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Resenhas

Um majestoso marquês

Reedição recupera brilho da biografia de Pombal

Nove anos depois de voltar do Pará, onde vivera desde formado, com grande sucesso, e iniciara carreira de homem de letras, João Lúcio de Azevedo publicou em Lisboa O Marquês de Pombal e a sua época. Nota preliminar de duas páginas esclarecia que se tratava de uma obra infensa a polêmicas. Pela análise de documentos originais, ultimamente acrescidos de testemunhos do próprio Marquês, em cartas e notas particulares, apresentava-se como versão “alguma vez porventura” diversa dos “fatos, quais se passaram”, embora, decerto, comprometida com a verdade: “A verdade histórica, que é realmente a verdade crítica”.

Gestava-se então no país um outro regime. E como Pombal há muito se impunha entre os exemplos dos republicanos, o livro editado teve uma venda expressiva. Treze anos mais tarde, ao comentar com Capistrano as peripécias de nova edição, o próprio João Lúcio adiantava que, para além do que dera a Antônio Sérgio, para matriz, só possuía o exemplar que utilizava. Em caso de necessidade, muito difícil seria alcançar um terceiro, sendo esgotado o estoque da Livraria de A. M. Teixeira, e não se encontrando nos alfarrabistas nenhuma outra cópia.

A nova edição acabou por sair no Rio de Janeiro em meados de agosto de 1922. Com patrocínio da Seara Nova e da Renascença. A essa altura, o seu autor era também conhecido por uma série de outros trabalhos, quase todos clássicos já à nascença, como Evolução do sebastianismo, História de Antônio Vieira e História dos cristãos-novos. Juntavam-se a eles diversos artigos de erudição, em várias revistas, de que merece destaque o Boletim de 2ª classe da Academia das Ciências de Lisboa. Anos depois, sairiam também as Épocas de Portugal económico: para alguns, sua maior obra-prima.

Surge agora em São Paulo o ambicioso projeto de reeditar todos os títulos autônomos desse notável representante da historiografia portuguesa, ou, mais propriamente, luso-brasileira. E O Marquês de Pombal e a sua época é o volume que marca o arranque da iniciativa. Existem detrás dessa escolha razões institucionais, ligadas à programação acadêmica de uma entidade atualmente mantida com o concurso do Instituto Camões, do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal: a Cátedra Jaime Cortesão. A partir de meados do mês de novembro, tanto na Universidade de São Paulo (USP) como na Pinacoteca do Estado e no Museu do Ipiranga, vão ocorrer debates e exposições em torno do novo papel que o governo d’el-rei d. José reconheceu a São Paulo, sobretudo a partir do governo do Morgado de Mateus. Permanecendo, porém, ainda hoje, como uma espécie de referência obrigatória entre especialistas do século 18, e tendo interesse provado para leitores de outras áreas ou simples amantes de boa prosa, O Marquês de Pombal e a sua época dificilmente é uma aposta arriscada.

Neste novo volume, todo o trabalho denota cuidado e muito bom gosto. A mancha das páginas é agradável e o tamanho adotado convida à leitura na palma da mão. O personagem que serve de tema surge na capa com os irmãos que o ajudaram a fazer fortuna: Paulo de Carvalho e Ataíde, sacerdote da Igreja Patriarcal, e Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de Estado dos Negócios Ultramarinos. Abraçam-se os três num oito deitado — sinal de infinito —, como que a representar as grandes virtudes da união.

Outra gravura marcante se encontra no termo da obra, por contraponto a esse retrato encomendado para o futuro: A expulsão dos jesuítas, de Rafael Bordalo Pinheiro — onde nos ombros do majestoso marquês repousa a cabeça do Zé Povinho. Amigo chegado de Columbano, talvez João Lúcio se divertisse com essa sátira. Aos nossos olhos, ela relembra também a duradoura eficácia da sua obra na desmontagem de idéias-feitas.

Tiago C. P. dos Reis Miranda é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa

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