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Difusão

Retratos da preservação

Exposição em Berlim mostra a riqueza da biodiversidade brasileira registrada por projetos da FAPESP

REPRODUÇÃO DO LIVRO FLORA BRASILIENSIS DE CARL FRIEDERICH PHILLIP VON MARTIUS Mata inundável no Pará, desenhada por Von Martius e um cenário semelhante…REPRODUÇÃO DO LIVRO FLORA BRASILIENSIS DE CARL FRIEDERICH PHILLIP VON MARTIUS

O Museu do Jardim Botânico de Berlim recebe até o dia 14 de setembro uma inédita mostra sobre a biodiversidade brasileira que se baseia em imagens e dados oriundos de três projetos financiados pela FAPESP: a Flora brasiliensis on-line, a Flora fanerogâmica do estado de São Paulo e o Biota-FAPESP. A exposição, cujo título é Brazilian nature mystery and destiny (Natureza brasileira: mistério e destino), dispõe de painéis com reproduções de imagens, ilustrações e textos explicativos. “Um significado especial da exposição é mostrar que o Brasil está atento à sua biodiversidade e que faz isso por meio de programas de pesquisa bem organizados e bem preparados”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.

Os 37 painéis da exposição, programada para ter início no dia 4 de junho, espalham-se pelo terceiro andar do museu alemão e também pelos quatro lances de escada que dão acesso ao pavimento. Os textos explicativos são todos em inglês, pois há a intenção de que a mostra viaje por outros países, mas foi preparado um catálogo da exposição em alemão. O conteúdo foi compilado com a ajuda de representantes dos três projetos. O Flora brasiliensis on-line, que há 2 anos disponibilizou no endereço da internet florabrasiliensis.cria.org.br a versão integral do mais completo e abrangente levantamento da flora nacional já realizado, é representado na exposição por uma seleção de imagens de espécies e de cenários produzidos, na maioria, no século XIX. O acervo de 3.840 pranchas e 10.207 páginas com os textos das descrições das quase 23 mil espécies foi feito sob a liderança do botânico Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868). Além das imagens históricas, o projeto Flora brasiliensis on-line contempla a atualização dos nomes das espécies e o acréscimo de informações mais recentes.

VOLKER BITTRICH …registrado nos arredores de ManausVOLKER BITTRICH

Cada desenho levado à exposição tem a companhia de uma fotografia atual das espécies ou ecossistemas retratados, num esforço para mostrar que boa parte do que Von Martius viu em sua viagem de 10 mil quilômetros pela Mata Atlântica, a Caatinga, o Cerrado e a Floresta Amazônica, ainda pode ser vislumbrada. A produção ou pesquisa das novas imagens ficou a cargo da equipe de Maria do Carmo Amaral, do projeto Flora brasiliensis on-line. Além da FAPESP, o projeto teve o patrocínio da Fundação Vitae e da empresa de cosméticos Natura.

O projeto Flora fanerogâmica teve início em 1993 e contou com a participação de mais de 200 pesquisadores, que descreveram cerca de 2 mil espécies fanerógamas – que produzem flores – na vegetação nativa paulista. Dessas, pelo menos 20 jamais haviam sido identificadas antes. Estima-se que os ecossistemas paulistas guardem 7,5 mil espécies de plantas desse tipo. O levantamento já resultou na publicação de cinco volumes com ilustrações e informações sobre plantas de todo tipo presentes no estado de São Paulo. Outros dez volumes serão publicados nos próximos anos. As dezenas de imagens apresentadas na exposição foram compiladas sob a coordenação de George Shepherd, do Instituto de Biologia da Unicamp e coordenador adjunto do programa Flora fanerogâmica do estado de São Paulo.

VOLKER BITTRICH Tipo de Melocactus fotografado na Bahia…VOLKER BITTRICH

Já o programa Biota-FAPESP permitiu, desde sua criação em 1999, a descrição de mais de 500 espécies de plantas e animais espalhados pelos 250 mil quilômetros quadrados do território paulista. Também produziu 75 projetos de pesquisa, 150 mestrados e 90 doutorados, além de gerar 500 artigos em 170 periódicos, 16 livros e dois atlas. Recentemente, os dados científicos foram transformados em mapas, que passaram a orientar os critérios de preservação da vegetação nativa paulista. O trabalho de seleção de imagens esteve a cargo do botânico Carlos Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas, que por vários anos foi o coordenador do Biota-FAPESP. “O Museu de Berlim tem várias espécies brasileiras e é uma referência para nós”, diz Joly. “Quando vamos fazer alguma revisão taxonômica, é comum termos de ir a Berlim para avaliar esse acervo. Por isso é especialmente importante podermos levar a exposição até lá e mostrarmos aos pesquisadores alemães que fazemos pesquisa de primeira linha”, afirma.

A escolha do nome da exposição se explica. “Mistério, porque ainda há muito a ser descoberto na biodiversidade brasileira, bem ao contrário do que acontece na Europa, que há muito tempo deixou de identificar novas espécies”, diz a jornalista Maria da Graça Mascarenhas, gerente de comunicação da FAPESP e curadora da mostra. “E destino, porque cuidar desse patrimônio, afinal, depende de nós”, complementa.

REPRODUÇÃO DO LIVRO FLORA BRASILIENSIS DE CARL FRIEDERICH PHILLIP VON MARTIUS …e planta semelhante descrita no século XIXREPRODUÇÃO DO LIVRO FLORA BRASILIENSIS DE CARL FRIEDERICH PHILLIP VON MARTIUS

Biocombustíveis
O embaixador do Brasil em Berlim, Luiz Felipe de Seixas Corrêa, destaca a importância da exposição. “Num momento em que cresce na Europa o debate sobre os biocombustíveis e os riscos que impõem às fronteiras agrícolas, a FAPESP nos dá a oportunidade valiosíssima de mostrar a nossa seriedade em torno da preservação do meio ambiente, trazendo exemplos claros do passado e do presente e do que será o futuro”, disse o diplomata, que visitou a sede da FAPESP no dia 16 de maio. “Além de ter impacto do ponto de vista de nos­sa imagem na Alemanha, a exposição ocorre num momento especial, em que o tema da biodiversidade estará à frente das atenções da comunidade internacional”, disse Seixas Corrêa, re­ferindo-se à 9ª Conferência dos Estados Signatários da Convenção sobre a Diversidade Biológica (COP 9), que se realizou em Bonn entre os dias 19 e 30 de maio. O encontro anterior, a COP 8, foi realizado em Curitiba em 2006.

A trajetória da exposição, por sinal, remonta à conferência de Curitiba, quando um evento realizado pela FAPESP apresentou os resultados da digitalização do acervo da Flora brasiliensis aos pesquisadores de todo o mundo pre­sentes ao encontro. No ano passado, Wanderley Canhos, diretor presidente do Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria), entidade responsável pela organização do banco de dados do projeto, foi procurado por pesquisadores alemães interessados em levar para a Alemanha uma exposição com as pranchas de Von Martius. A FAPESP sugeriu ampliar o escopo da exposição e incluir, além do acervo da Flora brasiliensis, imagens de outros importantes projetos no campo da biodiversidade, como a flora fanerogâmica do estado de São Paulo e o Biota. Em seguida, uma equipe da Fundação passou a trabalhar no roteiro da exposição.

MIGUEL BOYAYAN Muriqui (Brachyteles arachnoides), macaco que habita a Mata AtlânticaMIGUEL BOYAYAN

Para compor os painéis, os organizadores tiveram de vencer algumas dificuldades. Foi preciso, por exemplo, obter autorizações de uso da imagem assinadas pelos autores de todas as fotografias exibidas, sem o que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional não permitiria o envio dos painéis para a Alemanha. “Tivemos problema, por exemplo, na hora de aproveitar imagens exibidas em exposições anteriores. Algumas fotos haviam sido cedidas por nossas equipes, mas já não se sabia exatamente quem era o autor”, lembra o botânico Carlos Joly. “O jeito era substituir por outra”, afirma.

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