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Obituário

Sergio Miceli estudou a história dos intelectuais, sem fazer concessões

Sociólogo dirigiu a editora da USP e ajudou a difundir o pensamento do francês Pierre Bourdieu no Brasil

Renato Parada / divulgação editora TodaviaMiceli em registro de 2017Renato Parada / divulgação editora Todavia

Reconhecido como um dos principais pensadores do campo da sociologia da cultura no Brasil, Sergio Miceli investigou sobretudo a história dos intelectuais, mas ao longo de seu percurso acadêmico voltou também o seu olhar para temas que vão dos programas de auditório televisivos à elite eclesiástica. Professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), o sociólogo morreu no dia 12 de dezembro, aos 80 anos, em decorrência de um câncer no fígado.

Segundo a socióloga Maria Arminda do Nascimento Arruda, docente da FFLCH-USP e vice-reitora daquela universidade, Miceli “dessacralizou a vida intelectual brasileira” e instituiu um novo paradigma de análise dos fenômenos culturais no país ao romper com as interpretações que pensavam a produção artística e intelectual em uma esfera à parte das relações sociais.

Isso se deu na obra que se transformou em um clássico da sociologia da cultura: Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920-1945). “Foi um livro inovador. As análises sobre a origem social dos intelectuais na chamada República Velha [1889-1930] e da Era Vargas [1930-1945] se tornaram referência para elucidação das relações entre a produção simbólica e, por exemplo, o processo de formação familiar”, afirma a pesquisadora.

Originalmente publicado pela editora Difel, em 1979, a convite do sociólogo e depois presidente da República (1995-2002) Fernando Henrique Cardoso, o livro é fruto da tese de doutorado de Miceli. Defendida em 1978, na USP, com dupla titulação pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, na França, a pesquisa foi orientada pelos sociólogos Leôncio Martins Rodrigues (1934-2021) e Pierre Bourdieu (1930-2002).

A relação com Bourdieu se iniciou por carta, quando o jovem pesquisador brasileiro organizava para a editora Perspectiva, no início da década de 1970, uma das primeiras coletâneas de artigos em língua estrangeira do sociólogo francês, então pouco conhecido no país. A publicação saiu em 1974, com o título de Economia das trocas simbólicas.

Logo em seguida, Miceli pleiteou a orientação de Bourdieu, sendo aceito. “Na tese, Miceli mostra a ligação de nomes como Monteiro Lobato [1882-1948], Oswald de Andrade [1890-1954], Mário de Andrade [1893-1945] e Carlos Drummond de Andrade [1902-1987] com a classe dirigente”, observa o sociólogo Marcelo Ridenti, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Na banca de defesa da tese estava o sociólogo e crítico literário Antonio Candido (1918-2017), que fez duras críticas ao trabalho, mas acabou assinando o prefácio do livro, sem abrir mão dos questionamentos levantados. Em entrevista à Revista Estudos de Sociologia, veiculada em 2019, Miceli contou que a forma com que ele abordou a trajetória de certas personalidades do meio literário e intelectual foi um dos pontos que desagradaram Candido. “A arguição envolvia certa voltagem de testemunho: ele havia conhecido algumas das figuras mencionadas no trabalho e se mostrou um pouco chocado com a objetivação com que foram tratadas na tese”, lembrou. De acordo com Arruda, apesar das divergências, Miceli e Candido sempre mantiveram um diálogo e respeito mútuo.

Entre 2009 e 2013, Miceli coordenou o projeto temático “Formação do campo intelectual e da indústria cultural no Brasil contemporâneo”, realizado com apoio da FAPESP. “Venho de outra tradição teórica, mas aprendi bastante com Miceli, sempre disposto a questionar as representações que os intelectuais fazem de si mesmos”, afirma Ridenti, um dos integrantes do projeto. Segundo o pesquisador, os debates com Miceli e colegas do temático o ajudaram na formulação do estudo que resultaria mais tarde no livro O segredo das senhoras americanas (Editora Unesp, 2022), em que trata da atuação de intelectuais brasileiros durante a Guerra Fria, no período entre os anos 1950 e 1960.

A indústria cultural no Brasil já havia sido abordada por Miceli em sua dissertação de mestrado, defendida na USP, em 1971, também sob orientação de Leôncio Martins Rodrigues. Essa foi a primeira incursão do pesquisador carioca no universo acadêmico paulista – ele se graduou em Ciências Políticas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) em 1967. Intitulado “A noite da madrinha: Ensaio sobre a indústria cultural no Brasil”, o trabalho saiu em livro pela Editora Perspectiva em 1972 e posteriormente pela Companhia das Letras (2005). Nele, analisa o programa de auditório apresentado por Hebe Camargo (1929-2012) na televisão, na década de 1960.

Como explica o sociólogo André Botelho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a indústria cultural é um tema recorrente em estudos acadêmicos dos anos 1960 e 1970, inclusive na sociologia. Na ocasião, o grande referencial teórico era a Escola de Frankfurt. “Miceli não seguiu a abordagem frankfurtiana, mais filosófica, e tomou um caminho empírico, sociológico”, diz o pesquisador. “Ele mostrou como, ao assumir as personas de mãe, filha, esposa e dona de casa, Hebe reforçava os estereótipos femininos e veiculava um discurso ideológico que encontrava eco no conservadorismo da sociedade brasileira durante a ditadura militar [1964-1985].”

Na tese de doutorado que virou livro, Miceli analisou a relação de intelectuais com a classe dirigente no país

Miceli explicitou ao longo de sua obra a teia de relações familiares que formou a intelectualidade no Brasil, mas não deixou de refletir sobre si mesmo a partir desse viés. Na mesma entrevista à Revista Estudos de Sociologia, ele revela que sua obra tem um aspecto autobiográfico. “Vim de uma família de imigrantes italianos calabreses, distantes do universo cultural. Meu tio [materno] foi o primeiro a entrar na faculdade. Meu pai provinha de uma família decadente do Vale do Paraíba, que também era distante da cena cultural. Eis o que enxergo de autobiográfico: a indagação de como alguém como eu se torna intelectual”, contou. No depoimento, relata ainda que sua inserção nessa seara se deu por meio do tio materno mencionado anteriormente, Armando, que era redator-chefe do jornal carioca Correio da Manhã e o ajudou a custear os estudos.

A trajetória acadêmica do sociólogo foi marcada por uma profícua produção editorial: ele escreveu e organizou mais de 40 livros, incluindo A elite eclesiástica brasileira (Bertrand, 1988), Imagens negociadas (Companhia das Letras, 1996) e Nacional Estrangeiro (Companhia das Letras, 2003). Em 1989 saiu em dois volumes História das ciências sociais no Brasil (Editora Sumaré), obra coletiva que coordenou no Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo (Idesp) e reuniu autores como os cientistas políticos Maria Hermínia Tavares de Almeida e Fernando Limongi.

A relação com a obra de Bourdieu é outra marca registrada. “Miceli tomava como variáveis explicativas as origens de classe, as tensões familiares, os projetos de carreira, os constrangimentos produzidos pelo mercado e pelo Estado e mesmo as pulsões afetivas. São aspectos encontrados na obra de Bourdieu, mas ele filtrava essa influência de modo original, atento ao contexto brasileiro”, comenta o sociólogo João Marcelo Maia, da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV-CPDOC), no Rio de Janeiro.

Além do trabalho como pesquisador e professor, Miceli se engajou em diversos papéis institucionais, como o de secretário-executivo da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), entre 1983 e 1988, onde fundou a Revista Brasileira de Ciências Sociais, em 1986, e o de diretor-presidente da Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), na década de 1990 e também entre 2022 e 2025. “Na Edusp ele contribuiu para que obras fundamentais da sociologia internacional fossem traduzidas para o português, permitindo que as novas gerações lessem trabalhos clássicos como os de Charles Tilly [1929-2008]”, destaca Maia.

Antes de ingressar como professor na USP em 1989, Miceli lecionou, por exemplo, na FGV (1971-1986), em São Paulo, e na Unicamp (1984-1985). Atuou ainda como professor visitante em diversas universidades estrangeiras, como Stanford, nos Estados Unidos. Segundo Arruda, a passagem por aquela instituição de ensino entre 2001 e 2002 permitiu ao sociólogo acessar o vasto acervo de obras de escritores e intelectuais latino-americanos presentes na biblioteca. O mergulho rendeu análises comparativas sobre o modernismo brasileiro e argentino, bem como textos a respeito da história intelectual da América Latina, a exemplo do livro Vanguardas em retrocesso (Companhia das Letras, 2012).

Arruda ressalta ainda que o legado de Miceli extrapola a seara das ciências sociais. “Por ter se dedicado a uma variedade de temas, ele influenciou com suas pesquisas outras disciplinas como história, letras e artes visuais”, afirma. Maria Alice Rezende, professora do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio, que se define como historiadora convertida à sociologia, também atesta o impacto multidisciplinar da obra de Miceli. “O trabalho de Sergio facilitou minha compreensão do campo em que adentrei por aspectos como o peso conferido à história e a ênfase à questão do poder”, diz.

Miceli deixa os filhos Pedro, Teresa e Joaquim e a mulher, Heloisa Pontes, professora do Departamento de Antropologia da Unicamp, com quem publicou o livro Cultura e Sociedade, Brasil e Argentina (Edusp, 2014).

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