destinados pelo CNPq à construção de aceleradores, precipitou a saída de Lattes da diretoria do CBPF e despertou transtornos mentais latentes que marcariam o restante da vida do físico.
Esses transtornos mentais servem de moldura para a segunda parte da biografia – “O abismo”. Com sensibilidade e empatia, os autores relatam como Lattes, com o apoio de familiares e amigos, conseguiu reconstruir sua carreira na recém-criada Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), fundada nos anos 1960, e formar pesquisadores que hoje são lideranças em física de partículas.
Em síntese, a biografia mostra como privilégios formatam oportunidades, mas também os sacrifícios de Lattes em prol da ciência brasileira em meio a intrigas palacianas e transtornos mentais, e de que forma a resiliência e a solidariedade lhe permitiram ressurgir do que parecia ser um abismo para formar uma comunidade que levou adiante seu legado. Tudo isso faz do personagem e de sua ciência humanos, admiravelmente humanos.
Climério Silva Neto é professor de física e de história e filosofia da ciência na Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Republicar