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Carta da editora | 114

Reflexões longe da turbulência

Em meio a turbulências violentas que a partir das Comissões Parlamentares de Inquérito instaladas em Brasília vêm sacudindo a República nas últimas semanas, pode até soar como provocação a afirmação de que o país não tem nesse momento nenhuma necessidade urgente de uma ampla reforma política – bem ao contrário do julgamento do senso comum. Não se trata, no entanto, de provocação, e sim de conclusão pensada, fruto de pesquisa longamente maturada ao largo e a salvo das imagens reiteradas da mídia que propõem, dia após dia, que uma corrupção sistêmica e invencível invadiu o país e hoje corrói seu corpo e sua alma inteiros. A reiteração midiática, sabemos, costuma ser mais apta para espalhar sentimentos do que para produzir boas reflexões.

Infensos a ela, os pesquisadores que se dedicaram a examinar as estruturas e a ambiência políticas nacionais no projeto Instituições políticas, padrões de interação Executivo-Legislativo e capacidade governativa, seguros de que não são as instituições que criam os corruptos, avisam que o Brasil precisa de alguma mudança na área política, sim, mas nada radical, sob pena de se cortar canais importantes de acesso da população ao sistema político. Feito isso, os quatro pontos recorrentes na atual discussão sobre reforma política –  fidelidade partidária, lista fechada de candidatos para as eleições, cancelamento de registro do partido que não conseguir eleger pelo menos um representante para o Congresso Nacional e financiamento público das campanhas eleitorais – recebem uma análise acurada dos pesquisadores que termina por concluir que há algo de ingênuo e de falacioso na ânsia de alguns por tudo reformar para ampliar a eficiência governamental. E é essa análise, extremamente oportuna nos dias que correm, que é relatada entre outros pontos, na reportagem de capa desta edição, pelo editor de humanidades, Carlos Haag, a partir da página 80.

A população brasileira, além de calejada em escândalos que só a democracia destampa, tem se tornado mais velha, com o aumento contínuo da expectativa de vida no país. Infelizmente isso se faz acompanhar da incidência crescente entre nós de doenças típicas dos idosos, caso das mielodisplasias, sobre as quais os clínicos que atendem usualmente as pessoas mais velhas até aqui sabem muito pouco. Na verdade, mesmo os hematologistas, especialistas em doenças que afetam o sangue, só recentemente começaram a ter informações mais precisas sobre os defeitos genéticos, produzidos autonomamente pelo próprio corpo ou resultante de agressões ambientais, que provocam as mielodisplasias. Dessa forma, a reportagem do editor assistente de ciência, Ricardo Zorzetto, a partir da página 38, é uma contribuição importante de Pesquisa FAPESP para disseminar um pouco mais o que já se sabe sobre mielodisplasias. Afinal, ante uma anemia intrigante num idoso, acompanhada de queda no número de células brancas do sangue e de plaquetas, o clínico cada vez mais precisará pensar em mielodisplasias para encaminhar o paciente ao tratamento correto –  que nem sempre, é verdade, terá bons resultados.

Nos domínios da tecnologia, vale destacar nesta edição a reportagem do editor Marcos de Oliveira sobre um novo instrumento que põe feixes invisíveis de laser para trabalhar como pinças ópticas que capturam células e microorganismos vivos e, aliados a um sistema de espectroscopia, permitem examiná-los em seu funcionamento pleno e normal, analisando proteínas, lipídios, aminoácidos e outros componentes. É claro que essa novidade tecnológica terá aplicação relevante na medicina, possivelmente na indústria alimentícia e em outras áreas onde se mostre relevante o exame da célula viva.

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