guia do novo coronavirus
Imprimir PDF Republicar

Citricultura

A extinção da banana era um exagero

MIGUEL BOYAYANA notícia pegou todo mundo de surpresa: em dez anos, a banana pode desaparecer da face da Terra. A profecia era a razão de ser da matéria de capa da edição de 16 de janeiro da New Scientist , importante revista jornalística inglesa especializada em produzir reportagens sobre ciência e tecnologia, que extraíra o fúnebre vaticínio da boca do pesquisador francês Emile Frison, diretor da Rede Internacional para o Melhoramento da Banana e Plátano. Estéril, incapaz de produzir sementes e decrépita do ponto de vista genético, a popular fruta, extremamente fragilizada, seria hoje presa fácil de doenças e pragas cada vez mais virulentas, que não param de ameaçar os bananais do planeta.Tudo isso é verdade – a não ser pelo fato de que não são todos os tipos de bananas que estão com os anos tão contados assim.

Em resposta ao tom apocalíptico da matéria, a FAO, órgão das Nações Unidas que monitora a agricultura, soltou um comunicado assegurando que existem mais de 500 variedades da fruta e que ela não vai desaparecer em breve. A entidade, no entanto, também reconheceu que o cultivo desse produto enfrenta sérios problemas devido à sua baixa diversidade genética e ao avanço de moléstias causadas por fungos, sobretudo a sigatoca-negra e uma nova raça do antigo mal-do-panamá.

“A ameaça de extinção se restringe basicamente às bananas de exportação, do subgrupo Cavendish”, pondera Antonio Figueira, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena/USP), de Piracicaba, que estuda a diversidade genética da fruta no Brasil. Talvez a banana-maçã, cada vez mais rara, também corra um risco real de sumir do mapa, mas isso não implica o fim de todas as variedades da saborosa fruta de casca amarela.

Embora maciçamente presentes nos mercados europeu e norte-americano – grandes importadores desse alimento tropical -, as variedades pertencentes ao subgrupo Cavendish, entre as quais a banana-nanica ou d’água, representam apenas 13% da produção mundial desse produto. Dono de uma safra anual de cerca de 6,5 milhões de toneladas de banana, o Brasil é o terceiro ou quarto maior produtor da fruta (depende da estatística). “Temos de resolver alguns problemas, mas o cultivo de bananas em nosso país, onde podem ser usados os híbridos do tipo prata, não está ameaçado”, afirma o pesquisador Sebastião de Oliveira e Silva, da Embrapa Mandioca e Fruticultura, de Cruz das Almas, Bahia.

Ameaça dos fungos
Das duas pragas que mais preocupam os produtores de banana, apenas uma chegou ao território nacional, a sigatoca-negra, que entrou no Brasil em 1998. Por enquanto, sua presença se restringe à região Norte e ao Mato Grosso, áreas secundárias em termos de produção da fruta. Ocasionada pelo fungo Mycosphaerella fijiensis , que danifica as folhas das plantas, leva ao amadurecimento muito precoce do fruto e reduz a vida útil da bananeira, a sigatoca-negra provoca uma quebra de 50% da safra se não for combatida com produtos químicos.

O jeito tradicional de deter o estrago da doença – mais grave do que a aparentada sigatoca-amarela, outra moléstia fúngica que ataca o bananal – é pulverizar cerca de 40 vezes ao ano a plantação, um método caro, trabalhoso, não muito ecológico e que, com o tempo, perde eficiência. O outro patógeno que assola a fruta mais consumida no mundo é a raça 4 do fungo de solo Fusarium oxysporum , que causa uma forma mais agressiva do velho mal-do-panamá. Há décadas, manifestações menos virulentas do mal-do-panamá ocorrem em todo o Brasil. No entanto, a raça 4 do Fusarium ainda não chegou às Américas, tendo sido identificada apenas em bananais da África do Sul, Austrália e em grande parte da Ásia.

Possivelmente seja apenas uma questão de tempo para a variedade mais agressiva do mal-do-panamá desembarcar no Brasil e a sigatoca-negra se espalhar para todo o território nacional. A ciência, no entanto, não assiste a esse avanço de braços cruzados. Para deter essas doenças, pesquisadores, daqui e de fora, recorrem cada vez mais ao melhoramento genético de algumas variedades de bananas. Por meio de cruzamentos entre formas comestíveis da fruta e tipos selvagens de banana, estes últimos com maior diversidade genética, mas impróprios para o consumo, os cientistas já criaram e lançaram comercialmente algumas variedades (não-transgênicas) resistentes a esses males. A Pacovan Ken, um híbrido da banana-prata criado em 2001 pela Embrapa Mandioca e Fruticultura, é, por exemplo, tolerante às duas sigatocas e ao mal-do-panamá. Outro cultivar tolerante a essas três pragas é a banana-prata baby, variedade lançada há dois anos pela Empresa Estadual de Pesquisa de Santa Catarina (Epagri).

Republicar