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Comunicação

A guerra que deu na TV

Grupo estuda narrativa midiática como construtora da visão geral sobre a criminalidade

TASSO MARCELO/AE Cena do seqüestro do ônibus 174TASSO MARCELO/AE

Foram-se os tempos em que as crianças queriam sair no Carnaval vestidas de Homem-Aranha (aquele que “nunca bate e sempre apanha”) ou de marinheiro. Neste ano desapareceram das lojas do gênero, pasmem, mini-uniformes do Bope (Batalhão de Operações Especiais), protagonista do mais do que visto filme Tropa de Elite. Pais orgulhosos desfilaram com seus filhos vestidos de preto e o distintivo da caveira com o punhal. “Tropa de Elite, osso duro de roer/ Pega um pega geral, e também vai pegar você”: dos 3 aos 80 anos, não há quem não saiba cantar o funk que abre o filme. Felizes com o “pega geral”, poucos, porém, se identificam com o “você” da letra. “A mídia construiu um ideal de sofrimento evitável e, assim, segundo a narrativa midiática, os crimes seriam ‘evitados’ se os aparatos estatais de segurança fossem honestos e competentes. Essa narrativa propõe uma separação entre o ‘nós’, indivíduos comuns assustados com a ‘violência urbana’, e o ‘eles’, bandidos e o Estado incapaz de prover segurança para seus contribuintes-clientes”, observa Paulo Vaz, professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ), coordenador do Laboratório de Mídia e Medo do Crime, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

O objetivo do projeto é verificar como a mídia construiu e constrói, hoje, os personagens da cobertura da violência do Rio de Janeiro: a imagem das vítimas, dos criminosos, da favela e dos aparatos estatais de prevenção e punição dos crimes. Vaz dá prosseguimento a um estudo anterior, em que comparava as coberturas da imprensa em 1983 com as de 2001. “A idéia é encerrar a amostragem em 2008 para analisar as modificações”, explica. O Laboratório também pretende criar um site para deixar disponível o material da pesquisa em vídeo e em jornais. “A partir disso será possível perceber que há um problema no modo como a mídia constrói a figura do criminoso e a possibilidade de se evitar o sofrimento causado pelo crime pela via autoritária. O que questionamos é justamente essa consolidação recente no senso comum da alternativa postulada pelo populismo conservador de que para reduzir o sofrimento é preciso mais política, leis mais rigorosas. É importante perceber que a solução que se coloca é, em si, um problema”, adverte. Para Vaz, coordenador da pós-graduação da ECO, é importante retomar o espírito da crítica nietzschiana dos “melhoradores da humanidade”, pois “certas formas de dar sentido ao sofrimento provocam mais sofrimento.”

Assim, observa, o perigo da mídia é que ela pode nos levar a confundir um sofrimento real com o fictício. “Para atrair a audiência, privilegiam o espetacular, aquilo que parece ficção e transformam quem deveria ser cidadão em platéia. A seleção e a ênfase em alguns sofrimentos diminuem a visibilidade de outros, determinando de modo injusto o nosso lamento”. Vaz descobriu que a mídia lidava com o criminoso de forma diversa nos anos 1980. “A cultura moderna atribuía o sofrimento a uma causalidade estrutural. Havia crime por quê? Porque havia desigualdade de renda. Portanto, pensava-se, para acabar com o crime era preciso melhorar a distribuição de renda. Desse modo, mudar a sociedade era o modo de se reduzir o sofrimento humano”, analisa. Havia, continua, uma crença na possibilidade de se “curar” o criminoso e a imprensa abria espaço para a voz do agressor, de quem se tentava compreender as “paixões” e causas que o levaram ao ato criminoso. A partir de 2001, a nova sociedade “hedonista”, diz, consolidou-se, e se pôde verificar que a mídia cada vez mais se afastava dos crimes de proximidade (tipicamente passionais) e dava espaço crescente aos crimes cometidos por estranhos no espaço público e com seleção aleatória de vítimas. “Qualquer um de nós poderia ser a vítima” era a nova embalagem.

DELFIM VIEIRA/AE Cena do seqüestro do ônibus 174 DELFIM VIEIRA/AE

“Se, em 1983, a audiência se identificava com a possibilidade de ela também cometer um dado crime, em 2001 ela só tem olhos para a chance de se tornar vítima”. Vaz nota que a mídia teve (e tem) autonomia na escolha editorial e privilegiou (opção política) a vitimização aleatória, que provoca uma cultura generalizada de medo na sociedade. “Isso pode explicar, por exemplo, o fascínio desproporcionado da sociedade, em seus vários estratos, a um filme como Tropa de Elite, em que se legitima a tortura e se coloca como solução para os problemas a presença violenta e ostensiva da polícia, admirável quanto mais pronta a entrar em confronto e sair por aí matando”. O pesquisador atenta para o fato de que o protagonista do filme é um torturador transformado em vítima, nos moldes do primeiro Rambo, e o forte de Tropa de Elite é justamente o seu suposto “realismo”. “O tal retrato ‘real’ da mídia sobre vítimas e bandidos segue o mesmo esquema do filme de ficção, já que é igualmente feito a partir de várias historinhas com bons e maus”, explica.

Fato e ficção se misturam de maneira sutil e explosiva. “Trabalhamos com o conceito de ‘direito ao risco’, característico das sociedades neoliberais, em que há a liberdade da escolha de se assumir ou não um risco, mas, ao mesmo tempo, há uma distribuição irreal das responsabilidades entre indivíduo e Estado sempre que alguma coisa acontece. O tom geral é que tudo é culpa do Estado, o que tira o peso dos ombros de cada indivíduo, que ganha o ‘direito’ de reclamar como a violência está mudando a sua rotina de vida, obrigando-o a ficar em casa ou blindar seu carro”. Vaz recorda o arrastão feito no túnel que leva à favela da Rocinha, no Rio, quando, a despeito do justo desespero dos envolvidos, a “grita” geral era de que uma intervenção da polícia, “cujo posto estava a 200 metros do acontecido” (este, nota o pesquisador, seria um clichê importante das coberturas), teria feito diferença. “Quem garante que a polícia atirando no túnel teria sido uma solução melhor para o que ocorreu? Isso lembra o argumento pueril de Tropa de Elite, que afirma ser a classe média a responsável pelo tráfico. Logo, se parassem de consumir drogas, o crime acabaria. Quem pode afirmar isso tendo traficantes fortemente armados que poderiam, sim, deslocar o crime para outros espaços?”

Vaz observa que essa “cultura do medo” é um fenômeno global, observado, por exemplo, nos distúrbios com minorias árabes na França ou na Guerra do Iraque. “Estudam-se com afinco as conseqüências políticas e econômicas dessa indústria do medo que gera bodes expiatórios. Certos segmentos sociais são ameaçadores e, logo, é preciso tratá-los de forma violenta. Se morrem, tanto melhor, pois são ‘não-pessoas’. Isso só favorece o Estado autoritário, de exceção, conservador”. Por esse raciocínio, certas pessoas são más e ponto, podendo a sociedade fazer o que bem entender delas, até exterminá-las. No outro extremo, afirma Vaz, estaria a “vítima” sempre inocente. “Perde-se a visão de que o problema de segurança é coletivo e que exige esforços de toda a sociedade. É mais fácil, porém, dividir o mundo entre bons e criminosos, uma dicotomia que não exige que paremos para pensar em soluções coletivas. Alguns indivíduos são dignos de nosso luto (em geral, aqueles que ‘são como a gente’) e outros, não. A solução para a violência é justamente liberar mentes para outras formas de se pensar a questão”. Mas, pondera o pesquisador, não é fácil encontrar vozes destoantes na mídia, que, em geral, apresenta um discurso homogêneo, que amplia o medo sem se preocupar em dosar com fatos reais.

ANTONIO SCORZA Exército nas ruas: censo comum crê no confrontoANTONIO SCORZA

“Qual é a visão de turistas que visitam o Rio? De que há violência em todos os cantos da cidade. Afinal, eles, como os velhos (que pouco saem), são alimentados pela narrativa midiática. Isso, aliás, está se diluindo pela sociedade, que, cada vez mais assustada, está deixando de freqüentar os espaços públicos, alimentando a criminalidade e se informando pelo que diz a mídia”, avisa. “A construção midiática da idéia de sofrimento evitável não é neutra socialmente. Ela promove uma distribuição estratégica dos papéis de agressores e vítimas. No caso do crime no Rio de Janeiro, os moradores de favela, por sua vinculação espacial e midiática com os traficantes, podem ser qualificados de ‘criminosos virtuais'”, pondera. Mas há uma boa notícia inicial (a ser confirmada) no projeto do Laboratório: “Embora se tenha mantido o modelo de 2001, houve uma mudança no tratamento dado pela mídia às vítimas pobres, antes menosprezadas em detrimento de cidadãos das classes média e alta. Estamos curiosos em verificar se se estabelecerá um novo padrão em que vítimas da favela sejam vistas como sendo tão relevantes quanto uma vítima no Leblon.”

Para Vaz, não se trata apenas de uma questão de direitos humanos, mas de uma forma de pensar o futuro. “A forma do futuro moderno era: ‘Os sofrimentos existem porque a sociedade é ruim’. Logo, seria preciso construir a boa sociedade no futuro. A forma do futuro moderno, portanto, era a de um futuro onde seríamos felizes. Hoje é o contrário. Você quer que o presente permaneça e teme que o futuro seja uma ameaça à continuidade desse presente. Então, o futuro tem a forma de catástrofe a ser evitada”, analisa. As soluções tão apreciadas, como colocar o Exército nas ruas e aumentar a presença e violência policial, continua, vão causar justamente o problema que se pretende resolver. “É preciso, por exemplo, achar formas de lidar com a questão do tráfico de armas. Foi, em boa parte, em razão dessa narrativa midiática que a indústria de armas e simpatizantes conseguiram virar o jogo no referendo sobre o desarmamento.”

Com o foco centrado nos crimes aleatórios, poucos pensaram no peso das mortes por proximidade, já que elas contrariavam a “realidade” como se dava a ver nos meios de comunicação e também colocavam o espectador e leitor na posição incômoda de “criminoso potencial”, enquanto eles preferem se pensar a partir da inocência da vítima. “Há uma preferência, nascida dessa narrativa, na voz do indivíduo e pela autoridade da experiência em detrimento do saber científico e de dados quantitativos”. As questões decorrentes dessa narrativa, que confunde realidade e ficção, são mais graves que o sucesso de Tropa de elite, embora o filme seja emblemático dessa nova “razão” que insiste, nota o pesquisador, em que precisamos ser “cruéis” e “frios” com aqueles a quem atribuímos “falta de empatia” pela humanidade.

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