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Prêmio

A contribuição dos experimentos naturais

Nobel de Economia vai para três pesquisadores que permitiram avaliar o impacto de políticas públicas a partir de situações da vida real

David Card ficará com metade do prêmio, enquanto Joshua Angrist e Guido Imbens dividirão a outra metade

Niklas Elmehed / Nobel

O Prêmio Nobel de Economia de 2021 foi conferido a três pesquisadores de instituições norte-americanas por suas contribuições à economia do trabalho: o canadense David Card, o norte-americano Joshua Angrist e o holandês Guido Imbens. Os três dividirão o valor de 10 milhões de coroas suecas (o equivalente a US$ 1,15 milhão ou R$ 6,25 milhões).

A motivação principal para a concessão do prêmio foi o uso da metodologia dos experimentos naturais em economia. Em experimentos controlados e randomizados, relações causais são estabelecidas mediante a comparação dos dados obtidos a partir da observação controlada de um grupo experimental e um grupo de controle aleatoriamente compostos. O controle da observação e a composição aleatória dos grupos diminui o risco de meras correlações empíricas entre variáveis serem confundidas com relações causais. Já nos experimentos naturais, os grupos são encontrados e observados em situações de vida real, de modo que a derivação de relações causais a partir dos dados observados requer que a escolha das situações reais e dos grupos apropriados se conforme a exigências metodológicas específicas.

Card, 65 anos, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, levou a metade do prêmio, graças ao desenvolvimento de pesquisa empírica em economia por meio de experimentos naturais metodologicamente rigorosos. Em coautoria com Alan Krueger (1960-2019), o economista canadense publicou em 1994 o livro Myth and measurement: The new economics of the minimum wage, mostrando que o aumento do salário mínimo não necessariamente ampliava o desemprego de trabalhadores com menor renda, contrariando uma crença de teóricos da economia. Para chegar a essa conclusão, recorreu a um experimento natural. Foram comparados os níveis salariais e de emprego de trabalhadores de redes de fast food de dois estados norte-americanos limítrofes, Nova Jersey e Pensilvânia, que adotaram políticas opostas relacionadas ao salário mínimo.

Card também é autor de estudos sobre imigração, educação e diferenças relacionadas a gênero e raça no mercado de trabalho. O parceiro Alan Krueger, que foi pesquisador da Universidade de Princeton e assessor econômico dos ex-presidentes Bill Clinton e Barack Obama, possivelmente dividiria o prêmio com Card se estivesse vivo. Krueger se suicidou em 2019.

A segunda metade do prêmio ficou com os economistas Angrist, 61 anos, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e Imbens, 58 anos, da Universidade Stanford, por suas contribuições metodológicas para a análise de relações de causa e efeito. Em meados da década de 1990, Angrist e Imbens criaram um arcabouço metodológico demonstrando como conclusões precisas sobre causa e efeito podem ser tiradas de experimentos naturais. “Os estudos de Card sobre questões centrais para a sociedade e as contribuições metodológicas de Angrist e Imbens mostraram que experimentos naturais são uma rica fonte de conhecimento”, disse Peter Fredriksson, presidente do Comitê do Prêmio de Ciências Econômicas. “Suas pesquisas aumentaram substancialmente nossa capacidade de responder a questões causais importantes, o que foi de grande benefício para a sociedade.”

Já existia uma expectativa de que o trio ganharia o Nobel mais cedo ou mais tarde, observa o economista Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, instituição de ensino superior e pesquisa sediada em São Paulo. “A possibilidade de identificar essas relações causais provocou o que se convencionou chamar de ‘revolução na credibilidade da economia empírica’, que passou a utilizar experimentos naturais para reavaliar conceitos da teoria econômica e dos modelos econômicos. Com isso, alguns dogmas acabaram abandonados”, afirma. “A metodologia hoje também é usada em outras disciplinas, a exemplo da ciência política.”

Maria Dolores Montoya Diaz, da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), observa que a premiação do Nobel deste ano remete de certa forma à de 2019, quando foi concedida a um trio de pesquisadores pela disseminação do uso de experimentos controlados também para a avaliação de políticas públicas de combate à pobreza (ver Pesquisa FAPESP nº 285). “A premiação é mais um reforço no reconhecimento da importância do uso de evidências para a área de avaliação de políticas públicas”, afirma. De acordo com Montoya Diaz, os temas da transparência e da credibilidade vêm ganhando cada vez mais relevância em estudos econômicos, em meio ao esforço para ampliar a reprodutibilidade em pesquisas nas ciências sociais aplicadas. A reprodutibilidade é um conceito que envolve a capacidade de confirmar os resultados de uma pesquisa em trabalhos posteriores.

O prêmio é concedido desde 1968, quando o Banco Central da Suécia (Riksbank) comemorou seu tricentenário. Na ocasião, lançou uma honraria no campo da economia em memória a Alfred Nobel, colocando à disposição da Fundação Nobel uma soma anual equivalente ao montante dos demais prêmios, que são concedidos desde 1901.

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