Um levantamento sobre startups de base científica e tecnológica na América Latina mostrou uma disparidade entre o Brasil e alguns de seus vizinhos na capacidade de atrair financiamento privado para essas empresas. De acordo com o “Latam deep tech radar 2025”, um relatório lançado em setembro pela consultoria Emerge em parceria com a plataforma para empreendedores Cubo Itaú, o Brasil concentra, de longe, o maior número de startups deep techs: 72,3% das 1.316 empresas mapeadas na região são brasileiras. As deep techs se distinguem por propor inovações com potencial disruptivo, apresentar ciclos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) demorados e exigir investimentos consideráveis e de longo prazo. Mas o país aparece apenas em terceiro lugar em volume de investimentos privados em 2024. O conjunto das 952 empresas brasileiras dessa categoria alavancou US$ 216 milhões no ano. O valor é equivalente a 44% dos recursos obtidos pelas 145 deep techs da Argentina e 35% pelas 72 do Chile.
Os dados do relatório expõem a dificuldade das empresas brasileiras de obter dinheiro para crescer: 47% declararam não ter recebido nenhum tipo de investimento e, entre as que conseguiram, o número de beneficiadas com recursos públicos foi cinco vezes superior ao das que atraíram capital privado. A maioria das deep techs do Chile e da Argentina também teve dificuldade de obter recursos, mas o que distinguiu o desempenho desses países foi um número restrito de startups que furaram a bolha e obtiveram aportes extraordinários.
Uma única empresa chilena levantou US$ 466 milhões, o equivalente a 75% do total das deep techs do país. Trata-se da NotCo, empresa de tecnologia de alimentos que desenvolve e oferece alternativas veganas a produtos de origem animal, como leite (o NotMilk), maionese, iogurte, sorvete e hambúrgueres feitos à base de plantas – entre seus investidores está Jeff Bezos, o dono da Amazon. Em segundo lugar, com US$ 40 milhões, aparece o PhageLab, que produz soluções baseadas em fagos, vírus que se alimentam de bactérias, para prevenir doenças e reduzir o uso de antibióticos na criação de gado e de aves.
Já a Argentina se distingue por atrair investimentos para startups de tecnologia aerospacial. O principal destaque é a Satellogic, que levantou US$ 287 milhões – a empresa opera satélites de observação da Terra e oferece dados e serviços de monitoramento ambiental. Depois aparece a Skyloom, fornecedora de terminais que permitem a comunicação de satélites entre si e com a Terra. Criada em 2017, a deep tech arrecadou US$ 40 milhões em investimentos e, em novembro passado, foi comprada pela empresa de computação quântica norte-americana IonQ.
Os recursos conquistados em 2024 pelas deep techs brasileiras mais bem-sucedidas estão bem abaixo desse patamar, de acordo com o levantamento da Emerge. Na liderança, com US$ 23,6 milhões, aparece a brain4care, que criou uma tecnologia não invasiva de monitoramento da pressão intracraniana utilizada por mais de 80 hospitais e clínicas no Brasil (ver Pesquisa FAPESP nº 280). Em seguida, vêm a growPack (US$ 3,8 milhões), que desenvolve embalagens sustentáveis e recebeu aportes de empresas como a Ambev e o iFood; e a Symbiomics (US$ 2,7 milhões), que produz cepas de microrganismos utilizados como bioinsumos na agricultura.
Segundo o responsável pelo relatório, Daniel Pimentel, diretor e cofundador da Emerge, o desempenho do Brasil se explica por uma característica peculiar de suas startups. “A maioria delas surge para resolver problemas do mercado brasileiro, que é grande o suficiente para sustentar empresas. Mas as soluções não são escaláveis para outros mercados e, por isso, há mais dificuldade de atrair investimentos de fundos internacionais”, afirma. O escopo das startups chilenas e argentinas com frequência é mais amplo, observa Pimentel. “Como esses países não têm mercados muito grandes, elas já nascem tentando oferecer soluções para problemas de caráter global e, com isso, conseguem despertar mais facilmente o interesse do capital privado e internacional”, afirma.
O risco e a incerteza inerentes às deep techs fazem com que elas sejam escrutinadas de forma especialmente rigorosa. Gabriel Perez, gestor do Fundo Pitanga, afirma que é desafiador identificar as startups certas para investir no Brasil – o Pitanga, que tem foco em empreendimentos baseados em inovações radicais, foi criado em 2011 por um grupo de empresários brasileiros e, em dois ciclos de investimento, selecionou até agora apenas quatro empresas – duas brasileiras, uma argentina (a Satellogic) e uma uruguaia. “Há ciência sólida produzida pelas universidades brasileiras e investimentos públicos amparando a formação de startups. Mas não é simples encontrar empresas com projetos ambiciosos e times experientes para receber financiamento”, diz.
Startups argentinas e chilenas tendem a oferecer soluções para o mercado global
Perez reconhece que falta aspiração global a muitas startups do país, mas pondera que isso não é uma particularidade delas. “O empresariado brasileiro, de modo geral, investe pouco em P&D e se acostumou a explorar o mercado local”, diz. Essa debilidade, segundo o gestor, tem influência no funcionamento de todo o ambiente de inovação. “Nos ecossistemas mais avançados, o investimento privado em P&D cria um caldo de cultura que fortalece as startups. As grandes companhias desenvolvem projetos em colaboração com deep techs e muitas vezes terminam adquirindo essas empresas, retornando capital aos investidores financeiros. Isso praticamente não ocorre por aqui.”
A Next Innovative Therapeutics (Nintx), uma das startups brasileiras atualmente apoiadas pelo Fundo Pitanga, é uma exceção. Ela tem entre seus empreendedores egressos de um time de inovação de uma grande farmacêutica brasileira, o Aché Laboratórios, onde tiveram a oportunidade de liderar projetos de elaboração de medicamentos inovadores voltados ao mercado global. A Nintx está criando produtos farmacêuticos baseados na biodiversidade brasileira para lançar no mercado em um horizonte de 5 a 7 anos, mas deve fabricar antes produtos nutracêuticos, que têm um processo de desenvolvimento e normas regulatórias mais simples. A empresa já recebeu duas rodadas de investimento, de US$ 3 milhões, em 2022, e de US$ 7,5 milhões, em 2024, lideradas pelo Fundo Pitanga.
O engenheiro Fernando Peregrino, pró-reitor de Gestão e Governança da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta uma dificuldade estrutural para ampliar o financiamento a startups deep techs: as taxas de juros elevadas no país. “Em uma economia extremamente financeirizada como a nossa, o destino do dinheiro privado raramente é o setor produtivo. As deep techs brasileiras, que têm um risco tecnológico maior, ressentem-se de não conseguir alavancar recursos por conta da maior remuneração obtida pelos investidores no mercado financeiro”, diz Peregrino, que entre 2023 e 2025 foi chefe de gabinete da presidência da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e organizou um relatório do órgão com diretrizes para ampliar o financiamento a deep techs no Brasil e propor, com apoio de mais de 30 entidades, uma política nacional de suporte a esses novos agentes tecnológicos.
É certo que os riscos impõem uma trava para o financiamento de deep techs. “Temos na América Latina não mais do que 10 fundos investindo em empresas inovadoras em biotecnologia, enquanto em outras áreas, menos intensivas em tecnologia, há mais financiamento”, diz Francisco Salvatelli, gestor do GridX, fundo de capital de risco que ajuda a formar equipes para desenvolver startups nas ciências da vida, que já investiu em 93 empresas na América Latina, oito delas brasileiras. A percepção de gestores de fundos, contudo, é que há mais financiamento no Brasil do que empresas preparadas para aproveitar as chances. “O capital de risco não é tão abundante na América Latina como nos Estados Unidos e na Europa, mas ele vai atrás de boas oportunidades e tem faltado massa crítica no Brasil para atrair recursos internacionais”, diz o biólogo Natanael Leitão, operational partner da Zentynel Frontier Investments, fundo de capital de risco sediado no Chile, com foco em biotecnologia na América Latina.
Na tarefa de selecionar deep techs de biotecnologia, Leitão observou que as startups brasileiras precisam, em geral, melhorar o padrão de governança. Ele explica que investidores de deep techs estão em busca de empresas com gestores bem treinados e históricos contratuais transparentes e alinhados com padrões internacionais – e nem sempre encontram esse ambiente no Brasil. Uma das deep techs que receberam investimento do Zentynel (que levantou uma rodada de US$ 2,5 milhões em 2024) é a uruguaia Xeptiva Therapeutics, criada em 2021. Ela desenvolveu uma vacina para dor crônica em animais, com uso potencial em seres humanos, e é uma spin-off do Instituto Pasteur de Montevidéu. “Encontramos empreendedores altamente capacitados para negociar, amparados pela credibilidade do Instituto Pasteur, o que contribuiu para fazermos o investimento”, diz. Em comparação, as negociações com uma startup brasileira de perfil semelhante naufragaram porque os empreendedores, ligados a uma instituição pública, não pareciam prontos para discutir questões ligadas à propriedade intelectual e uso comercial da tecnologia. “E também se tratava de uma proposta excelente de vacina, uma inovação disruptiva para o setor”, conta.
O Zentynel investe em 16 empresas de biotecnologia da América Latina, cinco delas ligadas ao Brasil. Segundo Leitão, o país tem grande potencial de crescimento no campo da biotecnologia e as empresas selecionadas pelo fundo são de alta qualidade. Um destaque brasileiro do portfólio do fundo é a Autem Therapeutics, cujo carro-chefe é um dispositivo médico que auxilia no tratamento do câncer – por meio de impulsos eletromagnéticos, atua para sincronizar o ciclo celular das células tumorais, tornando o paciente mais responsivo às terapias disponíveis no mercado. “O efeito está bem relatado cientificamente em experimentos com mais de 700 aplicações da terapia em campo, e agora vai ser alvo de um ensaio clínico multicêntrico no Brasil”, explica o gestor. A Autem recebeu US$ 10 milhões em uma rodada de investimento liderada pela Zentynel, em 2022. Leitão observa que há níveis de maturidade diferentes dos ecossistemas de startups no Brasil e em vizinhos latino-americanos. “Ainda é incomum no país, por exemplo, a participação de advisors internacionais nas startups ou de conselheiros com histórico empreendedor que atestam o potencial da empresa e estimulam o capital de risco a investir nelas”, afirma.
Já Francisco Salvatelli, do fundo GridX, é otimista em relação ao futuro das deep techs brasileiras. “Há financiamento público para os estágios iniciais das startups e as oportunidades são enormes. Creio que, mais cedo ou mais tarde, os investidores vão identificá-las. E isso se tornará mais fácil à medida que houver mais empresas preocupadas em oferecer soluções disruptivas para problemas globais.”
A reportagem acima foi publicada com o título “Travas no investimento” na edição impressa nº 359, de janeiro de 2026.
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