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Li­mi­tes do ho­mem

A era da su­pe­ra­ção

Vin­te e duas mar­cas do atle­tis­mo têm mais de dez anos, mas o fim da épo­ca dos re­cor­des não está pró­xi­mo

Dai­a­ne dos San­tos na pro­va solo: a úni­ca a exe­cu­tar dois ti­pos de mo­vi­men­to

AEDai­a­ne dos San­tos na pro­va solo: a úni­ca a exe­cu­tar dois ti­pos de mo­vi­men­toAE

Ci­ti­us, al­ti­us, for­ti­us. Há exa­tos 110 anos, o mote olím­pi­co se re­su­me a es­sas três pa­la­vras la­ti­nas, que sig­ni­fi­cam mais rá­pi­do, mais alto, mais for­te. Ori­gi­nal­men­te, o lema de­ve­ria ser en­ten­di­do como um es­tí­mu­lo para que cada atle­ta des­se o me­lhor de si em sua pro­va, sem se pre­o­cu­par com a co­lo­ca­ção fi­nal e o de­sem­pe­nho dos opo­nen­tes. Lu­tar para su­pe­rar os pró­­pri­os li­mi­tes já era uma vi­tó­ria. Afi­nal, o im­por­tan­te era com­pe­tir, não ven­cer. Mas os cam­pe­õ­es pa­re­cem fa­zer uma lei­tu­ra di­fe­ren­te do ve­lho slo­gan: que­rem ser mais rá­pi­dos, mais al­tos e mais for­tes do que to­dos – e se pos­sí­vel es­cre­ver seu nome na his­tó­ria com um re­cor­de mun­di­al ou olím­pi­co, que lhes tra­rá fama e, às ve­zes, for­tu­na. Até que pon­to o ser hu­ma­no con­se­gui­rá es­ten­der as fron­tei­ras de seu de­sem­pe­nho atlé­ti­co? Nin­guém sabe res­pon­der com cer­te­za.

As pro­vas de atle­tis­mo são a prin­ci­pal es­tre­la das Olim­pí­a­das e cos­tu­mam ser usa­das como um ter­mô­me­tro dos li­mi­tes do ser hu­ma­no. Uma olha­da na lis­ta de re­cor­des mun­di­ais in­di­ca que não está fá­cil su­pe­rar al­gu­mas mar­cas re­la­ti­va­men­te an­ti­gas. En­tre os ho­mens, 9 dos 24 re­cor­des re­fe­ren­tes a pro­vas olím­pi­cas, qua­se 38% do to­tal, têm mais de dez anos. O mais an­ti­go é o do ar­re­mes­so de dis­co, es­ta­be­le­ci­do em 6 de ju­nho de 1986 pelo ale­mão ori­en­tal Jür­gen Schult, que, na oca­si­ão, lan­çou o ob­je­to a uma dis­tân­cia de 74,08 me­tros. Como a his­tó­ria en­si­na, a Ale­ma­nha Ori­en­tal era uma po­tên­cia es­por­ti­va – e do do­ping es­ta­tal. Mas, ao que se sabe, ne­nhu­ma subs­tân­cia ile­gal foi de­tec­ta­da em Schult em exa­mes de con­tro­le. Em­bo­ra haja um bom nú­me­ro de mar­cas lon­ge­vas, as duas pro­vas mais no­bres do atle­tis­mo os­ten­tam re­cor­des re­cen­tes. O dos 100 me­tros ra­sos, com o tem­po de 9s78, é de se­tem­bro de 2002 e per­ten­ce ao nor­te-ame­ri­ca­no Tim Mont­go­mery (veja qua­dro com a evo­lu­ção dos tem­pos nes­sa pro­va nas páginas 16 e 17). O da ma­ra­to­na é de se­tem­bro de 2003 e está em po­der do que­ni­a­no Paul Ter­gat, que per­cor­reu os cer­ca de 42 qui­lô­me­tros da pro­va em 2h04min55s.

En­tre as mu­lhe­res, pa­re­ce ha­ver uma di­fi­cul­da­de ain­da de que­brar uma mar­ca. Tre­ze dos 22 re­cor­des mun­di­ais em mo­da­li­da­des olím­pi­cas, qua­se 60% das mar­cas, fo­ram es­ta­be­le­ci­dos há mais de dez anos, sen­do que 11 re­mon­tam aos anos 1980. O mais lon­ge­vo re­cor­de é o da tche­ca Jar­mi­la Kra­toch­ví­lo­vá, que ga­nhou a pro­va dos 800 me­tros ra­sos em 26 de ju­lho de 1983 com o tem­po de 1min53s28. Cra­va­das há 16 anos, as me­lho­res mar­cas nos 100 e 200 me­tros – 10s49 e 21s34, res­pec­ti­va­men­te – ain­da são da nor­te-ame­ri­ca­na Flo­ren­ce Grif­fith Joy­ner. A mu­lher mais ve­loz da his­tó­ria, a mus­cu­lo­sa Flo-Jo, foi um pro­dí­gio e um mis­té­rio das pis­tas: mor­reu pre­ma­tu­ra­men­te aos 38 anos, em 1998. Há quem es­pe­cu­le que seus (por ora) ini­gua­lá­veis re­sul­ta­dos e seu óbi­to te­nham li­ga­ção com o uso de es­te­rói­des ana­bó­li­cos, uma for­ma de do­ping, em­bo­ra essa sus­pei­ta nun­ca te­nha sido com­pro­va­da.

Jesse Owens 10s2 1936 Com a mar­ca es­ta­be­le­ci­da em Chi­ca­go, o atle­ta  se tor­nou o ho­mem a per­ma­ne­cer por mais  tem­po como re­cor­dis­ta da pro­va. Fo­ram mais  de 20 anos. Seu tem­po foi ba­ti­do  ape­nas em agos­to de 1956, por Wil­lie Wil­li­ams.

AFPJesse Owens; 10s2 – 1936. Com a mar­ca es­ta­be­le­ci­da em Chi­ca­go, o atle­ta se tor­nou o ho­mem a per­ma­ne­cer por mais tem­po como re­cor­dis­ta da pro­va. Fo­ram mais de 20 anos. Seu tem­po foi ba­ti­do ape­nas em agos­to de 1956, por Wil­lie Wil­li­ams.AFP

O que con­clu­ir di­an­te des­ses nú­me­ros? O ser hu­ma­no já atin­giu seu li­mi­te atlé­ti­co em al­gu­mas mo­da­li­da­des? Para Vic­tor Mat­su­do, do Cen­tro de Es­tu­dos do La­bo­ra­tó­rio de Ap­ti­dão Fí­si­ca de São Cae­ta­no do Sul (Ce­la­fiscs), isso nun­ca vai acon­te­cer – e a ra­zão é sim­ples. “Mu­dam-se as re­gras do es­por­te ou a for­ma de me­dir os re­cor­des”, afir­ma Mat­su­do, es­pe­ci­a­lis­ta em me­di­ci­na es­por­ti­va. “As­sim no­vas mar­cas vão sur­gir.” Na ver­da­de, isso já é fei­to há mu­i­to tem­po. Tal­vez o ob­je­ti­vo cen­tral de al­gu­mas al­te­ra­çõ­es do pas­sa­do, em ge­ral de or­dem tec­no­ló­gi­ca, não te­nha sido o de fa­ci­li­tar a que­bra de re­cor­des, mas, de qual­quer for­ma, esse tam­bém foi um dos efei­tos des­sas mu­dan­ças.

A par­tir da Olim­pí­a­da na Ci­da­de do Mé­xi­co, em 1968, por exem­plo, o tem­po ofi­ci­al das pro­vas de atle­tis­mo, ci­clis­mo, ca­no­a­gem, remo, na­ta­ção e es­por­tes eqües­tres dei­xou de ser me­di­do de for­ma ma­nu­al e pas­sou a ser re­gis­tra­do de ma­nei­ra ele­trô­ni­ca. Para os re­cor­des, a me­di­da foi sa­lu­tar. An­tes de 1968, um atle­ta ti­nha de ser pelo me­nos um dé­ci­mo de se­gun­do (0,1) mais rá­pi­do do que o de­ten­tor do me­lhor tem­po para que­brar um re­cor­de (o re­gis­tro ma­nu­al só me­dia uma casa de­pois da vír­gu­la). Des­de en­tão, com a cro­no­me­tra­gem ele­trô­ni­ca, bas­ta ser um cen­té­si­mo de se­gun­do (0,01) mais ve­loz para lo­grar tal fei­to. Nada im­pe­de que no fu­tu­ro, di­an­te da es­cas­sez de no­vos re­cor­des, as au­to­ri­da­des do atle­tis­mo ou da na­ta­ção pas­sem a me­dir o tem­po em mi­lé­si­mos de se­gun­do (0,001), como fa­zem na Fór­mu­la 1.

Jim Hi­nes  9s95  1968 Foi o pri­mei­ro ho­mem a cor­rer a pro­va  em me­nos de 10s. Em ju­nho de 1968  cra­vou 9s9 numa com­pe­ti­ção nos  Es­ta­dos Uni­dos. Em ou­tu­bro des­se mes­mo ano, du­ran­te a Olim­pí­a­da na Ci­da­de do Mé­xi­co,  re­du­ziu o tem­po para 9s95.

AFPJim Hi­nes; 9s95 – 1968. Foi o pri­mei­ro ho­mem a cor­rer a pro­va em me­nos de 10s. Em ju­nho de 1968 cra­vou 9s9 numa com­pe­ti­ção nos Es­ta­dos Uni­dos. Em ou­tu­bro des­se mes­mo ano, du­ran­te a Olim­pí­a­da na Ci­da­de do Mé­xi­co, re­du­ziu o tem­po para 9s95.AFP

Na na­ta­ção, no en­tan­to, a hi­po­té­ti­ca era dos tem­pos mar­ca­dos em mi­lé­si­mo de se­gun­do pa­re­ce es­tar mais dis­tan­te do que no atle­tis­mo. Nas pro­vas fe­mi­ni­nas dis­pu­ta­das em Olim­pí­a­das, ape­nas cinco dos atu­ais 17 re­cor­des mun­di­ais – me­nos de 30% dos me­lho­res tem­pos – fo­ram re­gis­tra­dos há mais de uma dé­ca­da. O re­cor­de mais lon­ge­vo é o do re­ve­za­men­to 4 por 200 me­tros nado li­vre, em pos­se da equi­pe da Ale­ma­nha Ori­en­tal (um país que não exis­te mais) des­de 18 agos­to de 1987. As ale­mães cra­va­ram 7min55s47. No caso dos ho­mens, a mai­o­ria ab­so­lu­ta dos me­lho­res tem­pos já re­gis­tra­dos foi es­ta­be­le­ci­da do ano 2000 para cá. De 16 pro­vas in­di­vi­du­ais ou co­le­ti­vas, ape­nas um re­cor­de é da dé­ca­da pas­sa­da: o dos 100 me­tros nado cos­tas, que per­ten­ce des­de 24 de agos­­to de 1999 ao nor­te–ame­ri­ca­no Lenny Kray­zel­burg, com o tem­po de 53s60. Quer di­zer, no meio lí­qui­­do, fora de seu há­bi­tat, o ho­mem ain­da está dis­tan­te de ter atin­gi­do o seu ápi­ce em ter­mos de de­sem­pe­nho.

Em cer­tos es­por­tes, com pro­vas co­le­ti­vas ou in­di­vi­du­ais em que não há re­cor­des nu­mé­ri­cos a se­rem ba­ti­dos, fica mais difícil tra­çar uma li­nha e es­ta­be­le­cer li­mi­tes a se­rem su­pe­ra­dos. Ain­da as­sim, vol­ta e meia apa­re­cem atle­tas com um ca­rá­ter re­vo­lu­ci­o­ná­rio que le­vam uma mo­da­li­da­de para um novo pa­ta­mar. Esse é o caso da gaú­cha Dai­a­ne dos San­tos, 21 anos, o no­me hoje a ser der­ro­ta­do na gi­nás­ti­ca de solo. “Com­pe­ti con­tra a Dai­a­ne al­gu­mas ve­zes e fi­quei bas­tan­te im­pres­si­o­na­da. Ela é mu­i­to, mu­i­to for­te. Im­pres­si­o­nan­te… To­das aqui es­tão tra­ba­lhan­do for­te com uma só meta: batê-la em Ate­nas”, dis­se Court­ney Ku­pets, 17, a prin­ci­pal gi­nas­ta ame­ri­ca­na da atu­a­li­da­de, ao jor­nal Fo­lha de S.Pau­lo em ju­nho. For­ça nas per­nas é o mai­or atri­bu­to da bra­si­lei­ra, rai­nha de éba­no numa mo­da­li­da­de mais acos­tu­ma­da a prin­ce­si­nhas de mar­fim. Gra­ças à po­tên­cia de seus mem­bros in­fe­ri­o­­res, Dai­a­ne, em pou­co mais de um se­gun­do, con­se­gue pro­je­tar seu cor­p­o a cer­ca de 2,70 me­tros do solo. Como me­de 1,45 metro, sal­ta, por­tan­to, 1,25 me­tro – qua­se a sua al­tu­ra. “Se não sal­tas­se tan­to, Dai­a­ne não te­ria tem­po de re­a­li­zar os sal­tos que a di­fe­ren­ci­am das de­mais atle­tas”, afir­ma Mar­cos Du­ar­te, es­pe­ci­a­lis­ta em aná­li­se do mo­vi­men­to da Es­co­la de Edu­ca­ção Fí­si­­ca e Es­por­tes da Uni­ver­si­da­de de São Pau­lo (EEFE-USP), que fil­mou e ana­li­sou a per­for­man­ce da atle­ta.

Tim Mont­go­mery  9s78 2002 Es­ta­be­le­ceu o atu­al re­cor­de em 14  de se­tem­bro de 2002, em Pa­ris. Ape­sar  de o fei­to ser re­cen­te, Mont­go­mery  não con­se­guiu se qua­li­fi­car como mem­bro  da equi­pe nor­te-ame­ri­ca­na que vai a  Ate­nas. E ain­da é sus­pei­to de usar do­ping.

AFPTim Mont­go­mery; 9s78 – 2002. Es­ta­be­le­ceu o atu­al re­cor­de em 14 de se­tem­bro de 2002, em Pa­ris. Ape­sar de o fei­to ser re­cen­te, Mont­go­mery não con­se­guiu se qua­li­fi­car como mem­bro da equi­pe nor­te-ame­ri­ca­na que vai a Ate­nas. E ain­da é sus­pei­to de usar do­ping.AFP

Dai­a­ne é a úni­ca mu­lher no mun­do ca­paz de exe­cu­tar dois mo­vi­men­tos in­tei­ra­men­te no­vos, bo­la­dos pelo seu téc­ni­co, o ucra­ni­a­no Oleg Os­ta­pen­ko: o du­plo twist car­pa­do e o du­plo twist es­ten­di­do. Em am­bos, suas per­nas não fi­cam en­co­lhi­das, nem gru­da­das em seu cor­po, du­ran­te os dois sal­tos mor­tais (ou­tras atle­tas fa­zem mo­vi­men­tos se­me­lhan­tes, só que com as per­nas en­co­lhi­das, co­la­das ao cor­po). Por voar semi-es­ti­ca­da (du­plo twist car­pa­do) ou es­ti­ca­da (du­plo twist es­ten­di­do), au­men­tan­do sua área de atri­to com o ar, Dai­a­ne per­de ve­lo­ci­da­de no meio de seus mo­vi­men­tos ala­dos. Não fos­sem suas per­nas um dí­na­mo, que a le­vam a se pro­je­tar ver­ti­cal­men­te tan­to quan­to um jo­ga­dor de vô­lei, a gaú­cha não con­se­gui­ria com­pen­sar sua cal­cu­la­da re­du­ção de ve­lo­ci­da­de em ple­no ar, re­a­li­zar seus mo­vi­men­tos e cair em pé. Gi­nas­tas sem a for­ça de per­na da bra­si­lei­ra sal­tam me­nos e não têm tem­po de fa­zer o du­plo twist car­pa­do ou es­ten­di­do. Se a ar­tros­co­pia que fez re­cen­te­men­te no jo­e­lho di­rei­to não pre­ju­di­car seu de­sem­pe­nho, Dai­a­ne será o li­mi­te hu­ma­no na gi­nás­ti­ca de solo em Ate­nas.

Me­nos dois se­gun­dos em cem anos

Em 1896, quan­do ocor­re­ram as pri­mei­ras Olim­pí­a­das da era mo­der­na, o en­tão ho­mem mais ve­loz do mun­do, o nor­te-ame­ri­ca­no Tom Bur­ke, ven­ceu a cor­ri­da dos 100 me­tros ra­sos com o tem­po de 11s8. Em 14 de se­tem­bro de 2002, no exa­to ins­tan­te em que o tam­bém nor­te-ame­ri­ca­no Tim Mont­go­mery cra­vou o atu­al re­cor­de de 9s78 para a pro­va, um ve­lo­cis­ta que re­pe­tis­se a an­ti­ga mar­ca de Bur­ke es­ta­ria cer­ca de 17 me­tros atrás do ven­ce­dor da dis­pu­ta. Em pou­co mais de um sé­cu­lo, o ho­mem apren­deu a cor­rer os 100 me­tros em dois se­gun­dos a me­nos. En­tre Bur­ke e Mont­go­mery hou­ve ou­tros re­cor­dis­tas me­mo­rá­veis. Qua­se to­dos vi­e­ram dos Es­ta­dos Uni­dos, como Jes­se Owens, cuja mar­ca de 1936 de­mo­rou vin­te anos para ser ba­ti­da, e Jim Hi­nes, o pri­mei­ro ho­mem a cor­rer os 100 me­tros em me­nos de 10s.

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