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Neotrópicas

A bioenergia que nos aproxima

Num exemplo de maturidade, governos, empresas e entidades se uniram para bancar a pesquisa que pode nos manter como líderes em biocombustíveis renováveis

Cana-de-açúcar: primeira produção de etanol a partir da planta ocorreu no Nordeste em 1927

Eduardo CesarCana-de-açúcar: primeira produção de etanol a partir da planta ocorreu no Nordeste em 1927Eduardo Cesar

Aos trancos e barrancos através do século XX, o Brasil parece finalmente despontar no século XXI como locomotiva mundial em uma área importante da ciência, a bioenergia. Hoje temos a malha energética mais limpa do planeta e os governos,ONGs e empresas parecem ter acordado para o fato de que é preciso investir a longo prazo. Somos até alvo de críticas injustas, o que é sinal de que realmente começamos a incomodar. Mas será mesmo que atingimos a maturidade? Ou será apenas um período de lucidez passageira?

Em tempos de mudanças climáticas globais, o uso da energia a partir de recursos renováveis como o biodiesel e o bioetanol se tornou de grande importância para ajudar na mitigação dos gases do efeito estufa. Também é uma oportunidade para que nos tornemos um dos ícones mundiais no desenvolvimento das novas tecnologias provedoras de energia renovável. Essa posição do Brasil não é por acaso, pois iniciamos a produção de bioetanol, no Nordeste brasileiro, no comecinho do século XX e já em 1927 tínhamos automóveis movidos a etanol e até bombas em postos que tornavam o combustível alternativo disponível a usuários em várias cidades daquela região. Porém, ao mesmo tempo, nos Estados Unidos e também no Brasil, a exploração de petróleo avançou com solidez e os interesses econômicos pendentes para essa fonte de energia foram tão importantes que o sistema de transporte passou a usá-la, anulando as iniciativas de então na produção de bioetanol. Embora o uso da cana para obter etanol tenha sido deixado de lado por um bom tempo, o fato de utilizarmos essa planta para produzir açúcar fez com que mantivéssemos programas de melhoramento genético da cana durante vários anos. As flutuações de preço do petróleo sempre direcionaram a decisão dos usineiros brasileiros de produzir diferentes cotas de açúcar e de etanol nas usinas.

Mas a ideia de usar etanol como combustível não morreu. Ela ficou somente adormecida e, na década de 1970, quando houve a crise do petróleo com o rápido aumento nos preços, o programa pró-álcool foi implantado. Houve uma onda de produção de etanol que culminou com o desenvolvimento de automóveis com motores a álcool. Em tempos mais recentes, a partir do ano 2000, e especialmente depois do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) de 2007, o mundo percebeu que o uso do petróleo é um dos principais responsáveis pelo aquecimento global e que seus efeitos poderiam ser devastadores. Ainda que o preço dos combustíveis continue sendo o principal direcionador das decisões, a questão ambiental invadiu a agenda mundial de planejamento energético, deixando claro que energias renováveis seriam um dos meios para ajudar a amenizar os efeitos das mudanças globais.

O Brasil, mais que qualquer país do mundo, estava pronto para responder rapidamente a esse novo direcionamento mundial e o fez com eficiência poucas vezes vista. Em poucos anos, a produção de carros com motoresflex aumentou e rapidamente a frota de automóveis se transformou de forma a tornar o Brasil um exemplo mundial do uso de combustíveis renováveis. Essa cadeia de eventos colocou o Brasil numa posição em que a única opção é avançar. Mas também já ficou claro que não é possívelfazê-lo se não investirmos em ciência e tecnologia em vários setores.

A rota está clara: aumentar a produção de biocombustíveis de forma sustentável dos pontos de vista econômico, social e ambiental. O problema é que uma tarefa dessas requer um grande número de cientistas de diversas áreas, investimento sólido e contínuo em projetos de longo prazo e uma ação coordenada entre cientistas e tomadores de decisão. Tudo isso tem que estar articulado de tal forma que as tecnologias desenvolvidas tenham base científica consolidada e que suas aplicações sejam cuidadosamente planejadas e efetivamente implantadas. É necessário que existam mercados interno e externo para os produtos, não somente para o etanol, mas também para outros produtos oriundos da cana que nem sabemos ainda o que serão. Esses mercados têm que ser criados, estabelecidos e, além disso, temos que manter a produção e a eficiência para deles participarmos no futuro.

Isso tudo envolve um planejamento estratégico em nível nacional e a ciência é a base de todo esse processo, uma vez que não é possível melhorar a produtividade, a eficiência em vários níveis (das plantas, sistemas agrícolas, processos industriais e motores), sem que se avance o conhecimento científico nessas áreas. Mais do que isso, se quisermos atingir a chamada sustentabilidade, áreas da ciência como ecologia, estudos de biodiversidade, sociologia, administração e economia têm que avançar no mesmo ritmo e de forma conectada. É preciso que tenhamos um verdadeiro plano de inovação que integre a ciência completamente na sociedade. Esses sistemas terão de ser implantados e conectados de forma adequada para que os produtos emergentes de todo o processo apareçam e continuem existindo por muito tempo.

O que se vê em 2009 é uma articulação das várias iniciativas locais e nacionais em torno dos diversos aspectos da bioenergia. Iniciativas como o Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (Bioen), o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) do Bioetanol, o Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), a Embrapa Agroenergia, entre outros, se movimentaram rapidamente para criar programas de financiamento a pesquisa que têm total apoio político e financeiro dos governos federal e estaduais. Entidades como a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), o Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone) e o tradicional CTC (antiga Copersucar), entre outras, se engajaram firmemente em ajudar a agrupar dados e fornecer as bases para a tomada de decisões. O Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) já está se organizando para criar as normas necessárias para fortalecer as ações do Brasil nos diferentes mercados e garantir que isso seja feito com forte base científica. Empresas como a Petrobras, a Dedini, a Braskem e a Oxiteno se movem rapidamente em direção a aplicações de alta tecnologia em bioenergia no Brasil. A multinacional Monsanto comprou a empresa nacional Alellyx e entrou no negócio de produzir tecnologia no Brasil. A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) também se organizaram e estão mantendo grupos de discussão para pensar no assunto e ajudar a discernir que tipo de ciência será necessária para avançarmos melhor e ainda mais rápido na bioenergia.

De uma forma incrível, o Brasil de 2009 começa a se mostrar como um país maduro em que a consciência do valor da ciência como atividade estratégica para o ganho de divisas e para o bem-estar da população parece estar sendo reconhecida. Não podemos nos esquecer que isso se deve, primariamente, à solidez de instituições brasileiras como FAPESP, CNPq, Capes, Finep, demais FAPs e universidades, que investiram continuamente, desde a década de 1990, na formação de recursos humanos em pós-graduação. Os mestres e os doutores brasileiros que hoje permeiam governos, ONGs, empresas, universidades e instituições de pesquisa estão mostrando seu valor e realmente contribuindo para o avanço do país.

A ciência básica é, ao mesmo tempo, uma atividade relativamente barata e um investimento incrível para o bem-estar de qualquer sociedade. Mas nem a ciência básica nem a aplicada são úteis se a sociedade não tiver amadurecido a ponto de compreender a importância do financiamento contínuo de projetos em ciência. Nosso país parece ter finalmente acordado para isso e está aprendendo a reconhecer que as coisas boas podem não acontecer em projetos de apenas 4 anos. Elas costumam acontecer quando os investimentos estratégicos são mantidos por décadas. Outros países já fizeram isso e, com essa estratégia, se tornaram líderes mundiais. Mas nada como a experiência própria para compreender como as coisas realmente funcionam.

Para saber mais sobre o assunto:
PEREIRA, A.G., VAZ, S.G. TOGNETTI,S. (2006). Interfaces between science and societyGreenleaf Publishing. 366p.

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