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Epidemiologia

Quatro que valem por dez

Menos comprimidos de cloroquina têm o mesmo efeito que o tratamento tradicional contra a malária

EDUARDO CESAR A cloroquina: apenas um dia, em vez de três EDUARDO CESAR

Após observar que homens e mulheres com malária que não tomavam todos os comprimidos indicados e, mesmo assim, melhoravam ou curavam-se, pesquisadores de Belém levantaram a hipótese de que o tratamento poderia ser repensado. A hipótese mostrou-se consistente. Uma equipe do Instituto Evandro Chagas e do Centro de Ensino Superior do Pará (Cesupa) testou essa possibilidade por meio de um estudo com 132 pessoas contaminadas com o protozoário Plasmodium vivax, divididas em dois grupos, sem saberem se estavam tomando medicamento ou placebo. Os 67 pacientes que formavam um dos grupos tomaram quatro comprimidos (600 miligramas) de cloroquina – o medicamento mais adotado no tratamento contra a malária – durante um dia e placebo nos dois dias seguintes. Os 65 do outro grupo seguiram o tratamento tradicional: cloroquina todos os três dias (quatro comprimidos no primeiro dia e três nos dois dias seguintes). Durante os sete dias, todos receberam primaquina, que evita a recaída da malária, da qual se registraram quase 370 mil casos em 2003, principalmente na região Norte.

Os resultados foram estatisticamente equivalentes: 88,1% de cura – medida pela ausência de febre – no primeiro grupo, com placebo, e 91,2% no segundo, após o quarto dia de tratamento. “Quatro comprimidos de cloroquina em dose única, em vez de dez em três dias, são o suficiente para tratar a malária”, assegura José Maria de Souza, médico do Instituto Evandro Chagas e um dos autores desse trabalho, publicado na Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo. Segundo o pesquisador, não há riscos de um tratamento mais curto aumentar a resistência do Plasmodium vivax aos medicamentos. Essa possibilidade de ajuste no tratamento da malária soma-se a outra, verificada também no ano passado e noticiada na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.

Nagib Ponteira Abdon, outro pesquisador do Evandro Chagas, aplicou o tratamento padrão (dez comprimidos de cloroquina administrados durante três dias e um de primaquina durante 14 dias) em 40 pacientes, enquanto outros 40 tomaram quatro comprimidos de cloroquina, mais dois por dia de primaquina, durante sete dias. “Houve uma cura completa nos dois grupos”, afirma Souza, que orientou esse trabalho. Segundo ele, os resultados desses estudos, que implicariam custos menores e menos sacrifícios à saúde dos pacientes, foram comunicados oficialmente para o Comitê Consultivo do Ministério da Saúde, do qual ele faz parte.

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