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Carta da editora | 126

A arte de ver o que era invisível

A reportagem de capa desta edição de Pesquisa FAPESP, que teve o concurso de muita gente, começou a nascer, por insólito que isso pareça, na recente visita do dalai-lama ao Brasil, em 28 de abril. A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Associação Palas Athenas haviam organizado para a manhã e a tarde desse dia um denso debate sobre ciência e espiritualidade, com o título geral “Compaixão e sabedoria na construção da saúde individual e coletiva”. Ele seria aberto pela palestra do dalai-lama e comentado por quase uma dezena de respeitados pesquisadores da universidade, a maior parte dos quais ligada às áreas de psiquiatria e neurologia. Examinadas, de variados ângulos, as oposições, proximidades e articulações possíveis entre ciência e espiritualidade, o que logo pôs em alerta meu impressionável espírito jornalístico foi a fala de José Roberto Leite, professor adjunto do Departamento de Psicobiologia, sobre as pesquisas que vinha conduzindo havia cerca de oito anos no campo da meditação.

Conversei logo depois da visita com o pró-reitor de graduação da Unifesp, o neurocientista Luiz Eugênio Mello, que é membro do conselho editorial de Pesquisa FAPESP. Ante meu interesse relativamente à meditação e a outras pesquisas com imagens do cérebro, ele me deu dicas preciosas sobre quem tinha bons trabalhos nessa área no Brasil. Algum tempo depois entrevistei o professor José Roberto, que me falou de resultados muito interessantes de seus estudos. Mas eu queria, da mesma forma como já se produzira nos Estados Unidos, claras imagens do cérebro que mostrassem o que se passa de diferente quando alguém está meditando. E resolvi esperar por essas imagens, que em breve podem chegar às mãos do pesquisador. Nesse meio tempo, uma conversa com o diretor do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa (IIEP) do Hospital Albert Einstein, Carlos Alberto Moreira, ofereceu-me uma boa visão panorâmica sobre os múltiplos projetos de pesquisa que naquela instituição têm o cérebro como objeto e que se estruturam sobre as várias tecnologias de obtenção de imagens cerebrais. Muitas conversas com os pesquisadores do IIEP depois, e norteada também pelas propostas do programa CInAPCe (veja a edição 124 de nossa revista), que certamente vai incrementar muito e em múltiplas direções a pesquisa do cérebro com base nas tecnologias da imagem, consegui me concentrar em projetos de pesquisa que se valem das imagens obtidas por ressonância magnética funcional para analisar funções que de algum modo se fazem visíveis no córtex.

Nesta edição tratamos de um outro tipo de rede que, bem examinadas as coisas, parece guardar alguma analogia com as redes neurais. Estamos falando do fenômeno dos blogs, que se multiplicam na internet a uma velocidade atordoante e, a essa altura, já constituem uma nova instância da comunicação – que os especialistas vêm chamando de blogosfera. Menos em oposição e mais em articulação com a midiasfera, os blogs, como mostra o texto primorosamente construído do editor de humanidades, Carlos Haag, desmitificam um tanto o jornalismo e pautam cada vez mais os noticiários de diferentes meios de comunicação.

Vale um destaque especial aqui também para a bem fundamentada antevisão do editor de tecnologia, Marcos de Oliveira, a respeito de uma grande mudança energética que deve ter início na próxima década. Ele relata como e por que o hidrogênio deverá então se tornar um importante combustível para gerar energia elétrica e movimentar veículos, substituindo, aos poucos, o diesel e a gasolina, entre outros produtos. É imperdível.

E, por fim, vale a pena ver na reportagem do editor especial Fabrício Marques, de que maneira a biblioteca SciELO, com a marca de nada menos que 6 milhões de acessos mensais, vai tornando a produção científica brasileira cada vez mais visível e conhecida. De uma certa maneira, esta edição fala de variados processos de visibilização propostos no âmbito da ciência. Boa leitura!

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