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Mosquitos transmissores de dengue podem disseminar febre chikungunya

Eficiência detectada em estudo pode instalar no Brasil uma doença que ainda não existe no país

MARIA GUIMARÃES | Edição Online 18:46 9 de maio de 2014

 

Fêmea de Aedes albopictus pode transmitir doenças ao se alimentar de sangue humano

Fêmea de Aedes albopictus pode transmitir doenças ao se alimentar de sangue humano

Com a enxurrada de visitantes que deve visitar o Brasil durante a Copa do Mundo, o parasitologista Ricardo Lourenço, pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), tem uma preocupação que passa muito longe de aeroportos e estádios: a possibilidade de que entre no Brasil uma nova doença, a febre chikungunya. O temor vem dos fortes indícios de que os mosquitos Aedes aegypti e A. albopictus – os mesmos que transmitem a dengue – são eficazes em transmitir a doença que já existe na África, na Ásia e na Europa, e recentemente chegou à América, segundo artigo no site da revista Journal of Virology.

“A introdução do chikungunya no Brasil é inevitável”, afirma o epidemiologista Eduardo Massad, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “Temos Aedes de sobra, eles são muito competentes em transmitir o vírus e uma proporção muito baixa deles está infectada com dengue.” Mas ele não está preocupado com a Copa do Mundo, por acontecer numa época em que a densidade de mosquitos é muito menor, pelo menos nas regiões Sul e Sudeste. “No Norte talvez o risco seja maior”, admite. Para ele, o que mais requer atenção é o pico de turismo no Brasil coincidir – todos os anos – com a alta dos mosquitos, no verão. “Eu também ficaria de olho na América do Norte”, alerta. Uma vez que o vírus se estabeleça por lá, o risco aumenta aqui também, devido aos deslocamentos constantes de viajantes.

É exatamente a capacidade de os mosquitos transmitirem o chikungunya que foi foco do trabalho coordenado por Lourenço, que também inclui pesquisadores do Instituto Pasteur e da Universidade Pierre et Marie Curie, na França. Eles avaliaram a suscetibilidade das duas espécies de mosquitos à infecção pelo chikungunya, e também a quantidade de vírus que chegam à saliva e podem infectar pessoas picadas. “Eles são competentes para transmitir a doença, mas a competência é heterogênea”, resume Lourenço. O grupo analisou mosquitos recolhidos em 35 populações em vários pontos das Américas, diante de três tipos de vírus: o original africano, outro que se espalhou para a Índia e a Europa, e uma variedade asiática que começou a se disseminar pelo Caribe.

No Brasil, foram analisados mosquitos provenientes de 10 cidades, em todas as regiões do país. Os resultados para o Rio de Janeiro foram especialmente preocupantes: “Quase 90% dos mosquitos eram capazes de transmitir a doença sete dias após infectados”, conta o pesquisador, “uma taxa de transmissão muito alta”. Em alguns casos os mosquitos já tinham uma carga suficiente na saliva apenas dois dias depois de receberem os vírus, o que aumenta muito a possibilidade de serem vetores. Segundo Lourenço, a transmissão da dengue pelas mesmas espécies é 2 a 5 vezes mais lenta: leva entre 10 e 14 dias. É importante porque, nesse caso, a maior parte dos mosquitos acaba não sobrevivendo o suficiente para se tornar transmissor. Mesmo assim, a epidemia de dengue muitas vezes preocupa.

A febre chikungunya tem sintomas semelhantes aos da dengue, mas causa dores articulares fortes quase imediatamente, sobretudo nas mãos e nos pés. Essas dores podem continuar incomodando por um tempo mais longo, por semanas ou meses. Até o final de 2013, só tinham sido detectados nas Américas casos em que o paciente foi infectado no exterior. Mas então uma epidemia se instalou na ilha de Saint-Martin, um território francês no Caribe, e se espalhou para outras ilhas e chegou à Guiana Francesa. “Se chegar aqui, tem facilidade de transmissão”, avisa Lourenço.

Para ele, a possibilidade preocupa porque pode coexistir com a dengue e confundir o diagnóstico. “Se uma pessoa tiver dengue e os agentes de saúde acharem que é chikungunya, pode haver uma subnotificação de dengue e, em consequência, um risco maior da forma hemorrágica”, imagina. Por isso, ele propõe uma vigilância cerrada para evitar que o vírus chikungunya se instale aqui. “Se for detectado um caso, é preciso que se tome providências focais para evitar a transmissão e eliminar focos de mosquito na área.”

Para sair do terreno das especulações, Massad está começando a calcular o risco de o vírus se espalhar no Brasil. Quaisquer que sejam os resultados, parece certo que é momento de atenção.

Artigo científico
VEGA-RÚA A. et al. High vector competence of Aedes aegypti and Aedes albopictus from ten American countries as a crucial factor of the spread of Chikungunya. Journal of Virology. On-line 26 mar. 2014.


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