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Epidemiologia

A persistência da hanseníase

Número de casos registrados da doença no Brasil cresce por dois anos consecutivos e contabiliza mais de 28 mil ocorrências em 2018

Vila de Santo Antônio do Prata, no interior do Pará: elevada taxa de resistência ao tratamento

Marcelo Távora Mira

Após uma década em queda, a quantidade de casos registrados de hanseníase subiu por dois anos seguidos no Brasil. No ano passado, 28.660 pessoas receberam o diagnóstico da doença, cerca de 1.800 a mais do que em 2017 e quase 3.500 a mais do que em 2016, segundo dados do Ministério da Saúde. A hanseníase é mais frequente nas regiões Nordeste, Centro-Oeste e Norte, que respondem por quase 85% dos casos do país. Nelas, a doença atinge, sobretudo, as pessoas que vivem em condições precárias de moradia e saneamento – dois dos fatores que favorecem a transmissão de seu agente causador, a bactéria Mycobacterium leprae. Outro dado preocupante são as altas taxas registradas no Brasil de resistência a medicamentos usados no tratamento da doença. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a resistência a um deles, a dapsona, chega a 13,3% no país. Por não responderem adequadamente às drogas, os pacientes resistentes apresentam uma piora em seu quadro de saúde e podem até morrer. Além de manchas na pele, a hanseníase provoca lesões neurais.

A médica veterinária Patrícia Rosa, diretora da Divisão de Pesquisa e Ensino do Instituto Lauro de Souza Lima (ILSL), em Bauru, um dos principais centros de atendimento a pessoas com hanseníase no estado de São Paulo, afirma que o aumento no número de casos se deve a falhas na rotina de prevenção e identificação da doença. “A hanseníase tem evolução lenta e diagnóstico difícil”, conta a pesquisadora, uma das autoras de um trabalho que identificou no interior do Pará a mais elevada taxa de resistência a tratamento já descrita para essa enfermidade. “Os profissionais da saúde precisam ser bem treinados para identificar os sintomas antes que a doença evolua para um quadro grave”, explica. Essa, segundo ela, não é a realidade em boa parte do país. “Nas regiões mais afastadas, faltam profissionais da saúde capazes de fazer o diagnóstico precoce.”

O Ministério da Saúde discorda dessa interpretação. Segundo nota enviada por e-mail à Pesquisa FAPESP, o aumento recente nos casos de hanseníase se deve ao aprimoramento e à intensificação das ações de vigilância. Essa estratégia teria levado a um maior registro no número de casos da doença. “O enfrentamento da hanseníase no Brasil é baseado na busca ativa de casos para diagnóstico precoce, tratamento oportuno e prevenção das incapacidades”, informou o órgão.

A doença atinge mais de 200 mil pessoas por ano no mundo, sendo um a cada 10 novos casos reportado no Brasil, segundo a Organização Pan-americana da Saúde (Opas). O país é o segundo em número de novos casos, atrás apenas da Índia. A bactéria pode ser transmitida pelo contato direto com o doente por meio de gotículas que ficam em suspensão no ar durante a expiração, tosse ou espirro. O tratamento é simples, gratuito e eficiente, à base dos antibióticos dapsona, rifampicina e clofazimina; porém é demorado. Pode levar de seis a 12 meses, o que, às vezes, faz com que alguns doentes abandonem o tratamento precocemente. Desde os anos 1980 esses fármacos são usados em conjunto na terapia multidroga, a poliquimioterapia. Por muito tempo a estratégia foi eficaz e contribuiu para reduzir o número de novos casos no mundo, mas, de 2005 para cá, a prevalência parou de cair e se estabilizou.

Uma possível explicação para o aumento do número de casos é que a bactéria esteja se tornando resistente aos medicamentos. Dados coletados em diferentes países indicam que de 2% a 16% dos casos de hanseníase não respondem ao tratamento. Em estudo publicado em fins de 2018 na Clinical Microbiology and Infection, pesquisadores da Organização Mundial da Saúde (OMS) analisaram 1.932 pessoas infectadas de 19 países e identificaram uma taxa média de resistência de 8% – no Brasil, a resistência à rifampicina foi de 9% e à dapsona de 13,3%. Em algumas regiões brasileiras, porém, esse valor é ainda mais elevado.

O caso de vila do prata
Entre 2009 e 2017, um grupo coordenado pelo bioquímico Marcelo Távora Mira, da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), e pelo cirurgião Marcos Virmond, diretor do ILSL, examinou cerca de 670 dos quase 3 mil moradores de Vila de Santo Antônio do Prata, no interior do Pará. Por lá, de 1924 a 1962, funcionou uma das principais colônias de isolamento de pessoas com hanseníase nas regiões Norte e Nordeste. Nas visitas, os pesquisadores registraram 42 casos da doença: 19 em pessoas que haviam se infectado pela primeira vez e 23 em moradores que já haviam tido a enfermidade no passado. Biopsias feitas em 37 indivíduos mostraram que 43% deles apresentavam resistência a pelo menos um dos antibióticos usados no tratamento da doença.

O dado mais preocupante, contudo, é que um terço dos pacientes resistentes exibia essa condição não apenas para um antibiótico, mas dois dos componentes da poliquimioterapia, a dapsona e a rifampicina. A taxa de multirresistência foi de 21% entre os casos recém-diagnosticados e 44,4% entre aqueles em que a doença reapareceu. “Foi a mais alta taxa de resistência já reportada para essa bactéria”, afirma Mira, coautor do estudo, publicado em julho na revista Clinical Infectious Diseases. “Isso indica que a verdadeira extensão do problema ainda é, em grande medida, desconhecida.”

Para Mira, “os dados devem ser analisados com cautela, uma vez que os moradores de Vila do Prata estão expostos à hanseníase há quase 100 anos”. Inaugurado no início do século XX, esse lazareto é um dos mais antigos do Pará e integrou a política de internação compulsória adotada no Brasil para controlar a doença a partir de 1924. A vila chegou a atender mais de 13 mil pessoas com a doença.

O isolamento obrigatório terminou em 1962, mas muitos continuaram a viver lá, por conta do estigma associado à doença. “Além de relativamente isolados, ao longo dos anos, os moradores daquela região já foram submetidos a quase todos os protocolos de tratamento contra a hanseníase”, diz Mira. “Ainda assim, continuam a se reinfectar com o bacilo e a transmiti-lo.” Um dos principais receios dos pesquisadores é que o fenômeno observado ali se repita em outras regiões do país nas quais existiram asilos-colônia para pessoas com a doença.

Artigos científicos
ROSA, P. S. et al. Emergence and transmission of drug/multidrug-resistant Mycobacterium leprae in a former leprosy colony in the Brazilian Amazon. Clinical Infectious Diseases. jul. 2019.
CAMBAU, E. et al. Antimicrobial resistance in leprosy: Results of the first prospective open survey conducted by a WHO surveillance network for the period 2009-15. Clinical Microbiology and Infection. v. 24, n. 12, p. 1305-10. dez. 2018.

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