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Carta da editora | 198

Rumo ao desconhecido sem fim

“Ainda não tinha ousado olhar para o insondável poço em que ia mergulhar, talvez para sempre. Ainda estava a tempo de desistir”

A bela reportagem de capa desta edição de Pesquisa FAPESP trouxe-me uma irreprimível vontade de reler Viagem ao centro da Terra, o clássico de Júlio Verne, de 1864. E por uma associação absolutamente primária: ela trata de estudos que, embora deixando de lado o sonho da descida real às mais remotas profundezas do planeta –parcialmente realizado só pelo audacioso professor Otto Lidenbrock, da ficção francesa –, também as perscruta infatigavelmente. De forma menos arriscada, é certo, valendo-se de ferramentas mais adequadas ao século XXI como são as simulações computacionais, guardando distância das acidentadas aventuras oitocentistas. E dessas sondagens virtuais ao interior do planeta, os responsáveis por tais estudos, físicos mais do que geólogos, têm voltado com conhecimento novo sobre a estrutura e as transformações de minerais que se formam a milhares de quilômetros da superfície terrestre e com a hipótese revigorada da existência de um volume de água maior que a de um oceano disseminado “pela espessa massa de rochas sob nossos pés”, como relata nosso editor especial Carlos Fioravanti, a partir da página 18.

Terá sido talvez a referência a essa massa d’água dentro da Terra, com a palavra oceano – tão sugestiva de vastidão – servindo de medida sensível a seu volume, que me impeliu a Verne. Em minha memória surgiu, um tanto embotado, aquele imenso mar subterrâneo ficcional no caminho para o centro do planeta, povoado por formidáveis animais pré-históricos a se atracarem em contendas aterrorizantes, sacudido por cataclismos, cortado por vertiginosos abismos. A arrostarem esse mar com seus assombrosos eventos, estavam um tanto esmaecidos em minha lembrança os três aventureiros criados pelo famoso escritor – Lidenbrock, seu sobrinho Axel, narrador da aventura, e Hans, o valente e silencioso guia islandês. Eu precisava avivar essas imagens, verificar como a reportagem contemporânea de Pesquisa FAPESP as tinha retirado de seus remotos refúgios mentais e voltei sequiosa ao livro.

Deparei, primeiro, com o amor declarado de Verne pela ciência, de cuja natureza, digamos, iluminista em sentido lato, eu não me dera conta em meus remotos 10 ou 11 anos de idade. “Pois fique sabendo, Axel, que a ciência é sempre passível de aperfeiçoamento, e cada teoria é logo substituída por outra mais recente”, adverte Lidenbrock em conversa com o sobrinho e discípulo. Das lições no abismo surgem luzes sobre o método científico: “A ciência, meu filho, está cheia de erros; mas de erros que convém conhecer, porque conduzem pouco a pouco à verdade”. As afirmações sobre o caráter do conhecimento científico se entremeiam à explicitação das teorias geológicas, cosmológicas ou biológicas em confronto na época, a soluções tecnológicas e técnicas. E, no entanto, tudo isso se apresenta de tal modo inserido e tecido na estrutura da poderosa narrativa de Júlio Verne, tão entranhado na aventura carregada de tensões rumo ao centro da Terra, tão amalgamado às invenções fantásticas da imaginação do autor, que se torna passível de absorção inteligente numa pura experiência de prazer. Eu pensava nisso enquanto concluía a leitura do livro e, de repente, alcancei uma velha e maravilhosa sensação que, num tempo distante, os vários trabalhos de Júlio Verne provocavam em mim: a de que é possível fazer, refazer, transformar, criar, se aventurar no desconhecido e descobrir mundos. Eu só não sabia ainda o nome da ferramenta básica que Verne identificava para toda essa potência de ser.

Para continuar nesse espírito de que cada teoria pode sempre ser substituída por uma superior, nada melhor do que ler, a partir da página 46, a reportagem de Igor Zolnerkevic e Ricardo Zorzetto, nosso editor de ciência, sobre a avenida de oportunidades e problemas aberta para a física de partículas pela identificação, em 4 de julho passado, do que tudo indica ser o famoso e tão procurado bóson de Higgs. Talvez a física de partículas esteja num ponto de virada e seu bem-sucedido Modelo Padrão, associado à ideia de um Big Bang na origem do Universo, esteja vivendo os estertores finais – talvez. O físico Joseph Incandela, coordenador de um dos experimentos que levou ao suposto bóson, declarou a Pesquisa FAPESP que “este é o momento mais empolgante da física de partículas desde os anos 1970”. E talvez pudesse fazer um coro tardio à frase de Axel: “Sonho, sim; sonho acordado e vivo algo que jamais poderei esquecer”.

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