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Igor Zolnerkevic

Publique e pereça

Gabriel Bitar“Esconda-se!”, Prof. Titular Zé Salgado sussurrou para Prof. Visitante Padmanabham, acenando para seu cúmplice involuntário. A dupla se agachou atrás de uma velha e descartada escrivaninha de madeira, encostada em uma esquina onde dois corredores se encontravam, esperando que o pós-doc russo passasse sem os ver.

Quinze minutos antes, transcorria uma madrugada como qualquer outra no departamento de física teórica da Universidade Federal de Barreirinhas. Em seu posto na portaria, o vigia noturno lia A cabana em paz, enquanto meia dúzia de estudantes e professores notívagos continuavam seu trabalho, ora rabiscando cálculos em folhas de papel, ora em frente a um computador, digitando equações em LaTeX ou linhas de código em Fortran, a maioria escutando música com fones de ouvido. Ocasionalmente, alguém se levantava para ir ao banheiro, imprimir um artigo, preparar um copo de café na copa ou sair do prédio para respirar ar fresco ou fumar um cigarro.

Um homem de barba grisalha e óculos redondos, carregando uma pasta de couro, tocou a campainha do prédio. Seu Arnaldo, o vigia, não o reconheceu e pediu pelo interfone que se identificasse. “Está tudo bem, sou professor do departamento”, disse Salgado mostrando suas credenciais para o olho da câmera.

“Você, um matutino convicto, a essa hora por aqui?”, exclamou  Prof. Rosenberg, no corredor com uma xícara de café nas mãos. “Ah, só hoje, Rose, esqueci meu livro de integrais na sala e queria dar uma conferida, depois volto para casa.” “Ainda usando isso? Por que não procura na internet?” “É a força do hábito, rapaz… ou melhor, a inércia…” O colega encolheu os ombros e seguiu para sua sala, ao lado da de Salgado.

Entrando em sua própria sala, Zé pousou a pasta sobre uma cadeira, tirando de dentro dela e colocando nos bolsos o seu equipamento para esta noite: um canivete suíço, uma lanterna e um pequeno pedaço de arame. Esperou ali em pé por cinco minutos, olhando para o relógio de pulso. Depois, abriu a porta cuidadosamente, espreitando para o corredor. Vazio. Saiu na ponta dos pés, passando rapidamente pela porta semiaberta da sala de Rosenberg, que estava absorto a escrever um e-mail. As demais portas estavam fechadas. Ótimo. Caminho livre até o fim do corredor que continuava virando à esquerda. Estava tudo correndo mais fácil do que pensava.

Salgado não era religioso, mas naquele momento pediu para qualquer deus ou entidade que pudesse escutar seus pensamentos e interceder no mundo material que impedisse nos próximos minutos que qualquer pessoa saísse de sua sala e o flagrasse no fim do corredor. Ao virar a esquina, estaria cruzando o limite da racionalidade. Até ali, tinha como justificar sua posição e velocidade, com base em condições iniciais e de contorno razoáveis. Passando de lá, se defrontaria com uma singularidade incontornável. Estaria em uma superposição de estados tal que, caso alguém o flagrasse, colapsaria em uma circunstância comprometedora que poderia levar, em última instância, a sua exoneração. Ninguém o vira, ninguém o via, e assim permanecia naquele estado que embora fosse de loucura tinha um propósito: invadir a sala de Leverkhun.
***
Ninguém sabia como Fritz Leverkhun havia aparentemente surgido do vácuo, chegado ao Brasil e sido aprovado com distinção no concurso para titular da UFB. A atenção de todos estava mesmo em como em seguida, em menos de cinco anos, o físico alemão havia posto a UFB no mapa internacional da física. Vinte Physical Review Letters, duas capas da Nature e uma na Science. Duzentos preprints no ArXiv. Seções inteiras nos encontros da American Physical Society e da AAAS dedicados à teoria da supercondutividade de Anderson-Leverkhun, à equação da turbulência de Komolgorov-Leverkhun, à dualidade de Maldacena-Leverkhun-Witten, ao modelo econômico de Stiglitz-Leverkhun e à insuperável junção nanofotônica L, que prometia baixar o preço dos painéis solares em 60% e aumentar sua eficiência em 150%. As palavras Nobel e Leverkhun pareciam combinar perfeitamente

Há dois dias, porém, um ataque cardíaco levou o fenômeno de volta ao vácuo. Na manhã seguinte, sua família – sim, além de ter o índice h mais alto do planeta, o homem tinha mulher, três filhos legítimos, duas amantes e um bastardo, segundo fofocas – iria até o departamento para limpar sua sala e levar embora as pilhas de livros e papéis do falecido. “Quantas anotações de ideias inéditas, quantos rascunhos de papers seriam amanhã  guardados para apodrecerem em algum armário de sótão?”, era a pergunta que não saía da cabeça de Salgado, desde que ouvira a notícia pela secretária do departamento.

Teria de agir naquela noite. Aproveitando o horário de almoço dos funcionários, encontrou, no armário das chaves, a da sala de Leverkhun e tirou um molde dela.
***
Quando finalmente virou a esquina, Salgado levou um susto ao descobrir que havia mais alguém no corredor, logo à sua frente, outra pessoa que não devia estar ali, que assim como ele devia ter passado o dia inteiro atormentado pela mesma ideia e que se virou igualmente assustado ao perceber que não estava sozinho. Era Sajid Padmanabham, outro matutino convicto, outro que publicava há anos essencialmente a mesma ideia de novo e de novo em revistas de baixo impacto, mudando parâmetros mínimos aqui e ali. Ambos reconheceram de imediato nos olhos um do outro o mesmo desejo. Cada um tirou do bolso a cópia da chave da sala que haviam feito. Em uma fração de segundo, firmaram um acordo sem palavras, estabelecendo que um jamais delataria o outro e que a partir daquele momento teriam de trabalhar juntos e dividir o tesouro.

Foi então que o pós-doc russo apareceu. Poucos conheciam seu nome, mas era uma figura folclórica no instituto, se recusando a acompanhar o fuso horário brasileiro e passando a madrugada a imprimir artigos que lia nos corredores, andando para lá e para cá. Ah, não, três é demais. Além disso, os dois tinham certeza, esse era um delator em potencial. Sabiam pela maneira como o homem levantava o braço no meio dos seminários do departamento e corrigia os palestrantes. Um homem que não tolerava lances fora das regras do jogo. E assim se esconderam dele, esperando que caminhasse até o fim do corredor, desse meia-volta e seguisse em outra direção. Quando acharam que estavam a uma distância segura correram até a porta da sala de Leverkhun, viraram a chave e entraram.

E então, ao ligarem suas lanternas, os fachos de luz iluminaram o impossível. Impossível! A mesa no meio da sala não tinha uma folha de papel sequer. As estantes estavam vazias. Salgado  avançou para as gavetas e Padmanabham para o armário, enfiaram seus arames e os mexeram como aquele vídeo no Youtube ensinava, abrindo os mesmos. Nada, nem um único clipe de papel. Teriam já feito a limpeza? Estaria já tudo no lixo? “O computador”, Sajid pensou, em meio ao pânico. Sim, talvez o homem tenha sido um daqueles devotos do paperless office, que fazia todos os seus cálculos em uma janela de computador do Mathematica. Estaria o desktop protegido por senha? Como fariam para decifrá-la? “Ligue, não temos mais nada a perder”, disse Zé. À medida que o sistema operacional iniciava, sentiram um cheiro de enxofre exalar do ventilador da máquina. Em uma tela preta, em letras vermelhas surgiu uma mensagem: “Mefistófeles ao seu dispor; em que posso ajudá-los?”.

Igor Zolnerkevic é jornalista freelancer. Formado em física, escreve o blog Universo Físico (www.scienceblogs.com.br/universofisico). Fã de ficção científica e fantasia, esta é sua estreia na ficção.

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