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Formação

Raízes da ciência brasileira

Equipe da UFABC lança plataforma que identifica a genealogia acadêmica de pesquisadores

Lançada em caráter experimental em abril do ano passado, a Plataforma Acácia finalmente entrou em funcionamento com a missão de reconstituir a genealogia acadêmica de pesquisadores brasileiros. Uma busca rápida no site do projeto permite que estudantes, professores e pesquisadores com currículos registrados na Plataforma Lattes possam identificar as linhagens acadêmicas às quais pertencem, restabelecendo laços entre orientadores e seus alunos construídos nos últimos 75 anos. A iniciativa foi idealizada em 2016 (ver Pesquisa FAPESP nº 249) e utiliza informações extraídas do Lattes, que reúne mais de 5 milhões de currículos acadêmicos.

“Embora já possa ser consultada, a Plataforma Acácia continua em desenvolvimento”, diz Jesús Pascual Mena-Chalco, professor do Centro de Matemática, Computação e Cognição da Universidade Federal do ABC (UFABC) e coordenador do projeto. “Por enquanto, é possível fazer buscas sobre pesquisadores individuais. Em um futuro próximo, novas funcionalidades serão incorporadas para facilitar o acesso a informações não apenas de pessoas, mas também de grupos de pesquisa, departamentos e universidades nas mais diversas áreas do conhecimento”, explica.

O nome dado à plataforma faz referência à árvore acácia, uma espécie nativa do sudeste da Austrália cujo formato da copa se assemelha a grafos da genealogia acadêmica brasileira – ou seja, são compactos, remetendo à jovem história da ciência no Brasil. “A ciência brasileira tem poucos anos, quando comparada com a de outros países. É possível identificar com certa facilidade quais foram os pesquisadores que contribuíram de maneira relevante na formação da geração seguinte nas grandes áreas do conhecimento”, diz Mena-Chalco.

O centro do apetite

A plataforma dedica uma página ao físico paranaense Cesar Lattes (1924-2005), um dos nomes mais importantes da física experimental brasileira. Nela, estão listados os nomes de seus sete “filhos” acadêmicos (orientados) – no total, o número de descendentes diretos e indiretos de Lattes chega a 437. Um dos descendentes diretos de Lattes, por exemplo, é a física Carola Dobrigkeit Chinellato, do Instituto de Física Gleb Wataghin da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que foi orientada por Lattes no doutorado em 1982 e, desde então, gerou 29 descendentes diretos e indiretos.

A genealogia acadêmica organiza os vínculos entre gerações de pesquisadores. O orientador é considerado o “pai” dos mestres e doutores que ajudou a formar. Esses, por sua vez, poderão gerar “netos” acadêmicos  e assim por diante. A abordagem é semelhante à de plataformas internacionais disponíveis na internet, como o Mathematics Genealogy Project e o Neurotree Project , que permitem mapear ancestrais acadêmicos dos pesquisadores em matemática e neurociência.

“A Plataforma Acácia pode contribuir para estudos de história e sociologia da ciência brasileira e também fornecer subsídios para a formulação de políticas públicas”, afirma Rafael Jeferson Pezzuto Damaceno, aluno de doutorado em ciência da computação na UFABC e membro da equipe que elaborou a plataforma. De acordo com ele, a Acácia deverá gerar indicadores capazes de avaliar quais áreas do conhecimento são mais proeminentes no Brasil. “Se for verificado que o número de descendentes é baixo em determinado campo de pesquisa considerado estratégico, o governo poderia criar políticas específicas para incentivar a formação de pesquisadores naquela área”, diz Damaceno.

Por ora, a Plataforma Acácia não disponibiliza informações agrupadas por área do conhecimento nem referentes a programas de pós-graduação ou instituições de pesquisa. A ideia é de que seja criada, em breve, uma aba no site da plataforma para essa opção de busca. “Será possível pesquisar quais são os cientistas com maior descendência acadêmica na física ou nas ciências biológicas, por exemplo”, avisa Mena-Chalco.

Em um estudo publicado no início do ano na revista Scientometrics, Mena-Chalco, Damaceno e outros colaboradores demonstram como os dados da Plataforma Acácia podem ser explorados. Os autores analisaram cerca de 737 mil currículos Lattes e determinaram o grau de interdisciplinaridade entre diversas áreas do conhecimento, com base nas relações entre orientadores e orientandos. “Observamos que as principais áreas do conhecimento, como ciências exatas, biológicas e sociais, têm um certo grau de interdisciplinaridade no Brasil. Não é incomum encontrar biólogos que tiveram como ‘pais’ acadêmicos engenheiros ou físicos, por exemplo”, conta Damaceno. O estudo também avaliou a taxa de fecundidade, uma medida que representa o número de orientações concluídas. “É mais provável que um pesquisador que obteve o título de doutor há 20 anos oriente mais alunos do que aquele que concluiu o doutorado há 50 anos e pode estar mais afastado das atividades acadêmicas”, explica Damaceno.

Mena-Chalco chama a atenção para o fato de que a Plataforma Acácia leva em consideração apenas relações de orientação formal, ou seja, aquelas registradas nos currículos da Plataforma Lattes. Outra característica é que cientistas que não têm currículo Lattes, mas orientaram pessoas que o têm, não ficam de fora da Acácia. Um exemplo é o do parasitologista mineiro Amílcar Viana Martins (1907-1990), que não chegou a ter um currículo na Plataforma Lattes – criada em 1999 pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) –, mas seu nome consta na Acácia devido a sua árvore genealógica extensa, com mais de 600 descendentes diretos e indiretos.

Estrangeiros também podem ser encontrados, desde que tenham orientado pelo menos uma pessoa do Brasil. “Esperamos que a Plataforma Acácia seja utilizada por pesquisadores como uma ferramenta para produzir novos trabalhos sobre a comunidade científica brasileira e também para avaliar o êxito de um cientista na tarefa de formar sucessores”, afirma Mena-Chalco.

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