guia do novo coronavirus
Imprimir PDF Republicar

OBITUÁRIO

A geógrafa das cidades da Amazônia

Bertha Becker lançou conceitos inovadores e construiu uma visão ampla sobre a região Norte

Bertha Becker: 30 anos de reflexões casadas com trabalho de campo

berthabecker.blogspot.comBertha Becker: 30 anos de reflexões casadas com trabalho de campoberthabecker.blogspot.com

Em 1985, depois de examinar com atenção a intensa urbanização da Amazônia, que nas últimas décadas do século XX acusou as maiores taxas no Brasil, a geógrafa política Bertha Koiffmann Becker lançou a expressão “floresta urbanizada” para definir a região, valorizada até então apenas pelas matas. Bertha Becker, que morreu em 13 de julho, aos 83 anos, preferia usar a expressão Arco do Povoamento Consolidado em vez da mais comum, Arco do Desmatamento, para designar as áreas de ocupação humana nas bordas da floresta, pela simples razão de que essa área está ocupada por muitas cidades grandes, estradas e vastas plantações de soja, além de pecuária e mineração.

“Eu trabalho na Amazônia há 30 anos, não posso deixar de ir a campo para ver o que se passa”, ela comentou em 2004 em entrevista para Pesquisa FAPESP no seu espaçoso apartamento no 13º andar de um edifício na avenida Atlântica, Rio de Janeiro, enquanto planejava uma viagem para conhecer pessoalmente as transformações causadas pelo início do cultivo de soja em algumas regiões de Mato Grosso, Pará e Amazonas. Ela viajou para a Amazônia pela primeira vez em 1970, quando era professora no Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores, à frente de um grupo de 60 futuros diplomatas – todos se admiraram ao conhecer as fronteiras do país, onde os moradores escutavam a rádio de Cuba com mais frequência do que a Rádio Nacional. Depois dessa viagem, ela nunca mais parou de visitar – e pensar – a Amazônia, conciliando sua visão de campo com a prática acadêmica.

Pequenos e grandes juntos
Bertha Becker argumentava que era preciso pensar o desenvolvimento da floresta, não apenas sua preservação. “Bertha acreditava na colaboração entre os conhecimentos tradicionais e a ciência, a tecnologia e a inovação avançadas”, comentou Cláudio Egler, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ao jornal O Globo. Ela dizia que grandes empreendimentos empresariais, a despeito da aversão gerada pelas experiências malsucedidas nos anos 1970, deveriam coexistir com pequenos projetos de produção familiar, porque somente os grandes ou os pequenos, por si sós, não resolveriam os desafios da região.

Filha de imigrantes europeus, Bertha Becker terminou em 1952 o curso de geografia e história na Universidade do Brasil, atual UFRJ, onde ela foi professora durante 40 anos – em paralelo, ela lecionou por 18 anos no Instituto Rio Branco. Suas conferências, os debates com colegas acadêmicos e com homens do governo e os 19 livros que publicou ajudaram a enriquecer a visão sobre a Amazônia, hoje vista como um espaço complexo, resultante da interação de forças políticas e econômicas. Seu trabalho influenciou a elaboração de novas estratégias para a organização do território na Amazônia, expressas no Zoneamento Ecológico-econômico para os estados da Amazônia Legal e o Macrozoneamento da Amazônia Legal, recentemente transformados em política territorial para a região pelo Congresso Nacional.

Republicar