guia do novo coronavirus
Imprimir Republicar

Intercâmbio

Procuram-se alunos

O Brasil entra no mapa das universidades Harvard e Yale, que recrutam estudantes no país

KRIS SNIBBEHARVARD UNIVERSITY NEWS OFFICEFormando em Harvard: doação de empresário brasileiro deu origem a programa de bolsas de estudoKRIS SNIBBEHARVARD UNIVERSITY NEWS OFFICE

A Universidade Harvard, com 370 anos de existência e um legado de 40 prêmios Nobel, ocupa o 1º lugar no ranking das melhores universidades do mundo feito pelo jornal britânico The Times. A Universidade Yale, 305 anos e 19 prêmios Nobel, está em 8º lugar no mesmo ranking. Pois estas duas instituições norte-americanas estão interessadas em recrutar alunos brasileiros e em expandir sua influência acadêmica no país. Primeiro foi Yale, que em junho enviou ao Brasil um de seus diretores de assuntos internacionais, o moçambicano João Aleixo, para estabelecer contatos com instituições nacionais e iniciar a organização da Yale Week, evento que trará ao país no ano que vem os diretores de Yale encarregados da admissão de alunos de graduação e de pós-graduação. “Queremos os melhores estudantes do mundo e o Brasil, como a China e a Índia, é um dos nossos focos”, disse Aleixo. A investida faz parte da estratégia, traçada no terceiro centenário de Yale, de torná-la uma “universidade global”.

Agora é a vez de Harvard, que a partir de agosto põe em funcionamento um escritório em São Paulo, o 43º da instituição no exterior e o 2º da América do Sul (o primeiro funciona em Santiago, no Chile). A meta de Harvard é mais ambiciosa e articulada. O escritório, dirigido pelo executivo Jason Dyett, foi instalado na avenida Paulista e irá servir como ponto de atração de estudantes brasileiros e também como base de apoio para pesquisas e atividades de professores e alunos de Harvard no Brasil.

As iniciativas são uma tentativa de ampliar a presença, ainda modesta, de brasileiros nos quadros das duas instituições. “O interesse dessas universidades é bastante positivo. É ínfimo o número de brasileiros que fazem graduação no exterior e mesmo na pós-graduação o intercâmbio é muito menor do que em outros países das dimensões do Brasil”, diz o ex-ministro da Educação Paulo Renato Souza. “A educação superior no país ainda é muito fechada para o exterior. Isso fazia sentido quando a estratégia era criar um sistema de pós-graduação forte, mas já temos isso hoje”, afirma Souza. O presidente da FAPESP, Carlos Vogt, destaca a questão mercadológica presente neste tipo de recrutamento. “É uma estratégia de expansão de mercado acadêmico, bem na linha do perfil dessas instituições”, afirma.

Harvard abriga atualmente 64 estudantes brasileiros. O número de chineses na instituição é cinco vezes maior. Em Yale, o quadro se repete: há 35 brasileiros diante de 307 chineses. “O Brasil é o sexto maior país do mundo, mas está sub-representado em Yale”, afirmou K. David Jackson, diretor de estudos de graduação de português em Yale. “Na América Latina, que às vezes é vista como um bloco, o Brasil não tem o peso que merece, mas tende a ganhar ênfase e destaque por seu tamanho e importância”, disse Jason Dyett, diretor do escritório de Harvard, ao jornal Folha de S. Paulo.

Não é intenção das duas instituições criar cursos no Brasil. Em reuniões realizadas na Universidade de São Paulo (USP), João Aleixo, diretor de Yale, discutiu a possibilidade de professores norte-americanos passarem temporadas e participarem de eventos no Brasil. Ambas as instituições criarão formas de recrutar estudantes de graduação e pós-graduação e prometem bolsas para alunos que não possam pagar – a anualidade de um curso de graduação em Harvard não sai por menos do que US$ 45 mil (o equivalente a R$ 100 mil). Em Yale, a média é de US$ 40 mil (o equivalente a R$ 88 mil). “Ainda não há número definido de bolsas, mas elas serão anuais, nas áreas de educação, saúde pública e governo. Quem conseguir entrar não deixará de ir por falta de dinheiro”, afirmou Dyett. O escritório ajudará a implementar um novo programa de bolsas de estudo e de auxílio à pesquisa que permitirá à Harvard recrutar estudantes brasileiros para a graduação assim como para os programas de pós-graduação da School of Education, School of Public Health e Kennedy School of Government, independentemente da condição financeira do aluno, segundo Dyett.

Doação
A instalação do escritório de Harvard em São Paulo é o desdobramento de uma parceria que começou em 1999, graças a uma doação feita ao Centro David Rockefeller para Estudos Latino-Americanos de Harvard pelo empresário Jorge Paulo Lemann, um dos donos da cervejaria Ambev e das Lojas Americanas, graduado em 1961 na instituição. Doações desse tipo, ainda raras no Brasil, são corriqueiras nas universidades norte-americanas. Ex-alunos que enriquecem freqüentemente deixam parte de sua fortuna para a universidade que os formou. Graças à doação de Lemann, o centro já recebeu dezenas de bolsistas e professores visitantes do Brasil. No primeiro semestre de 2005, o centro patrocinou o Semestre Brasileiro de Harvard, com seminários, workshops e conferências. “O apoio de Lemann foi fundamental para colocar o Brasil no mapa mental de Harvard”, definiu John Coatsworth, diretor do Centro David Rockefeller.

Agora uma nova doação de US$ 5 milhões feita por Lemann viabilizou a instalação do escritório em São Paulo, além de novas bolsas para estudantes brasileiros em Harvard e estudantes de Harvard no Brasil nas áreas de educação, saúde e administração pública.  No ano passado, 19 alunos de Harvard receberam bolsas para estudar e participar de projetos de pesquisa no Brasil. Entre eles havia desde um estudante de física desenvolvendo tecnologia de fogões ecológicos numa empresa de Belo Horizonte, a Ecofogão, até estudantes de doutorado pesquisando o impacto de políticas de ação afirmativa nos índices de desigualdade em cidades como Brasília, Curitiba, Salvador e Rio de Janeiro. “Os Estados Unidos, assim como Harvard, nunca prestaram atenção suficiente ao que acontece no Brasil”, disse o brasilianista Kenneth Maxwell, professor visitante do Centro David Rockefeller. Maxwell disse que irá trabalhar em parceria com o diretor do escritório paulistano da universidade para “garantir que combinemos tanto iniciativas de Harvard no Brasil como iniciativas do Brasil em Harvard”.

Republicar