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Ambiente

Solo de vegetação pantanosa do Cerrado tem oito vezes mais carbono por área que a parte aérea da floresta amazônica

Terra abaixo de veredas e campos úmidos abriga 1.200 toneladas desse elemento químico por hectare

Área de veredas no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, no nordeste de Goiás

André Dib

Fisionomia típica de áreas do Cerrado, marcadas por vegetação arbustivo-herbácea e solos saturados de água e de matéria orgânica, as veredas e os campos úmidos armazenam um enorme estoque de carbono abaixo da superfície. Estudo de pesquisadores brasileiros e do exterior, aceito para publicação no periódico New Phytologist, estima que a camada de solo dessas formações, que pode chegar a 4 metros de profundidade, abriga 1.200 toneladas de carbono por hectare. “É cerca de oito vezes mais carbono por hectare do que o encontrado na biomassa aérea da floresta amazônica”, compara a bióloga Larissa Verona, autora principal do estudo, que defendeu em 2024 dissertação de mestrado sobre o tema no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp) financiado por bolsa da FAPESP.

As veredas, imortalizadas na obra mais conhecida do escritor João Guimarães Rosa (1908-1967), são um tipo de turfeira, um ecossistema de áreas alagadiças e pantanosas rico em carbono que, devido às condições locais com pouco oxigênio, decompõe muito lentamente a matéria orgânica ali depositada. Cerca de 3% das superfícies terrestres globais abrigam turfeiras, a maioria em zonas de clima frio e boreal do hemisfério Norte. Elas armazenam mais de 30% de todo o carbono dos solos do planeta.

Verona e seus colaboradores analisaram amostras de solo de veredas e campos úmidos em sete pontos do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, no nordeste de Goiás. Segundo o estudo, o carbono no solo desses locais tem se acumulado durante os últimos 20 mil anos. A extensão das veredas e dos campos úmidos no Cerrado chega a 16,7 milhões de hectares, cerca de dois terços da área do estado de São Paulo. “Esses ecossistemas são altamente vulneráveis às mudanças climáticas e a alterações no uso da terra”, comenta a bióloga. O avanço da agropecuária sobre áreas de vegetação nativa, o aumento da temperatura e a redução de chuvas tendem a elevar as emissões de carbono provenientes dos solos de turfeira, como as veredas, segundo os pesquisadores.

A reportagem acima foi publicada com o título “Abaixo das veredas” na edição impressa nº 361 de março de 2026.

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