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PERÍODO COLONIAL

A ciência a cargo dos naturalistas estrangeiros

Raros talentos locais conseguiram emergir no ambiente dominado por uma política retrógrada

Para muita gente, seria um contra-senso falar em CeT, na fase do Brasil Colônia. De fato, não se tem notícia de qualquer atividade científica ou técnica de peso no país, naquele período. Porém, isso não significa que a evolução da CeT não tenha recebido contribuições do Brasil, na época. O próprio descobrimento foi resultado, em parte, do vigoroso desenvolvimento das técnicas náuticas e do espírito empreendedor do povo lusitano.

Por mais surpreendente que possa parecer, Portugal do século XV detinha liderança em alguns pontos de afazeres técnicos e científicos, fruto, sobretudo, dos esforços do infante Dom Henrique e do rei Dom João II. Foi esse o segredo do sucesso das Grandes Navegações, levadas a cabo pelos portugueses, engendrando um enorme reino, espalhado pelos quatro continentes.

Na Lisboa quinhentista, os homens do mar, desde o piloto, passando pelo capitão das caravelas, até o comandante das armadas, discutiam, com freqüência, como ler uma carta de marear, como conduzir uma nau ou como determinar uma longitude. Não eram raras as discussões matemáticas, de muito bom nível, necessárias para a pilotagem. Para ter sucesso nessa atividade, o piloto deveria ser versado no manuseio e conhecimento do astrolábio, do quadrante, da linha e chumbo, da tabela de marés, da bússola marítima, da carta portulano (mapas), da ampulheta para medir velocidade, da toleta de marteloio ou carta de travessia e do compasso.

Deveria saber aritmética, geometria, trigonometria e astronomia náutica. A navegação forçou os portugueses ao exame direto da fauna, da flora e da geografia de terras novas e exóticas. Não seria diferente com o Brasil. Não foi por acaso que uma das primeiras providências tomadas por Pedro Álvares Cabral tenha sido a medição da latitude, feita pelo Mestre João, médico e cirurgião da frota, no dia 27 de abril de 1500. Assim, preparava-se o terreno para a elaboração de mapas mais precisos, necessários para orientar as futuras expedições exploratórias.

Por outro lado, a natureza e os habitantes da terra achada, pela riqueza e novidade, serviriam, eles próprios, como objetos da investigação científica. O índio, a preguiça, o moleiro, a arara-canindé, a tunga (bicho-de-pé), o guará, o guaiamum, o guaxe, o arabutã (pau-brasil), o jenipapo, o urucu, o tucum, a mandioca, o gravatá, a caviúna, o pau-d’arco, a sapucaia e muitos outros frutos da terra eram pratos cheios para a curiosidade e cobiça dos europeus. Em conseqüência, elaboraram-se nos séculos XVI e XVII numerosos relatos, narrativas, cartas, notas, apontamentos e outros documentos, descrevendo, de forma precisa ou fantasiosa, as características do novo domínio lusitano.

Encabeçada pela conhecida carta de Pero Vaz de Caminha, são obras como a de Padre Manuel da Nóbrega, de Padre José de Anchieta, de Simão de Vasconcelos, de Pero de Magalhães Gandavo, de Gabriel Soares de Sousa, de André Thevet, de Jean de Lery, de Ives d’Evreux, de Claude d’Abbeville, de Hans Staden, de Gaspar Barleus, de Willem Piso, de Georg Marcgraf, de André João Antonil, de Fernandes Brandão, de Frei Vicente de Salvador, entre outras.

A sabedoria indígena
Graças ao trabalho desses viajantes, cronistas e religiosos, recolheu-se uma enorme massa de dados sobre a fauna, flora, geologia, geografia, costumes e hábitos indígenas, acontecimentos históricos, usados para os estudos científicos, não só da época mas também de períodos posteriores (séculos XIX e XX). Assim ficamos sabendo, por exemplo, que muitos animais, como peixe-boi, guará, lobo-marinho e outros, hoje raros ou quase extintos, freqüentavam as florestas, as costas e os rios brasileiros, nos tempos desses autores.

Igualmente, depreende-se desses relatos o modo de vida dos indígenas. O conhecimentos botânicos destes não eram triviais e estavam longe de ser rudimentares. Essa foi a conclusão a que chegou o ilustre botânico Mário Guimarães Ferri ao analisar, nos nossos dias, as informações fornecidas pelos primeiros cronistas.

Assim como os recém-chegados portugueses, os índios também tinham sua própria perícia na arte de navegar. Trabalhavam muito bem as madeiras e faziam canoas de excelente qualidade. Da união dessas habilidades de povos tão distantes nasceram embarcações como a jangada, somando o modelo indígena à carpintaria portuguesa. Deu origem, também, à baleeira, barco de pesca da baleia, com comprimento de 12 a 15 metros, ainda hoje em uso, com a adaptação de um motor moderno. Os pequenos estaleiros, existentes na época, espalhados pela costa brasileira, especializaram-se em fabricar embarcações de pequeno calado, de até 40 toneladas.

Usavam-se esses barcos, conhecidos com o nome contraditório de caravelões, pela facilidade de navegar nos portos e barras dos rios brasileiros, em geral pouco profundos. Tratava-se, pois, de uma técnica apropriada, como se diria hoje. Esses estaleiros funcionavam também como oficinas de reparos de navios de longo curso. Os índios também sabiam cultivar algodão, fumo, mandioca, batata-doce, milho, feijão, amendoim e muito mais. Fabricavam o cauim, uma bebida alcoólica, a partir da fermentação da mandioca, teciam as suas redes com diversas fibras, construíam as suas moradias com materiais de origem vegetal, pintavam os seus corpos com tintas originárias de jenipapo e urucu e faziam os seus arcos e flechas usando, entre outros, caviúna, pau-d’arco e bambu.

O fato de saberem como eliminar o veneno da mandioca nativa, tornando-a comestível, revela um saber técnico bastante elaborado. Os seus conhecimentos zoológicos eram minuciosos e fidedignos. Esses dados recolhidos pelos primeiros cronistas permitiram a identificação científica de plantas e animais, como no caso do chapéu-de-napoleão, descrito por Thevet, em 1558, que recebeu, mais tarde, o nome científico de Thevetia ahouaí. O clássico trabalho de Florestan Fernandes, A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá (1951), utiliza-se dos relatos fornecidos pelos viajantes quinhentistas e seiscentistas.

Um outro toque europeu
Toda essa riqueza natural e o conhecimento nativo parece não ter interessado muito à Coroa portuguesa, a não ser no início da sua conquista, na primeira metade do século XVI. Já em 1576, o lusitano Pero Magalhães Gandavo reclamava do pouco caso que os Portugueses fezerão sempre da mesma província (de Santa Cruz), contrastando com a atitude tomada pelos estrangeiros que a têm noutra estima, e sabem suas particularidades melhor e mais de raiz que nós. Naquela época, processava-se uma incrível reviravolta em Portugal. Como que esquecida do seu fervor pelas coisas da ciência e da técnica, da sua sede de expansão territorial e econômica, a sociedade lusitana optava pelo imediatismo e reação, simbolizados pelo mercantilismo e inquisição. Dali em diante pouco espaço restaria em Portugal para a pesquisa científica e o espírito de inquirição técnica.

Basta lembrar o que aconteceu com a tecnologia de navegação, mencionada acima. O mais famoso estaleiro de reparos (Ribeira das Naus, como se dizia), no período colonial, foi o de Salvador. Mas estas instalações não progrediram nem se multiplicaram. Não se permitia que que barcos de grande calado fossem projetados aqui. E mesmo Portugal perdia cada vez mais sua competência nesse ofício, visível até na diminuição de seus profissionais na área. Outras leis draconianas dificultavam ao máximo a construção naval na colônia e esta nunca passou de uma mera promessa.

Se a situação estava ruim na metrópole, seria muito pior na sua colônia, a pobre província de Santa Cruz, onde nem sequer se permitiu a instalação da imprensa. De forma contraditória, o Brasil ia ganhando um lugar de destaque no cenário econômico do reino português, à medida que o comércio das especiarias perdia sua importância. A despeito de não ter, no início, nem ouro, nem prata, a exploração das madeiras, principalmente do pau-brasil, ia muito bem. Havia na Europa uma grande crise no fornecimento de madeira, importante para construção naval, obtenção de energia, tintura para a indústria têxtil.

Ao mesmo tempo, a cultura de cana-de-açúcar começava a se firmar como a mais rentável das atividades econômicas. Estima-se em 300 milhões de libras o valor da produção brasileira desse produto, durante os 3 séculos do jugo lusitano. Esse valor supera em muito o da mineração, que parece não ter atingido a casa de 200 milhões de libras. Para assegurar o seu domínio, o governo português não hesitou em impor uma política obscurantista à sua maior colônia. Por outro lado, a grande lavoura canavieira, baseada no trabalho escravo, com suas casas-grandes e senzalas, estimulou ainda mais esse tipo de cultura retórica e literária, afastada de lides produtivas.

Com esse pano de fundo, compreende-se por que quase não existiu investigação científica e inovação técnica aqui, no século XVII e em boa parte do XVIII. Isso seria realizado por estrangeiros, sobretudo holandeses e franceses, que chegaram no Brasil nessa época. O caso do curto domínio dos holandeses, no nordeste seiscentista, destaca-se pela sua singularidade. O governador holandês, Príncipe Maurício de Nassau (1637-1644), implementou uma política cultural avançada, fundando, em Recife, imprensa, museus, bibliotecas e o primeiro observatório astronômico do país, estimulando a ação de alguns cientistas, arquitetos e pintores da sua corte. Faziam parte dela intelectuais do porte de Willem Piso, médico de Amsterdã, Georg Marcgraf, astrônomo e naturalista alemão, Franz Post, pintor, e o seu irmão Peter Post, arquiteto, entre outros.

Ao que tudo indica, Marcgraf foi o primeiro a fazer observações astronômicas sistemáticas no país, além de ter recolhido o vasto material que serviu de base para o famoso livro Historia Naturalis Brasiliae (1648), publicado por João de Laet. Os jesuítas têm sido acusados de introduzirem, na colônia, uma mentalidade pouco favorável à pesquisa e à ação técnica em virtude do seu esforço em difundir a educação escolástica. Isso pode ser verdade com referência aos seus alunos nativos, mas não se aplica em relação a eles próprios. Os apóstolos da Companhia de Jesus foram perscrutadores incansáveis da realidade brasileira, sobretudo, da vida e dos costumes indígenas. Tendo o padre José de Anchieta como pioneiro, chegaram mesmo a elaborar uma gramática geral do tupi, dando uma forma unificada à diversidade lingüística de um grande número de tribos.

Eram também argutos investigadores da natureza e realizavam observações empíricas, como as astronômicas de Valentim Estancel, professor do Colégio da Bahia, honrado por ter um dos seus trabalhos citado no famoso Principia Mathematica (1687) de Isaac Newton. Contudo, esse espírito de inquirição, resultante do zelo em conquistar os silvícolas e conhecer a terra brasileira, não trouxe desdobramentos mais conseqüentes na seara científica ou no desenvolvimento de técnicas competitivas dentro da economia mundial. Com grande probabilidade, isso se explica pelo fato de o projeto jesuítico, na Província de Santa Cruz, não estar direcionado para esses pontos.

As primeiras construções
Os portugueses começaram a ocupação territorial da nova terra usando técnicas trazidas da Península Ibérica. É verdade que, num primeiro momento, isso se faz de maneira lenta porque a extração do pau-brasil e de outras madeiras, atividade econômica principal dos primórdios da colonização, não incentivava o povoamento. Com a chegada de Thomé de Souza, o primeiro governador geral, em 1549, vieram os jesuítas e os mestres de corporação de ofícios: Luiz Dias, mestre-de-obras da fortaleza, Diogo Peres, mestre pedreiro, Pedro Goes, mestre pedreiro-arquiteto, junto com outros pedreiros, carpinteiros e demais artífices.

A função deles era construir a cidade de Salvador, capital do Governo Geral, ao lado de uma fortaleza de pedra e cal […] como melhor pode ser. Mesmo antes, já havia casas de estilo europeu no Brasil. Fala-se muito na lendária Casa de Pedra, na Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, que teria sido construída em 1503. Todavia, a europeização das construções, inclusive das casas particulares, começou de maneira intensa a partir do primeiro quartel de seiscentos, quando elas passaram a ser edificadas com cal e pedra.

Outro profissional responsável pelas construções era o engenheiro militar, que também se ocupava de obras de defesa, seja no litoral, seja nas fronteiras. Fazia demarcação e levantamentos geográficos e topográficos, além de obras civis e a própria formação de seus pares. No período colonial, faltavam engenheiros militares em Portugal, que contratava estrangeiros ou mesmo civis e religiosos. Por exemplo, o Forte dos Reis Magos, em Natal, foi projetado no século XVI, pelo espanhol Gaspar de Sampères. Mesmo duzentos anos depois, importantes trabalhos cartográficos e geográficos ficariam ainda sob a responsabilidade de uma Missão dos Padres Matemáticos.

O mais renomado dos engenheiros militares parece ter sido o sargento-mor José Fernandes Pinto Alpoim, autor de muitas obras, como o aqueduto da Carioca, no Rio de Janeiro. O Brigadeiro Alpoim, como era conhecido, português de nascimento, esteve no Brasilde 1738 a 1765. Além de ter publicado dois livros: Exame de Artilheiros (1744) e Exame de Bombeiros (1748), ensinou na Aula de Fortificação e de Arquitetura Militar, no Rio de Janeiro. Por intermédio desses profissionais das técnicas de ocupação territorial, o Brasil ia adquirindo uma feição semelhante à da Europa, na esteira da modernização. Todavia, essa não se fazia de maneira linear nem pacífica diante da resistência dos indígenas e peculiaridades regionais do país, resultando uma sociedade sui generis, com características tropicais numa matriz européia.

Da mesma forma, a economia colonial estava inserida no contexto de planetarização, apresentando, porém, suas especificidades, para não dizer distorções. No decorrer de três séculos ocorreram múltiplas atividades econômicas, entre as quais destacam-se a exploração de açúcar e a mineração de ouro. As técnicas necessárias para a produção desses bens, técnicas também chamadas de troca-comércio, não precisavam de muita sofisticação. O engenho de açúcar, apesar de exigir grandes investimentos, operava na forma de uma manufatura rudimentar. Além dos escravos, trabalhavam mestres de produção, de manutenção de barcos, e alguns outros trabalhadores livres, perfazendo cerca de 7 a 8 % em relação a aqueles submetidos à escravidão.

O processo de produção, após a colheita da cana, iniciava-se na moenda, passando pela fornalha e pela purgação, terminando no armazém, onde se fazia a embalagem do produto. De lá, geralmente por via fluvial, o açúcar chegava para o porto de embarque. As habilidades requeridas para a mineração eram, do mesmo modo, simples. Utilizavam-se batéias que não passavam de gamelas de madeira ou tanques para efetuar lavagens de encostas auríferas. Tudo muito simples e precário.

Em busca do ouro
No entanto, mesmo com toda essa simplicidade precária, a mineração gerou riqueza. Foi o lucro trazido pela mineração que estimulou a arte de arquitetura e de construção, principalmente em Minas Gerais, tendo como epicentro a cidade de Vila Rica, hoje Ouro Preto. Vila Rica era um sucesso, por causa do ouro. Em 1776, como uma das maiores cidades da América, tinha cerca de 78 mil habitantes e na época da Inconfidência Mineira (1789) cerca de 250 músicos trabalhavam lá e na região, principalmente em São João del Rei.

As bandas e orquestras foram sendo fundadas em função de um mercado muito próspero, o da fé. Como, na época, o Estado era a Igreja e a Igreja, o Estado, isso gerou um número formidável de feriados religiosos, praticamente um por semana. E essas comemorações precisavam de músicos, além de artífices que construíssem e enfeitassem os lugares onde tocavam – igrejas, de preferência. Segundo Afonso Arinos de Melo Franco, mineiro de sete gerações, Minas produziu uma quantidade de ouro superior à de todo o ouro do mundo de então.

Segundo ele, os portugueses levaram daqui uma fortuna tão grande que permitiu aos ingleses, que dominavam seu comércio, realizar a sua famosa Revolução Industrial. Como conseqüência, Minas aprendia em latim, língua que até hoje faz parte de sua bandeira. Lia em grego, escrevia sobre filosofia e seu teatro era em francês. Com tanta riqueza, foram edificadas não só casas de câmara, igrejas, cadeias e residências imponentes como também praças públicas e chafarizes. Estes existiam em grande quantidade, além de serem de boa qualidade técnica e artística.

Os tubos para condutos de água eram muitas vezes feitos de pedra-sabão – uma novidade local. Minas gostava de dar feições próprias às suas obras de talha, pinturas de igreja, chafarizes, mobiliário, produtos de arte. Formou-se, então, grande número de arquitetos, artistas, ourives, marceneiros, entalhadores e outros profissionais, geralmente mulatos, que não conseguiam uma ocupação no comércio ou na burocracia.

O mais famoso deles é Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, autor de muitas obras do chamado Barroco Mineiro. Em muitas de suas obras como esculturas e portadas de igrejas, pode ser notada, igualmente, a utilização de pedra-sabão. Pela abundância e a facilidade de ser trabalhada, inclusive por talhadeiras de madeira, a adoção desse material deve ser considerada como uma solução engenhosa para se adaptar às adversidades regionais. A história da técnica colonial é a testemunha eloqüente de como uma política retrógrada, imposta por uma metrópole estagnada, impediu a eclosão de talentos e inventividade.

Contra a corrente
Mesmo assim, contribuições valiosas teimaram em aparecer. O padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685-1724), natural de Santos, ao que tudo indica, inventou uma bomba capaz de elevar a água à altura de 100 metros. Criou também um aeróstato primitivo, porém original, no início do século XVIII, adiantando-se aos inventores europeus. Entretanto, a repercussão de seus trabalhos, do ponto de vista técnico ou científico, foi quase nula, não só em Portugal como no resto do mundo. A sociedade luso-brasileira viu o padre Bartolomeu como bruxo, impostor e herege. Outro exemplo, bastante diferente, mas igualmente lapidar, aconteceu na manufatura do açúcar no nordeste brasileiro. Logo de início, melhorou-se o processo de fabricação, introduzindo-se uma divisão de trabalho, muito semelhante ao fordismo. Depois, nos duzentos anos seguintes, pouca coisa mudou.

As elites da sociedade colonial, no conforto das casas-grandes, longe do burburinho do capitalismo industrial em plena vigência na Europa, não se interessavam na transformação da sua sociedade ou da sua economia. Mas os ecos da Revolução Industrial não poderiam deixar de chegar a Portugal, mesmo porque o antigo sistema colonial estava em xeque em função do avanço dessa revolução. As elites lusitanas procuravam saídas – sendo talvez a mais radical a do Marquês de Pombal. Assim, implementaram-se políticas modernizantes com reflexos na sua maior colônia.

Por conseguinte, abriram-se espaços, embora pequenos, para a investigação científica e técnica. Caso típico foi o de Alexandre Rodrigues Ferreira, baiano que recebeu da Coroa Portuguesa, em 1783, a incumbência de explorar as capitanias do Pará, do Rio Negro (Amazonas) e Cuiabá. Rodrigues Ferreira permaneceu por sete anos na região, remetendo centenas de amostras e relatórios ao Real Museu da Ajuda de Lisboa, com informações sobre a fauna, flora e recursos minerais.

Todo esse material foi confiscado pelo general Junot, por ocasião da invasão francesa (1808) em Portugal, sendo enviado para o Museu de Paris. A glória da identificação dessas amostras acabou ficando com o naturalista francês Etienne Geoffrey Sainte Hilaire, que as analisou. De qualquer forma, no final do século XVIII, começou a haver algum estímulo para fazer CeT no Brasil, permitindo o surgimento de pesquisadores de primeira, como José Bonifácio de Andrada e Silva, que ficou famoso não como cientista (era mineralogista conhecido na Europa, descobridor de doze minerais), mas como político, pelo seu papel na concretização da independência do Brasil.

A inércia de uma cultura plasmada por séculos, no imobilismo de uma sociedade escravocrata, não seria fácil de vencer. Em geral, as tentativas da seara científica ou técnica continuavam a ser vistas com descrédito, desconfiança ou escárnio. Dessa forma, é compreensível o insucesso da Sociedade Científica do Rio de Janeiro, fundada em 1772, por iniciativa do Marquês de Lavradio, Vice-Rei do Brasil, bem como o fato de a propriedade de Manuel Jacintho de Sampaio e Mello ser ridicularizada com o nome de Engenho de Filosofia, só porque o seu proprietário queria aumentar a sua produtividade pela aplicação de conhecimentos científicos.

Bartolomeu de Gusmão, o padre voador

O “padre voador”, Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685-1724), paulista de Santos, foi professor de matemática em Coimbra, além de inventor. Em 1709, apresentou ao rei de Portugal, D. João V, a sua criação – um aparelho capaz de voar “por 200 e mais léguas por dia”. Era o aeróstato, um balão impulsionado por ar quente.

O balão subiu ao ar em Lisboa, no dia 8 de agosto de 1709. As versões sobre esse acontecimento se contradizem. Numa, o balão pegou fogo antes de decolar. Em outra, subiu a uma altura de cinco metros, antes de se queimar. Qualquer que tenha sido o acontecido, ele em nada beneficiou o padre Gusmão. Ele era perseguido pela Inquisição e fugiu de Portugal para a Espanha, onde morreu. Como aconteceria depois com Santos Dumont, sua invenção foi usurpada. Dois fabricantes de papel, Joseph e Etienne Montgolfier, registraram como sua a criação do aeróstato, em 1783, mais de meio século depois da proeza do padre brasileiro.

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