FICÇÃO

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A suspeita

B. KUCINSKI | ED. 215 | JANEIRO 2014

 

– Não me venham com bobagem; eu também estou convencido de que erramos feio, não há dúvida, mas daí a concluir que nós o levamos à loucura é demais! Uma pessoa assim já nasce de parafuso solto, vive um equilíbrio instável, basta uma tensão súbita e o sujeito desaba, o equilíbrio se rompe. Além disso, pelo que vocês estão dizendo, o diagnóstico foi feito agora e já se passaram oito anos desde que tudo aconteceu.

O grupo pequeno e compacto escuta atentamente o homem alto de cabelos grisalhos, que lhes fala da porta da sala em tom de autoridade incontestável. Sua voz é forte e de timbre grave. Estão todos de pé e parecem nervosos. Um deles faz uma pergunta que mal se ouve. O homem alto responde.

– Eu discordo. Em primeiro lugar, oito anos é muito tempo. Por que agora e não antes? Muita coisa deve ter acontecido com ele nesses oito anos. Em segundo lugar, a tensão que havia era da época, não foi uma tensão provocada por nós, as coisas foram acontecendo quase sem a gente perceber, ninguém combinou nada, quando ele se aproximava a gente só mudava de conversa, sem nenhuma agressão, nenhuma acusação.

– Começou por causa daquele sorriso enigmático dele – diz alguém da roda.

– Exatamente, um sorriso idiota; prestava atenção nas conversas e não falava nada, só sorria. Podia ser uma notícia ruim, aliás, era só notícia ruim, prisão, cassação. Mesmo assim, ele parecia achar graça. Um escárnio. Se alguém lhe dirigia o olhar, mostrava ainda mais os dentes. Pensem bem: nunca opinava, nunca se soube o que ele pensava daquilo tudo. Mas ele estava sempre ali, ouvindo. Como é que não se ia desconfiar de um cara assim?

Silêncio. Ninguém diz nada. Passam-se cinco segundos, dez. O homem alto volta a falar:

– Também nunca se soube de onde ele veio. Vocês estão dizendo que ele foi internado em Santos, que a família é de lá. Mas, para nós, naquele tempo, ele era um cara sem passado, sem referências. É verdade que nunca perguntamos diretamente. Mas quando os rumores começaram, tentamos mapear, investigar um pouco aqui e ali; nem o Mario que dividia o alojamento com ele sabia de onde ele era, em que cidade nasceu, quem eram os pais dele. Era um tipo soturno, não tinha amigos, não tinha mulher. Tirando o Nestor, quem andava com ele? Ninguém. E Nestor era mais um parceiro de pesquisa do que propriamente amigo.

– O que o Nestor dizia dele? – Pergunta alguém.

– Dizia que ele era mais um esquisitão, dos tantos gênios e disléxicos que pululam aqui na Física, e que ele era crânio em analítica.

– Então quem foi que lançou a suspeita?

– Eu sei lá quem foi? Pode ter sido qualquer um de vocês. Eu é que não fui. Nem eu nem o Nestor. Alguém o teria visto entrando na sala do tal de Vitor, o cara do SNI, que se instalou na Reitoria. Ou saindo da sala. E daí? Ele pode ter entrado na sala errada, ou pode ter sido chamado por algum motivo explicável. Ou pode nem ter sido ele, a informação não era categórica. Foi assim que começou, como um rumor. Mas o motivo mesmo foi o sorriso bobo. Foi como se, de repente, o rumor explicasse o sorriso que até então ninguém conseguia entender. De repente tudo se encaixava: ele era um informante.

Alguém diz:

– O Nestor explicou que ele tinha medo de falar porque só entendia de ciência, o sorriso forçado dele era uma defesa quando a conversa era outra.

– E sempre era outra, não é mesmo? Ninguém discute ciência em rodinha de corredor, discute num seminário, não na hora do cafezinho, e só as pessoas da área.

– Demorou para ele perceber o gelo? – Pergunta um rapaz da roda que parece mais jovem que os demais.

– Demorou, até nisso ele era devagar. Ele foi se afastando aos poucos, até que passou a só conversar com o Nestor, mesmo assim, pouco.

– Disse o Mário que ele começou a beber. Primeiro, uns tragos à noite, depois de modo descontrolado. Então teve aquele episódio de convulsão e ele parou de beber; foi quando pediu a transferência.

– Uma perda, sem dúvida, eu li os trabalhos dele, tem cabeça boa demais para se enfiar naquele campus avançado, no meio do nada.

– Tem não, tinha… um esquizofrênico não tem uma cabeça, tem duas…

Novo silêncio. Continuam todos de pé, parecem petrificados. Passados quinze segundos de absoluto silêncio, o homem alto e grisalho volta a falar, agora em tom ainda mais peremptório.

– Já admiti que cometemos uma grande injustiça. Foi um comportamento de grupo, talvez nos tenha faltado maturidade, discernimento, ouvir melhor o Nestor; mas a culpa mesmo foi da situação, do clima, do medo, a gente se fechava, cada grupinho era um gueto. E do sorriso cretino dele. Foi uma espécie de efeito colateral da ditadura. É como diz o filósofo, o homem e suas circunstâncias. O sorriso era do homem, o DNA da loucura também já estava nele, as circunstâncias foram da ditadura. E ponto final.

B. Kucinski é professor aposentado da ECA/USP, jornalista e escritor. É autor de Jornalistas e revolucionários e Jornalismo econômico, entre outros livros. Sua primeira ficção, K., foi finalista de vários prêmios literários. Este conto faz parte da antologia Você vai voltar pra mim, que está sendo publicada pela Cosac Naify.


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