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Pesquisa na Quarentena

“A coleta de dados de novos experimentos foi interrompida e isso provavelmente terá um impacto na produção de 2021 e 2022”

O neurocientista Roberto Lent e equipe começam a retomar o trabalho em laboratório

Lent em sua área de trabalho em casa

Arquivo pessoal

Aposentei-me formalmente da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas fui honrado com o título de professor emérito, o que me dá direitos e deveres como se fosse ativo. Continuo chefiando o Laboratório de Neuroplasticidade no campus da universidade na ilha do Fundão e, como não trabalho mais em regime de dedicação exclusiva, abri uma linha de pesquisa ligada à neuroplasticidade e educação no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor).

Com a pandemia, tudo parou. A universidade fechou os laboratórios e a atividade dos biotérios foi praticamente encerrada, em parte por falta de funcionários para fazer a manutenção. Os estudos com modelos animais foram interrompidos, assim como um projeto que usa cérebros humanos com o grupo do Biobanco para Estudos do Envelhecimento da Universidade de São Paulo. Eles coletam cérebros de autopsias feitas pelo Serviço de Verificação de Óbitos da capital paulista. Uma das coisas que analisamos é a quantidade de células em diferentes regiões do cérebro. Estamos com um projeto interessante que é conhecer o número de neurônios em crianças de diferentes idades gestacionais. Queremos saber se o ser humano já nasce com os 86 bilhões de neurônios que encontramos no cérebro de um adulto ou com um número maior ou menor. Se nasce com menos, significa que há um alto grau de formação de novas células após o nascimento. Já se o número for maior ao nascer, indica que há morte celular. Do ponto de vista conceitual, é importante saber como se dá o desenvolvimento humano normal, para depois conhecer o que ocorre em determinadas doenças causadas por problemas ambientais ou congênitos.

No Idor, eu tinha vários trabalhos em andamento com pessoas amputadas e com distúrbios de desenvolvimento. Também estava começando um programa para aceleração da leitura que se chama Aceletra, que foi interrompido temporariamente. A ideia é melhorar o desempenho de crianças com dislexia e analfabetos funcionais por meio da realização de exercícios que aprimoram a velocidade de leitura das frases. A avaliação do desempenho envolve o uso de um equipamento de espectroscopia de infravermelho próximo. Essa técnica utiliza sensores acoplados a uma touca na cabeça para registrar o fluxo sanguíneo de diferentes áreas do cérebro e permite realizar testes em ambientes semirrealistas, como uma sala de aula. Já existe um programa de aceleração de leitura desse tipo em Israel com muito bons resultados. Queremos seguir a trilha dos israelenses usando o português, uma língua mais favorável por ser mais transparente. Em português, os fonemas quase sempre equivalem aos grafemas. Estávamos começando esse projeto, mas não chegamos a realizar os experimentos. Não sei quando haverá condições para iniciá-los.

Minha esposa, Cilene Vieira, e eu somos do grupo de risco por causa da idade e decidimos nos isolar completamente. Não temos mais pais e, em meados de agosto, perdi uma tia de 99 anos, que morreu por causa da Covid-19. Agora sou o mais velho da família. Estamos em circunstâncias muito mais favoráveis do que a maior parte da população. Nossos filhos já têm suas próprias famílias. Não temos o ônus daqueles que precisam cuidar das crianças em casa, mas não conseguimos ver os netos. Passamos parte do tempo no Rio e parte em Petrópolis, onde temos uma casa no meio da mata, com visual bonito e a possibilidade de caminhar pelo jardim. 

Nos dois lugares, sempre consigo um canto para trabalhar e fazer reuniões. Só me queixo do fato de não poder interagir pessoalmente. Leio, trabalho em artigos e escrevo minha coluna semanal para O Globo. Trabalho, aliás, não falta. Estou concluindo uma revisão que iniciei há dois anos do meu livro Cem bilhões de neurônios? Reescrevi todos os capítulos. Um subproduto positivo do isolamento é que pude fazer isso com mais velocidade. Até o final do ano entrego para a editora. A nova edição deve sair no próximo ano, completamente atualizada.

Também faço reuniões virtuais com colegas da universidade e do Idor e com meus alunos. Alguns estudantes da pós-graduação estão mais apreensivos porque têm data para concluir a tese e fazer a defesa. Minha equipe e eu estamos escrevendo artigos com resultados de experimentos feitos anteriormente. Devem ser publicados em breve seis ou sete trabalhos que resultam dos testes que fizemos em 2019. A coleta de dados de novos experimentos foi interrompida neste ano e isso provavelmente terá um impacto na produção de 2021 e 2022. Em algum momento, teremos de recomeçar, mas não sei que ritmo vamos conseguir imprimir. Possivelmente, será mais lento.

Na semana passada, retomamos as atividades no laboratório da UFRJ, com um protocolo muito restrito exigindo distanciamento, uso de máscaras, luvas, avental e álcool. O retorno é voluntário e, no máximo, quatro dos quase 20 integrantes da equipe poderão estar no laboratório ao mesmo tempo. Os alunos de iniciação científica e de graduação ainda não podem voltar. Por ora, só foi permitido aos pós-graduandos e pesquisadores em estágio de pós-doutorado. No Idor, o reinício dos experimentos deve demorar um pouco mais, pois envolvem pacientes e participantes voluntários.

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