Guia Covid-19
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Pesquisa na quarentena

“A maioria dos moradores retirados do meu prédio era de chineses e coreanos e as fronteiras com esses países já estavam fechadas”

O avanço da pandemia nos Estados Unidos obrigou a antropóloga Luiza Ferreira Lima a interromper a pesquisa em periódicos que realizaria em bibliotecas do país

Luiza Ferreira Lima em janeiro de 2020 na biblioteca Van Pelt Library, da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia

Arquivo pessoal

Eu estudo, em perspectiva comparada, como a subjetividade é construída em biografias e autobiografias de pessoas trans e os efeitos políticos dessas obras publicadas no Brasil e Estados Unidos. Em maio do ano passado, com uma bolsa de estágio de pesquisa no exterior [Bepe], iniciei minha investigação na Universidade da Pensilvânia [UPenn], na Filadélfia, Estados Unidos, prevista para durar até o fim de abril. Estava pesquisando os condicionantes socio-históricos que marcaram a edição das primeiras autobiografias de transexuais e seus impactos na sociedade, a partir da análise de sua recepção pela imprensa. Minha ideia era mapear outros arquivos, além do da Universidade da Pensilvânia, especialmente os da Biblioteca Pública de Nova York [NYPL], que reúne periódicos LGBTQIA+ muito importantes. Diferentemente de outros pesquisadores que trabalham com a temática LGBT e normalmente realizam pesquisa de campo, minha investigação baseia-se em análises de fontes documentais.

A publicação de biografias e autobiografias de pessoas transexuais pode ser dividida em três fases. Nos Estados Unidos, a primeira onda teve início em 1967, com a publicação da autobiografia de Christine Jorgensen [1926-1989]. Ela iniciou o processo para mudança de sexo em 1952 e sua história ganhou enorme visibilidade no país. Christine era uma pessoa da classe média, que ficou sabendo das cirurgias para mudança de sexo na Europa e decidiu submeter-se a uma. A segunda onda da publicação desses livros começou na década de 1990, envolvendo pessoas que assumiram a identidade transgênero influenciadas por movimentos de luta por direitos civis, pela liberação feminina e homossexual. Já a terceira onda começou em 2010 e prossegue até hoje, em um momento em que alguns indivíduos transexuais se tornaram celebridades. Quando tive de sair às pressas dos Estados Unidos, estava mapeando as obras da segunda fase e começaria a pesquisa para entender como foi a recepção dessas obras na imprensa norte-americana.

O avanço da epidemia aconteceu com uma rapidez assustadora. No dia 8 de março, agendei minha primeira visita ao arquivo da NYPL para o final de semana seguinte. Tinha conversado com um amigo doutorando na Universidade Columbia alguns dias antes e ele me falou sobre a preocupação que se espalhava pela cidade. As pessoas estavam cumprindo o isolamento social como podiam, mas não havia nada mais além disso. Na véspera da minha viagem, o mesmo amigo me mandou uma mensagem, assustado, dizendo para que eu não saísse da Filadélfia de modo algum. Isso me pegou de surpresa. No mesmo dia, recebi mensagens da universidade. Os alunos de graduação estavam em spring break [recesso de primavera] de uma semana e a universidade dizia para não voltarem ao campus. Também orientava os estudantes a não realizar viagens e, se o fizessem, não deveriam voltar à moradia estudantil. Eu vivia em um prédio para alunos de pós-graduação e pesquisadores visitantes estrangeiros. Então entrei em contato com o arquivo da NYPL e me desculpei, pedindo o adiamento da visita.

A partir daí, as mensagens da universidade passaram a ficar cada vez mais alarmantes. Inicialmente pediam a residentes de moradia estudantil para voltarem a seus respectivos estados e países de origem. Depois, passaram a enviar mensagens dizendo que os alunos de graduação precisariam necessariamente deixar o campus – a menos que não tivessem condições financeiras de fazê-lo. Aos alunos de pós-graduação e pesquisadores visitantes recomendaram que estocássemos alimentos e evitássemos sair do prédio. A situação agravou-se quando, em 17 de março, recebi um e-mail informando que eu precisaria deixar o prédio em três dias, porque ele seria fechado.

A expansão da Covid-19 na costa leste dos Estados Unidos foi tão rápida e, de certa forma, imprevisível, que ainda não consegui estabelecer um plano de reorganização do cronograma dessa etapa final da pesquisa. Quando a UPenn comunicou que seu serviço de bibliotecas seria suspenso até 31 de março, fui à biblioteca central e emprestei livros, para ter material de trabalho até a data de reabertura – que, pensei, não demoraria muito. Então, eventos e reuniões de grupos de pesquisa começaram a ser cancelados. Imaginei tratar-se de medida preventiva, nada além disso. Não poderia supor que em pouquíssimos dias o semestre inteiro seria cancelado e o campus ficaria vazio.

Entrei em contato com minha orientadora, Silvana Nascimento, do Departamento de Antropologia da USP, para discutir a situação. Precisei encontrar formas de entregar a colegas, que ainda estavam na cidade, os 24 livros que havia emprestado de bibliotecas. Tratei também de distribuir, entre conhecidos, os alimentos que havia comprado para as duas semanas de isolamento e me vi obrigada a arrumar as malas e encontrar um voo com uma urgência que nunca havia enfrentado antes na vida. Alguns estudantes estrangeiros do meu prédio não tinham para onde ir e estavam desesperados. Comprei minha passagem para 18 de março e cheguei em São Paulo um dia antes da suspensão de serviços não essenciais na cidade.

Um aspecto fundamental da minha pesquisa, a recepção das obras norte-americanas na imprensa, foi prejudicado. A funcionária do arquivo da NYPL tinha me comunicado que alguns periódicos poderiam ser disponibilizados on-line, mas minha pesquisa previa consultas a periódicos antigos, dos anos 1960, 1970 e 1980 e grande parte desse material não está digitalizada. Edições antigas de jornais da grande imprensa, como The New York Times ou Washington Post, estão disponíveis on-line e poderão ser acessadas do Brasil. Mas a NYPL tem um acervo imenso da imprensa LGBT e de jornais independentes do país desde a década de 1940 que não conseguirei pesquisar. Um trabalho é analisar a repercussão das biografias e autobiografias de pessoas transexuais na grande imprensa e outro é entender como elas foram recebidas na própria comunidade LGBT. Fico triste em saber que essa última parte não poderá ser feita.

Perdi um mês e meio que seria dedicado a essa coleta de documentos e à escrita da tese, que preciso depositar até junho de 2021. Mas é inegável que estou em situação privilegiada: já estava na fase final do estágio, diferentemente daqueles que haviam acabado de chegar e talvez nem sequer tenham tido a chance de começar suas pesquisas. Mesmo sem suporte institucional da UPenn, com a reserva técnica da bolsa, pude arcar com os custos de uma passagem aérea de última hora. Os voos para o Brasil ainda não haviam sido severamente limitados. Fico pensando o que pode ter ocorrido com os demais moradores do meu prédio. Eles eram, em sua imensa maioria, chineses e coreanos, e Donald Trump já havia decretado o fechamento de fronteiras para voos com destino à China, Coreia do Sul e Irã.

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