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Pesquisa na quarentena

“A interação humana se dá por vários sentidos e os meios digitais não têm como substituí-los”

O físico Victor Mammana precisou repensar projeto com oficinas de programação de jogos para crianças, para adaptação ao sistema remoto

Durante a pandemia foi necessário se mudar para um apartamento no centro de São José dos Campos

Reprodução Zoom

Quando chegou a pandemia, foi um choque. Como fazer um projeto completamente pensado para ser presencial tornar-se remoto? O Wash [Workshop Aficionados em Software e Hardware], ao qual tenho me dedicado nos últimos anos, é um programa de inclusão que leva o método científico para dentro das escolas e das casas, estabelecendo uma conexão direta entre o ensino fundamental e o ensino superior. Considerando a experiência de anos que tínhamos com oficinas presenciais, ficamos um período sem ação.

Desenhamos o programa inicialmente para a prática de construir jogos de computador, porque nos parecia uma excelente ferramenta para a aprendizagem de matemática, entre outras áreas. Fazíamos, também, oficinas de construir coisas, dentro da cultura maker e com toques de atividades artísticas. Um exemplo de atividade não relacionada ao mundo digital era a construção e o lançamento de “foguetinhos” de água, que se dava ao ar livre e explorava conceitos da física. Realizávamos a produção audiovisual como forma de estimular a organização e estruturação do conhecimento para a produção de narrativas e descrições. Um exemplo foi a produção de vídeos para a prevenção de desastres naturais, missão do instituto onde trabalho, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais [Cemaden].

Com o distanciamento imposto pela pandemia, fizemos um esforço para criar novos formatos de atividades de aprendizagem.  A partir da ideia de uma de nossas colaboradoras, Elaine Tozzi, criamos o programa “Ciência e cultura, vamos brincar?”, que está disponível no YouTube. Já fizemos nove episódios. Produzimos também um vídeo sobre a ciência do skate, bem antes do esporte ficar em evidência em razão da Olimpíada de Tóquio. Nossa motivação é estimular a produção de conteúdos relevantes para estudantes, com a participação das próprias crianças e adolescentes. Misturamos cultura da infância com ciência, buscando falar às famílias dentro de suas casas, mas ainda estamos aperfeiçoando essa linguagem. O nosso desafio é buscar uma forma de dialogar com as pessoas sem sucumbir à lógica de fragmentação do conhecimento presente nas redes sociais frequentadas pela juventude.

Uma preocupação que se fez presente na pandemia foi com a questão dos indicadores do programa. Como mostrar para a sociedade que estávamos dando o nosso melhor para continuar com as atividades, mesmo remotamente? Então aperfeiçoamos nossa plataforma de gestão, com ferramentas digitais de lista de presença e adequação à Lei Geral de Proteção de Dados. Criamos formas de fazer atividades remotas e mudamos a capacitação dos bolsistas que conduzem as oficinas, que são alunos do ensino médio e superior com projetos de iniciação científica. Inicialmente, notamos que as oficinas ficaram exageradamente expositivas, com nossos multiplicadores fazendo monólogos para um público remoto por meio das plataformas Zoom, Meet e Jitsi. Era difícil saber o que as crianças estavam fazendo enquanto nossa equipe tentava realizar a oficina.

Uma solução que encontramos foi evitar o compartilhamento da tela de quem estava oferecendo a oficina, convidando as próprias crianças participantes a compartilhar suas telas e a mostrar a interface do ambiente de programação Scratch, um dos focos das atividades do programa. Foi preciso reduzir o tempo da oficina, que no formato presencial consumia cerca de três horas. O sistema remoto não é favorável do ponto de vista ergonômico e cognitivo para as crianças.

Em algumas escolas da periferia não havia a possibilidade de usar essas plataformas de comunicação síncrona e toda a atividade era realizada sem interação simultânea, o que era quase impensável para a proposta conceitual do Wash. Testemunhamos a obstinação e dedicação de professores que criaram métodos próprios para dar aulas por meio de telefone celular, utilizando a ferramenta WhatsApp. As crianças tinham acesso apenas usando o celular dos pais, quando chegavam em casa ao fim do expediente. Tivemos que adaptar nossas oficinas a esse formato.

Um caso se deu na cidade de Jacareí, no interior paulista, em uma escola fundamental de periferia, com a professora Danieli de Souza Silva. Ela tinha participado do nosso programa de capacitação antes da pandemia, promovido pela Secretaria Estadual de Educação. Ela entrou em contato comigo porque percebia suas crianças entristecidas pela impossibilidade de ir à escola. Propusemos uma alternativa: em vez de fazerem elas mesmas o jogo, as crianças estabeleceriam as regras, cenários e imagens de personagens. Com essas instruções, os bolsistas de ensino médio e superior do Instituto Federal São Paulo em Jacareí, coordenados pela professora Léa Yamaguchi Dobbert, executariam a programação. Também fizemos oficinas de stop motion, uma técnica de animação trazida pela artista plástica Roberta Santana. Os resultados ficaram registrados em uma centena de vídeos do nosso canal do YouTube. Com a ajuda de colaboradores espalhados pelos estados de São Paulo e Paraná, buscamos estar junto das crianças.

Arquivo pessoalOficinas presenciais foram retomadas, com cuidados adicionaisArquivo pessoal

Apesar de precisarmos reduzir o tempo das oficinas, constatamos que são necessárias mais horas para realizar uma atividade remotamente. Isso reforça minha posição: sou um entusiasta da educação presencial. Já estamos sendo convocados por parceiros locais para retomar as oficinas presenciais. Recentemente tivemos a semana intensiva de atividades presenciais que promovemos em Campos do Jordão [SP], quando atendemos 160 crianças por determinação da Secretaria de Educação local. Atender a esse tipo de atividade é uma obrigação para mim, que sou servidor público. Fui pessoalmente porque não me senti confortável em pedir a presença dos jovens multiplicadores, que estavam sem vacina. Seguimos os protocolos estabelecidos pela prefeitura da cidade.

Entre outras coisas, a pandemia serviu para que a sociedade recuperasse sua convicção sobre a importância dos professores e professoras do ensino básico, no formato de convivência presencial, que é imprescindível, a meu ver, para o aprendizado. A interação humana se dá por vários sentidos e os meios digitais não têm como substituí-los.

Originalmente, minha área de pesquisa é a da ciência dos materiais. Só em 2004 comecei a trabalhar com educação, quando fui chamado para fazer a avaliação do programa One Laptop per Child, idealizado pelo cientista da computação norte-americano Nicholas Negroponte com a participação de Seymour Papert [1928-2016, matemático nascido na África do Sul], ambos do MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts]. Fui convidado porque conhecia bem uma das tecnologias necessárias para o projeto. Tinha também uma afinidade muito grande com a Afira Ripper [da Faculdade de Educação da Universidade Estatual de Campinas], que trouxe o Papert para o Brasil na década de 1970.

Assim que a primeira versão do Scratch ficou disponível para o público, resolvi brincar de programar com minha filha, que estava recém-alfabetizada. Observando sua reação, percebi que muitas crianças precisavam se beneficiar dessa experiência. Sendo diretor do CTI [Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações], na época, percebi que tinha os instrumentos para criar um novo método com foco em investimento em pessoas.

A partir de 2013, convidamos as crianças do entorno do CTI, uma região de baixa renda, para frequentarem o centro aos finais de semana. Minha inspiração foi o que eu vi acontecer no Laboratório Lawrence Berkeley no final da década de 1990, na Califórnia, Estados Unidos, durante o trabalho experimental de meu doutorado.

O financiamento do Wash vem de deputados que direcionam emendas parlamentares ao CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], criando bolsas de iniciação científica para distribuição em várias regiões do Brasil, que incluem obrigatoriamente atividades semanais de multiplicação dos valores do método científico junto a alunos do ensino fundamental. Hoje oito deputados, representantes de todas as vertentes ideológicas, apoiam o programa.

São centenas de alunos de iniciação científica e isso toma boa parte do meu tempo, mas também registramos em publicações o que estamos aprendendo. Nossa plataforma já registrou cerca de 950 eventos em 25 cidades, inclusive em praças públicas e outros ambientes de ampla circulação. Resolvi dedicar minha carreira a isso. Faz algum tempo que não publico na minha área original e estudo constantemente para construir erudição na nova área.

O impacto da pandemia na minha vida foi grande. No final da gestão como diretor do CTI, fui morar em um sítio na serra da Mantiqueira, perto de Monteiro Lobato. Passei a trabalhar no Cemaden, em São José dos Campos. O trajeto levava cerca de 45 minutos, mas o bem-estar de morar junto à natureza compensava o tempo de deslocamento. Quando começou a pandemia, tive que abrir mão desse sonho, dado que o sítio onde estava não tinha boa conectividade para a realização das atividades remotas.  Agora estou no centro de São José.

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