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Ficção

A morte da ciência

LAURA TEIXEIRA— Eu digo que a ciência não morreu e posso provar!  As palavras do professor Anselmo reverberavam em meus ouvidos. Durante sua última palestra na universidade, olhares incrédulos miravam o ancião mestre, que parecia quase patético em sua atuação, travando uma guerra imaginária entre ciência e tecnologia.

— Mas a tecnologia não está justamente a serviço da ciência, professor? — eu tinha perguntado isso ao mestre há algumas semanas, quando o encontrei na saída da biblioteca.

— A tecnologia é muito maravilhosa, mas perigosa também… — balbuciou o professor, afastando-se.

Agora, ali, no meio do calor da palestra, minha mente avançava, temerosa de que os comentários gerais na universidade fossem verdade: o professor Anselmo estaria de fato ficando caduco, teimoso e louco – e, pior ainda: ultrapassado.

Não era novidade o comportamento do mestre. Sempre rejeitando utilizar as chamadas novas tecnologias, preferia continuar escrevendo teses e mais teses, enormes tratados científicos, químicos e biológicos, à mão!  Mesmo tendo à sua disposição os computadores da universidade, recusava-se a utilizar as “engenhocas malignas”, como ele dizia. Chegou a comparar os PCs ao vilão do filme 2001, o famigerado computador  HAL 9000 – que se rebela contra os astronautas e toma o poder na astronave.

Numa ocasião, reza a lenda, chegou a expulsar de uma aula demonstrativa de química um aluno que estava gravando tudo com uma câmera de vídeo digital. Bradou convicto que a experiência química era única, praticamente um acontecimento da natureza sob a ação do homem, e como tal não devia ser documentada – muito menos por uma “engenhoca moderna, uma planta carnívora feita de metal”, concluiu.

Diziam que em sua residência o mestre só usava máquinas de escrever ou os velhos e bons lápis grafite. E que no seu laboratório particular de biologia os aparelhos e tubos de ensaio eram dos mais primitivos, criando um cenário de filmes de horror B dos anos 40. Seria o mestre uma mistura do dr. Frankenstein com o Professor Aloprado de Jerry Lewis? Ou, pior: uma versão real do abominável dr. Phibes…

Fascinado e ao mesmo tempo aterrorizado com tais fantasias, resolvi visitar o reduto do mestre. Não foi difícil conseguir o endereço dele na administração, com a desculpa de que faria uma entrevista com o professor para publicar na revista científica da universidade.

Mas como entrar na casa? E com qual desculpa? Nem eu mesmo sabia, mas segui em frente, movido por uma estranha energia sensorial. Acabei usando a mesma mentira da universidade, quando a empregada abriu a porta da casa: disse que queria entrevistar o professor.

Estranhamente, ele me recebeu. Eu nunca tinha tido muito contato com o mestre Anselmo, somente fui aluno ouvinte dele em algumas aulas de física quântica. Achava muito pitoresca a figura do mestre, com cerca de oitenta e cinco anos, ainda na ativa, desfilando pelos corredores como um personagem de filme mesmo, ou de histórias em quadrinhos.

Por todo seu passado de pesquisador nas áreas de física, química e biologia, autor de teses seminais sobre variados temas, premiado e reconhecido nacionalmente, o mestre continuava respeitado, apesar de suas excentricidades. Acabava sendo uma figura folclórica no ambiente acadêmico.

Mas enfim, apesar dessa imagem distante, tive então a chance de conhecer melhor o professor Anselmo. Ele me perguntou para onde seria a entrevista, e eu insisti na mentira: a entrevista seria publicada na revista científica da universidade.

— É bom mesmo falarmos da ciência… ainda posso provar que ela não está morta! — anunciou o mestre.

Preparei meu gravadorzinho de pilha, à moda antiga, pois sabia que, se tirasse do bolso um mp3 para realizar a entrevista, corria o risco de ser chutado da casa a pontapés. Comecei a gravar a conversa com o mestre. Eu suava frio, pois na verdade nem mesmo tinha preparado perguntas ou coisa parecida. Improvisei como um ator, um autêntico mentiroso.

— Por que o senhor acha que estão tentando matar a ciência?

— O avanço da tecnologia está tirando o foco da verdadeira ciência!

— Desenvolva, professor.

Mestre Anselmo passou a atacar as novidades do mundo moderno, detendo-se nas maravilhas da Antiguidade, nas invenções que o homem criara em “tempos românticos”, em meio à espontaneidade e sem os “supostos apoios viciados de hoje”. Tentei argumentar que o microscópio, por exemplo, era uma invenção moderna muito útil, e que sem ele o próprio professor não teria realizado alguns de seus grandes feitos e descobertas.

O mestre rebateu, dizendo que o microscópio foi uma das últimas invenções válidas antes do império nefasto das mídias. E o professor iniciou seu longo discurso, crucificando os meios de comunicação, novas mídias e a internet.

— Mas a internet não é útil, por exemplo, para alunos pesquisarem seus trabalhos, para democratizar a informação para aqueles que não podem comprar livros?

— A informação na internet está deturpada, desvirtua­da! — foi a resposta. — A liberdade de acesso permite que qualquer pessoa, com ou sem base, publique o que quiser ali. E quem lê muitas vezes é logrado, tomando como verdade coisas que muitas vezes não são!

Comecei a ficar assustado com as opiniões do professor. Uma junção de paranoia e preconceito emanava de suas declarações, que ao mesmo tempo não deixavam de fazer sentido. Mas como levar a sério tudo o que ele dizia? Uma postura tão radical poderia levar a um isolamento, a um estado de reclusão, a um mundo particular.

E era isso mesmo. O professor Anselmo estava morando num mundo particular. Ele já não fazia parte da realidade. Era um homem congelado. Ele próprio tinha virado um assunto de estudo científico. Seu cérebro, este sim, tinha de ser doado à ciência.

E foi com esse argumento que finalizei o texto que introduzia a entrevista do professor. Eu, que tinha procurado o mestre sem nem mesmo saber por que, levado por uma misteriosa sensação, acabei redigindo um texto de quatro páginas, uma entrevista onde o professor esbanjou todo seu espantoso conhecimento, recheado de opiniões polêmicas, sempre rechaçando as fantasmagóricas “novas tecnologias”.

Passei o fim de semana escrevendo. Terminei, e na segunda-feira corri para a redação da revista da universidade. Queria que publicassem a entrevista no próximo número. Mal pude dizer minhas intenções, pois estavam todos correndo de um lado pro outro, desnorteados. Uma notícia abalava o mundo científico: o professor Anselmo estava morto.

Num misto de perplexidade e satisfação, pensei que eu conseguiria todo o espaço que queria na revista. Minha entrevista seria publicada com destaque, afinal de contas eu, quem diria, era o dono da última entrevista concedida pelo louvado mestre. E naquele momento, parado no meio da correria na redação, tive certeza do título da matéria: “A Morte da Ciência”.

Lufe Steffen, 33 anos, é cineasta, jornalista e escritor. Dirigiu curtas-metragens, colaborou com sites e revistas, e é autor do livro Tragam os cavalos dançantes, lançado em 2008.

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