Guia Covid-19
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Pesquisa na quarentena

“A morte por Covid é muito triste, esvaziada de significado, por causa do isolamento das pessoas”

A musicista Anna Dulce Sales Carneiro Sampaio aproveitou a experiência como voluntária no Hospital das Clínicas de São Paulo para fazer sua monografia sobre arteterapia em ritos funerários por meio de vídeos

Cenas do depoimento, concedido por chamada de vídeo

Reprodução

Quando começou a pandemia, pedi transferência do setor de humanização do Instituto da Criança e do Adolescente do HC [Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo] para a enfermaria de Covid-19 do Instituto Central do HC. Estou lá como voluntária desde maio de 2020.

Uma de minhas tarefas atuais tem sido promover encontros dos pacientes com suas famílias, por vídeo, com um tablet do hospital. Foi uma estratégia criada pelas equipes de Cuidados Paliativos e de Humanização para permitir a interação dos pacientes com suas famílias durante a internação. Fazemos chamadas de 10 minutos com a família ou reproduzimos vídeos gravados por familiares para pacientes sem capacidade de comunicação.

Aproveitei essa experiência em minha monografia para o curso de especialista em arteterapia que fiz na Unesp [Universidade Estadual Paulista]. A proposta inicial era tratar do uso da música no apoio a pacientes da pediatria, com uma análise deleuziana [relativa ao filósofo francês Gilles Deleuze, 1925-1995]. Mas depois mudei o suporte artístico para o vídeo e o tema para ritos funerários durante a pandemia de Covid-19.

Muita gente tem registrado em vídeo a despedida desumanizada causada pela doença. Em março de 2020, o ator italiano Luca Franzese postou vídeos no Facebook queixando-se de que estava havia três dias com a irmã morta por Covid-19 na casa deles e ninguém ia buscá-la, por causa do colapso funerário do país naquela época.

Em outro vídeo, policiais de Guayaquil, no Equador, jogavam caixões com mortos em frente à casa das pessoas, que não queriam os caixões ali e pediam para tirá-los. Eles tinham medo dos mortos, por causa do risco de contágio.

Cada país mostra suas forças e fragilidades. Um vídeo sem som feito com drone mostra os sepultadores enterrando caixões com corpos não reclamados, em duas camadas, sem demarcação de nada, antes de jogar terra por cima, na vala comum na ilha Hart, em Nova York.

Na monografia, explico que muitos fatores podem ter levado uma família de Nova York a não cuidar do enterro de seus entes: a deterioração de laços familiares, o medo de contaminação, as más condições de saúde física e mental do resto da família no momento do óbito, a falta de dinheiro para o enterro, o medo de sair de casa ou de sofrer alguma punição por não poder pagar a conta de um hospital, uma vez que nos Estados Unidos não há sistema gratuito de saúde acessível a todos.

No HC, com um tablet, tenho feito muitas visitas em vídeo, que examinei na monografia. As visitas são de todo tipo, com pacientes que estão perto da alta até os em estado grave. Alguns parentes custam a aceitar a perda e se mantêm em total negação. Eu faço a ligação e acompanho a conversa. Quando necessário, aviso que aquela será a última chamada, mas já ouvi algo como “Estou aqui esperando você pra fazer um churrasco”, deixando de dizer o quanto ama o pai, que ele não verá mais.

A morte por Covid-19 é muito triste, esvaziada de significado, por causa do isolamento das pessoas. Não tem despedida, velório e enterro com missa, que são expressões de solidariedade e amor para quem está partindo. Mergulhamos em um oceano de morte, a importância de cada uma se perde diante de tantas, todas apartadas de um abraço.

 

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