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Pesquisa na quarentena

“A Covid-19 pode gerar um processo inflamatório semelhante ao causado pela sepse”

Fernando de Queiroz Cunha, coordenador do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias, fala da busca de um novo alvo terapêutico para tratar pacientes graves do novo coronavírus

Fernando de Queiroz Cunha estuda mediadores inflamatórios que podem causar lesões em órgãos

Arquivo pessoal

Quando houve o agravamento da pandemia, nosso grupo começou a discutir como poderia contribuir para gerar conhecimento sobre o novo coronavírus. Coordeno o Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias [Crid], um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão [Cepid] apoiados pela FAPESP, sediado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo [FMRP-USP], e o nosso foco principal tem sido a pesquisa de caráter translacional, que busca gerar conhecimento básico que tenha aplicação clínica e traga benefícios para os pacientes. O objetivo do centro é entender a fisiopatologia das doenças inflamatórias e propor alvos terapêuticos para desenvolver novos medicamentos.

Reunimos todos os pesquisadores do Crid com destaque para os membros da área clínica e concluímos que, sim, poderíamos dar uma contribuição. Vamos discutir um exemplo: em trabalhos anteriores, mostramos que uma doença inflamatória, a sepse, gera respostas sistêmicas semelhantes às que se veem agora com o coronavírus. Conhecida anteriormente como septicemia, a sepse se caracteriza por uma resposta inflamatória sistêmica em decorrência de uma infecção e é fatal para mais de 30% dos pacientes. A sepse lança na corrente sanguínea mediadores inflamatórios, as tempestades de citocinas, que lesam vários órgãos, como o coração, o rim e o fígado, mas principalmente os pulmões. É possível vencer a infecção com antibióticos, mas, a partir de certo momento, a lesão inflamatória funciona como um estímulo para a resposta sistêmica continuar, mesmo se a bactéria não estiver mais ali. Mostramos que, na sepse, os mediadores que causam lesão no pulmão e no coração são as neutrophil extracellular traps [NETs], descritas há mais de 10 anos. Quando um neutrófilo encontra uma quantidade de bactéria muito grande, ele morre e lança uma rede de mediadores que prende e mata os microrganismos. Mas isso também gera uma lesão no tecido, que faz com que as células continuem liberando essas redes. As NETs são descritas como um dos principais mediadores responsáveis por lesões observadas em diversas doenças autoimunes e também em órgãos vitais durante a sepse.

Em muitos casos graves de Covid-19, a infecção pelo vírus também produz um processo inflamatório intenso, que lesa os tecidos e causa problemas respiratórios, cardíacos ou renais. Os professores Paulo Louzada e Rene Oliveira organizaram a equipe clínica e começamos a investigar se as NETs estão envolvidas na Covid-19. Reunimos evidências de que elas estão presentes. Em experimentos in vitro, mostramos que pedacinhos de pulmão de pacientes com o novo coronavírus estavam cheios de NETs. Observamos uma produção exacerbada de NETs por neutrófilos isolados e no plasma de pacientes acometidos por Covid-19. Agora, vamos estudar o fenômeno em um modelo experimental. Estamos comprando um camundongo humanizado que vai ser infectado com o vírus para que a gente possa tratar com os inibidores de NETs e ver se isso funciona.

Há uma rede de pesquisadores envolvida nesse esforço, inclusive alguns de fora do Cepid, como o professor Eurico de Arruda Neto, especialista em vírus respiratórios aqui da FMRP. Uma de nossas professoras, a Larissa Dias da Cunha, estuda mecanismos pelos quais os leucócitos mononucleares morrem durante a Covid-19, além de coordenar o processo de obtenção e armazenamento das amostras, enquanto eu e os professores Paulo Louzada e Rene Oliveira estudamos a presença dos neutrófilos e seu papel na Covid-19. O Dario Zamboni estuda os mecanismos envolvidos no reconhecimento do vírus Sars-CoV-2 pelas células de defesa dos pacientes. Outro pesquisador, o José Carlos Alves Filho, estuda o processo de remodelação do pulmão depois que os pacientes se curam. O Thiago Mattar Cunha está tentando identificar que genes estão mais expressos durante a replicação e infecção viral e quais proteínas são expressas, a fim de sugerir novos alvos para tratar a pandemia. Há vários outros pesquisadores participando. Obviamente que temos que destacar a importância da participação dos pesquisadores clínicos Paulo Louzada e Rene Oliveira.

Meu desafio é coordenar esse trabalho sem sair de casa. Não vou à faculdade desde o início da pandemia. Nosso centro funciona em uma casa cedida pela universidade e era lá que fazíamos as nossas reuniões. Montei uma estrutura, melhorei a qualidade da internet da minha casa e faço todas as reuniões pelo computador. É um novo aprendizado. Antigamente, costumava levar trabalho para casa, mas há alguns anos comecei a treinar para não fazer isso: chegava em casa à noite e deixava as questões de trabalho para o dia seguinte. Agora, tive de reaprender a trabalhar em casa. Se preciso escrever um projeto, por exemplo, é vantajoso. Consigo me concentrar melhor aqui do que na USP. Já as outras tarefas são mais difíceis. Orientar aluno por Skype não é a mesma coisa do que conversar pessoalmente. A agenda de laboratório é complexa e, se você não está presente, as coisas não funcionam direito. As conversas com a equipe eram mais rápidas e objetivas – resolvíamos as coisas rapidamente, de pé mesmo. Agora, por computador, demoram mais. Uma coisa estranha nessa experiência do confinamento é que a gente fica com medo de sair quando é necessário. Só tenho saído para comprar comida.

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