RESENHAS

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A emergência dos saberes médicos

O laboratório e a República: Saúde pública, ensino médico e produção de conhecimento em São Paulo, 1891-1933 | Márcia Regina Barros da Silva | Editora Fiocruz, 208 páginas

ANDRÉ MOTA | ED. 232 | JUNHO 2015

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Nas últimas décadas, a necessidade de pautar pesquisas no campo da medicina e da saúde em uma perspectiva histórica abriu novos horizontes analíticos, preocupados com as condições de emergência da produção desses saberes e de suas instituições. Foi a partir desse desafio que a historiadora Márcia Regina Barros da Silva estudou a complexidade dessa conjuntura em solo paulista, entre os anos de 1891 e 1933, resgatando pelos fios da história o entrelaçamento do poder político, da reorganização das instituições médicas e de saúde, bem como da produção de novos conhecimentos.

A autora inicia O laboratório e a República: Saúde pública, ensino médico e produção de conhecimento em São Paulo, 1891-1933 com um tópico fundamental no capítulo “A comunidade imaginada da república paulista”: o debate que moldaria uma idealidade paulista em torno de um projeto civilizatório, liberal e republicano coadunado com uma representação por demais utilizada entre suas elites. Para tanto, com notável habilidade interpretativa e destreza na pesquisa documental, a autora reconstrói os elementos constitutivos dessa comunidade imaginada, composta no tensionamento da força propulsora advinda da higiene e da instrução diante da imagem passadista da doença e da ignorância.

Logo se instalou todo o arcabouço legal, abrindo as portas para que novos tempos congregassem todo o estado de São Paulo, estabelecendo um ordenamento que deveria ser capaz de golpear o passado que teimava em insurgir-se. Esse projeto se materializou, sobretudo pela (re)organização sanitária estadual, com seus institutos e instituições e a produção de um conhecimento científico que seria capaz de prover a elite médica em sua formação. Como bem ponderou a autora, se embates houve, eles voltaram-se, em larga medida, para tais expectativas em torno do futuro médico e de sua corporação.

No capítulo “As ciências médicas de São Paulo” são-nos apresentados não apenas os lugares onde transcorre toda a circulação voltada à recepção da medicina experimental, mas acima de tudo os seus veículos de divulgação. Notadamente, a criação e a ampla veiculação de periódicos médicos foram centrais tanto para estabelecer tipologias e temas como para constituir determinadas sociedades médicas. No levantamento empreendido para o estudo desse periodismo, destacam-se o Boletim da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, a Revista Médica de São Paulo e a Gazeta Clínica. Por eles conseguimos compreender a circularidade envolvendo ciência e política, sociedade e cultura, das descobertas de Pasteur às ações sanitárias, da produção laboratorial realizada pelos institutos às necessidades imperativas para a produção de uma medicina reconhecida como moderna e eficaz. Enfim, o capítulo oferece uma visão ampliada dessas ações e intenções, bem como o prestígio público de seus responsáveis em formatar uma população saudável e morigerada pela destreza da medicina e do sanitarismo. Nomes como Emílio Ribas, Vital Brazil, Luiz Pereira Barreto, Carlos Botelho, Rubião Meira, Victor Godinho, Arnaldo Vieira de Carvalho e uma plêiade de médicos passaram a ser (re)conhecidos.

A implantação da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (capítulo 3) em 1912 foi, sem dúvida, um elemento central de toda essa movimentação. Se, de um lado, deixou entrever inconsistências nem sempre narradas, de outro, retomou fôlego com a chegada de um corpo docente internacional e os acordos com a norte-americana Fundação Rockefeller, a partir de 1916. A autora explora, em sua reflexão, a complexa rede de alunos, professores e instâncias governamentais, apresentando o regime das disciplinas, as particularidades de seu corpo docente e os espaços de ensino-aprendizagem teóricos e clínicos. Tudo isso enlaçado pelos resultados de muitos estudos que já vinham sendo realizados pela faculdade desde seus primeiros tempos.

Como um espelhamento produzido entre o tempo passado e presente, essa é uma obra fundamental por desvelar, historicamente, aquilo que fomos e somos, quando o assunto é o sofrimento humano e as estratégias de legitimação de certos grupos para sua intervenção.

André Mota é professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e coordenador do Museu Histórico Prof. Carlos da Silva Lacaz da FM-USP.

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