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Trabalho recompensado

Prêmios para pesquisadores se multiplicam no Brasil e no exterior

BRUNO DE PIERRO | ED. 238 | DEZEMBRO 2015

 

Cerimônia de entrega do Prêmio Breakthrough de 2015, nos Estados Unidos: estrutura lembra a do Oscar

Cerimônia de entrega do Prêmio Breakthrough de 2015, nos Estados Unidos: estrutura lembra a do Oscar

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e a empresa brasileira de cosméticos Natura lançaram no dia 11 de novembro o Prêmio Capes Natura – Campus de Excelência em Pesquisa para reconhecer os melhores artigos científicos sobre sustentabilidade e biodiversidade. A cerimônia de premiação será no dia 5 de junho, dia do meio ambiente, e os vencedores receberão R$ 25 mil, além de certificados. O objetivo é estimular a publicação de papers em revistas científicas de alto impacto e valorizar pesquisadores no início da carreira. A iniciativa se soma a outros prêmios que homenageiam pesquisadores no país, como o Almirante Álvaro Alberto e o FCW de Arte, Ciência, Cultura e Medicina, patrocinados pela Fundação Conrado Wessel (FCW). “O Brasil ainda tem poucas experiências desse tipo, quando comparado com países como os Estados Unidos”, afirma Carlos Nobre, presidente da Capes. “Os premiados tornam-se modelos, ajudam a difundir os valores da ciência na sociedade e inspiram as novas gerações.” No âmbito internacional, tem também surgido novos prêmios científicos, alguns deles distribuindo quantias milionárias.

No ambiente científico e tecnológico, honrarias têm uma função que não se restringe a prestar homenagens. “O efeito mais importante dos prêmios é sobre a reputação dos pesquisadores”, diz Elizabeth Balbachevsky, do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). “Um pesquisador premiado ganha respeito entre seus pares e isso o ajuda a obter recursos para pesquisas relevantes”, afirma a professora, lembrando que existem outros mecanismos que rendem reconhecimento, como publicar artigos de alto impacto. Os benefícios do prêmio nem sempre são imediatos: “Ganhar um prêmio não faz alguém subir de patamar na carreira de uma hora para outra. Mas contribui para aumentar a notabilidade e a credibilidade do pesquisador, alimentando um processo cumulativo e de longo prazo”.

Eventualmente, essas distinções atraem a atenção dos candidatos pelas quantias que oferecem. É o caso do Prêmio Breakthrough, que no dia 8 de novembro entregou US$ 3 milhões a cada vencedor nas áreas de Ciências da Vida, Matemática e Física Fundamental. Criado em 2012, é patrocinado por grandes empresários, como Mark Zuckerberg, do Facebook, e Sergey Brin, do Google. O valor oferecido é quase três vezes superior ao pago pelo Nobel, mas os idealizadores afirmam não querer concorrer com a honraria mais importante da ciência, concedida há 114 anos. “O objetivo é reconhecer o trabalho coletivo na ciência. Hoje a pesquisa é internacional, diversificada e envolve muita gente”, disse o bilionário russo Yuri Milner, outro patrocinador do prêmio, durante a cerimônia de entrega aos laureados em um centro da agência espacial norte-americana, Nasa, na Califórnia.

A educadora Magda Becker Soares, da UFMG, recebeu o Prêmio Almirante Álvaro Alberto em 2015

A educadora Magda Becker Soares, da UFMG, recebeu o Prêmio Almirante Álvaro Alberto em 2015

O Nobel seleciona no máximo três pesquisadores por categoria científica. O prêmio de Física do Breakthrough foi dividido entre o chinês Yifang Wang, o japonês Atsuto Suzuki e mais 1.380 colaboradores. Eles fizeram parte de uma ampla pesquisa que chegou a descobertas sobre a oscilação de neutrinos, partículas elementares da matéria. Um mês antes, a pesquisa sobre neutrinos rendera o Nobel de Física ao japonês Taka-aki Kajita, da Universidade de Tóquio, e ao canadense Arthur B. McDonald, da Queen’s University.

Uma característica dos novos prêmios internacionais é que boa parte deles enfatiza aplicações da ciência e desdobramentos do conhecimento na solução de problemas da sociedade. Em 2014, por exemplo, os cientistas James Alison, da Universidade do Texas, Estados Unidos, e Tasuku Honjo, da Universidade de Kyoto, no Japão, receberam cerca de US$ 1,6 milhão pelo descobrimento de moléculas com potencial para tratar o câncer. O montante fazia parte do Prêmio Tang, criado em 2012 pelo empreendedor chinês Samuel Yin, conhecido por promover ações filantrópicas. Segundo Yin, o compromisso do prêmio é mais com a pesquisa do que com o pesquisador, ou seja, o objetivo é apoiar estudos promissores e não necessariamente homenagear cientistas pelo trabalho desenvolvido na carreira. “É a maneira que encontrei de contribuir para o desenvolvimento mundial”, explicou Yin à revista Nature.

Outro prêmio que chama a atenção pelo montante destinado a cada laureado (aproximadamente US$ 1,5 milhão) é o Queen Elizabeth Prize for Engineering, criado em 2013 pela Academia Real de Engenharia do Reino Unido com o apoio de patrocinadores privados. Na primeira edição, foram agraciados cinco pesquisadores da França, Inglaterra e dos Estados Unidos. Em 2015, apenas um cientista foi premiado, o americano Robert Langer, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Autor de mais de 1.300 artigos científicos na área de bioquímica e nanotecnologia, ele foi um dos primeiros pesquisadores no mundo a utilizar polímeros para controlar o transporte de grandes moléculas no organismo humano para o tratamento de doenças mentais e câncer. Na noite de entrega do prêmio, Langer recebeu uma medalha das mãos da rainha Elizabeth.

Iniciativas como essas têm despertado críticas. Entrevistado para uma reportagem publicada em 2013 pela Nature, Jack Stilgoe, professor de política científica do University College London, disse que grandes prêmios como o Breakthrough costumam trazer mais benefícios aos patrocinadores, que se promovem como apoiadores da ciência, do que propriamente à pesquisa.

O físico Frank Wilczek, professor do MIT e um dos vencedores do Nobel em 2004, também questionou os “prêmios glamourosos”. Segundo ele, é preciso avaliar se as iniciativas de fato contribuem para o desenvolvimento científico ou não passam de espetacularização. O comentário de Wilczek repousa no fato de que as cerimônias do Breakthrough, por exemplo, costumam lembrar as do Oscar: têm exibição ao vivo pela televisão, tapete vermelho e são apresentadas por personalidades de Hollywood, como o ator Morgan Freeman. Para Carlos Nobre, da Capes, isso não representa necessariamente um problema. “Celebridades dos esportes e do entretenimento são as grandes referências hoje, especialmente entre os jovens. Por que não usar esse mesmo modelo para ampliar o alcance da ciência na sociedade?”, pergunta.

Alline Cristina de Campos, uma das vencedoras do Prêmio L’Oréal para Mulheres na Ciência: honraria financiará pesquisa

Alline Cristina de Campos, uma das vencedoras do Prêmio L’Oréal para Mulheres na Ciência: honraria financiará pesquisa

Entre as controvérsias, uma pergunta inevitável é: qual o impacto real dos prêmios na carreira daqueles que os recebem? A resposta pode ser diferente, dependendo do país. Nos Estados Unidos, o sistema universitário é altamente competitivo e permite a mobilidade de pesquisadores entre as instituições. Nesse contexto, um pesquisador que apareça na TV recebendo um prêmio milionário pode ter um poder de barganha maior na hora de obter financiamentos e negociar salários. Já no Brasil e em alguns países europeus, como França e Alemanha, em que o sistema universitário é mais rígido e as condições de trabalho geralmente são estipuladas por níveis de carreira, o peso de um prêmio no currículo do pesquisador é mais simbólico.

“No Brasil, o docente contratado como servidor público tem estabilidade na carreira, o que contribui para sua fixação numa instituição muito cedo”, explica Elizabeth Balbachevsky. Aqui, ela acredita que prêmios científicos têm mais a capacidade de identificar trajetórias exemplares do que fazer o pesquisador subir na carreira. “A tradição das premiações brasileiras é homenagear cientistas já consagrados. Isso é uma forma de dizer aos pesquisadores mais novos o que a comunidade científica espera deles.”

A cirurgiã e pesquisadora Angelita Habr-Gama, professora da Faculdade de Medicina da USP, conta que depois de receber o Prêmio FCW 2010 na categoria Medicina passou a ser mais valorizada também fora da comunidade científica. “Alunos de graduação e pós-graduação passaram a me ver como um modelo a ser seguido. Fico muito honrada com isso”, diz ela. Já a arqueóloga Niède Guidon, fundadora e diretora da Fundação Museu do Homem Americano, destinou parte dos R$ 300 mil que recebeu do Prêmio FCW em 2013 para acelerar a construção das obras do aeroporto de São Raimundo Nonato, no Piauí, que estavam atrasadas há anos e eram responsabilidade do governo estadual. O aeroporto era uma das condições para que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) liberasse uma verba para a construção do Museu da Natureza, na cidade vizinha de Coronel José Dias. “O maior impacto do prêmio foi eu ter conseguido ajudar a comunidade onde trabalho e vivo”, diz Niède.

Lançado em 2002, o Prêmio FCW é destinado a personalidades ou entidades nos campos da arte, ciência, medicina e cultura. Atualmente, o vencedor de cada uma das categorias recebe R$ 300 mil. Em 13 anos, foram 100 agraciados, escolhidos por uma comissão formada por representantes de 10 instituições científicas parceiras da fundação, entre elas a FAPESP, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC). “A Fundação Conrado Wessel é a instituição que mais premia personalidades científicas no Brasil”, explica José Caricati, superintendente da FCW. “Patrocinamos outros prêmios. Temos convênios com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [CNPq], que, junto com a Marinha do Brasil, concede o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, e com a Capes, no Grande Prêmio Capes de Tese.”

A arqueóloga Niède Guidon doou parte dos R$ 300 mil que ganhou do Prêmio FCW para as obras de um aeroporto no município de São Raimundo Nonato, no Piauí

A arqueóloga Niède Guidon doou parte dos R$ 300 mil que ganhou do Prêmio FCW para as obras de um aeroporto no município de São Raimundo Nonato, no Piauí

Considerado a principal honraria da ciência e da tecnologia do país, o Prêmio Almirante Álvaro Alberto também segue os moldes da FCW e reconhece todos os anos um pesquisador de renome. Em 2015, a vencedora foi a educadora Magda Becker Soares, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). No pacote de honrarias do prêmio, que inclui diploma, medalha e R$ 200 mil, Magda ganhou uma viagem para a Amazônia. Lá, embarcou em um navio hospitalar da Marinha, que atende populações ribeirinhas. “Sou aposentada, ganhei o prêmio mais pelo que fiz do que pelo que eu venha fazer. Mesmo assim, teve um impacto na minha vida, porque nunca havia ido para a Amazônia. Voltei de lá me sentindo mais brasileira”, relata a professora.

Enquanto a maioria dos prêmios científicos no Brasil reconhece trajetórias de sucesso na ciência, outros buscam condecorar pesquisadores em início de carreira. É o caso do Prêmio L’Oréal para Mulheres na Ciência, uma parceria entre a multinacional francesa, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e a ABC. Além de destacar a atuação de mulheres na pesquisa, o prêmio seleciona projetos, e não trabalhos já concluídos.

“Recebi um telefonema do professor Jacob Palis, presidente da ABC, dizendo que eu havia vencido na categoria Ciências da Vida. Pensei que fosse trote”, conta Alline Cristina de Campos, 33 anos, professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e uma das vencedoras do Prêmio L’Oréal 2015. Ao longo de 2016, Alline receberá US$ 20 mil em recursos para serem usados em uma pesquisa sobre o uso de canabinoides, como o canabidiol, no tratamento de ansiedade e depressão. Em dezembro, outro braço do projeto começa a ser financiado pela FAPESP na modalidade Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes. “Embora o prêmio esteja em meu nome, toda a minha equipe será beneficiada. O dinheiro será usado para adquirirmos equipamentos, insumos e financiar a divulgação de nossos resultados em congressos no Brasil e no exterior”, diz ela.


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