guia do novo coronavirus
Imprimir PDF Republicar

Antropologia

A mulher num mundo de homens

Estudos do corpo feminino colocam em xeque velhas noções de gênero

Durante anos, a visão de uma pena na cauda de um pavão irava Darwin. Para que, pensava ele, aquele ornamento “inútil”, se as espécies só desenvolviam traços necessários a sua sobrevivência? Certo dia, o penacho ganhou sentido: o cientista percebeu que as aves com o “plus” atraíam mais parceiras e, logo, tinham mais chances de passar adiante seus genes. Com o mesmo darwinismo na cabeça, o zoólogo inglês Desmond Morris faz, em A mulher nua (Editora Globo), uma viagem pelo corpo feminino para tentar mostrar que a maioria das características das moças evoluiu com o fim de atrair homens.

“À medida que o homem e a mulher percorriam o seu trajeto evolutivo, o homem se comportava de uma maneira cada vez mais infantil e mostrava menos mudanças físicas, enquanto a mulher desenvolvia mais atributos físicos e menos qualidades mentais infantis”, explica o pesquisador. Os homens eram mais infantis em seu comportamento e as mulheres, em sua anatomia, a chamada neotênia, o que as fazia mais desejáveis para os machos: “Quanto mais características de bebê apresentassem, maior o interesse dos parceiros por elas e maior a proteção que recebiam”. Uma pena numa cauda nem sempre é apenas uma pena numa cauda.

“Ao longo da evolução desenvolvemos formas de atrair os parceiros para o prazer sexual, o que garantia o retorno dos caçadores às suas tribos e permanência das fêmeas nas suas ausências. Nossa espécie só sobreviveu e teve sucesso por causa da incrível relação entre machos e suas parceiras. Não há guerra de sexos”, diz Morris. A natureza diferenciaria os gêneros para que cada um necessitasse do outro. Por que os homens preferem as loiras? “Elas passam uma imagem mais juvenil e essa imagem, projetada por uma mulher adulta, aumenta seu poder de sedução, com fortes sinais de que ela deseja ser cuidada”. O que faz os lábios tão sensuais e por que as mulheres vivem passando batom neles? “Em sua forma, textura e coloração, eles imitam os lábios vaginais”.

Cultivar unhas longas? “Em várias culturas isso mostrava que elas não precisavam fazer nenhum trabalho”. A fixação masculina nos seios é um sinal de regressão masculina? “Isso não tem fundamento. As fêmeas de primatas emitem sinais sexuais com o traseiro enquanto caminham sobre quatro patas, atraindo os machos. A mulher caminha ereta e é vista, quase sempre, de frente. O par de falsas nádegas que traz no peito lhe permite continuar transmitindo o sinal sexual sem dar as costas ao interlocutor”. Como entender a chamada “preferência nacional”? “A mulher tem as costas mais arqueadas do que os homens e, em posição de repouso, o traseiro se projeta mais para fora do que o do homem. Quando ela caminha, a estrutura óssea das pernas e quadris provoca uma ondulação maior da região glútea. Em outras palavras: ela rebola ao andar”.

Essas explicações biológicas, por mais que o pesquisador se desdobre em elogios à mulher, trazem a polêmica de uma discussão recente sobre um velho modelo: “A reprodução é um dos principais pilares do que se entende por feminino. A função materna parece se constituir no núcleo central do ser mulher, e não ser mãe é ser vazio de sua potência, de sua importância. A feminilidade, ao mesmo tempo, no senso comum, possui ressonâncias de significados advindos de discursos científicos e religiosos que têm sua parcela de contribuição na maneira como deveria ser o comportamento feminino, o lugar e o papel da mulher”, rebate Kimy Otsuka, autora da tese de doutorado “Travessias do feminino” (que teve apoio da FAPESP).

Fica cada vez mais difícil fazer biquinho, como os franceses, e dizer com gosto: “Vive la difference!” O corpo nu, historicamente, vem revestido de um caráter político. “Tanto o sexo biológico como o gênero cultural são idéias informadas por crenças científicas, políticas, filosóficas, religiosas etc. sobre a ‘natureza’ dos seres humanos”, analisa Jurandyr Freire Costa. “A obsessão por ‘sexo e gênero’ é irrelevante para reconhecer diferenças entre homens e mulheres ou julgar, do ponto de vista ético, os melhores e os piores”. Afinal, faz apenas dois séculos que a humanidade aceitou que havia diferenças entre os sexos. Até fins do século 18 pensava-se que o sexo era um e o mesmo para homens e mulheres.

Como observa Thomas Laqueur, em seu estudo, Inventando o sexo: “Durante milhares de anos, acreditou-se que as mulheres tinham a mesma genitália que os homens, só que a delas ficava dentro do corpo e não fora. A mulher era essencialmente um homem imperfeito. Ser homem ou ser mulher era manter uma posição social, assumir um papel cultural e não ser organicamente de um ou outro de dois sexos incomensuráveis. Assim, antes da Revolução Francesa, o sexo era uma categoria sociológica, e não ontológica”. Liberdade, fraternidade, igualdade e, portanto, dois sexos.

“Essas novas formas de interpretar o corpo resultaram não da ciência em si, mas do rumo de seu desenvolvimento aplicado à política”, lembra Kimy. A ideologia via melhor do que a anatomia e só houve interesse em buscar evidências para fundamentar dois sexos distintos, nota a pesquisadora, diferenças anatômicas e fisiológicas concretas entre homem e mulher, quando essa diversidade se tornou politicamente desejável. O sexo biológico foi, e é, segundo Laqueur, uma construção social e o corpo é concebido como uma entidade natural que contribui para a explicação do gênero. “A anatomia finalmente se transformou em destino”, observa. É quando o gênero se cola à idéia do sexo.

Assim, “a mulher é incessantemente ‘naturalizada’, ao contrário do homem, de modo geral associado ao domínio da cultura, da ação e do pensamento”, avalia Fabíola Rohden, autora de Uma ciência da diferença. Segundo ela, a partir do século 19, iniciou-se um empenho por parte de médicos e cientistas para estabelecer claras diferenças de caráter biológico e predeterminado entre os sexos. Mais: o sexo passou a ser entendido como um elemento natural, responsável pelo destino social de homens como provedores e de mulheres como esposas e mães. “A medicina vai propor uma releitura do corpo feminino, quando do surgimento da chamada ‘ciência da mulher’, cuja origem se encontraria no terreno do interesse pela diferença”, nota Fabíola.

A ginecologia viria, então, como forma de reforçar a suposta relação entre a “inferioridade” física, psicológica e intelectual da mulher em relação ao homem como uma realidade inscrita no próprio corpo. “É com base nessa visão biológica que se estabelecem os papéis sociais. As características anatômicas das mulheres as destinariam à maternidade, e não ao exercício de funções públicas”.

Rachel Soihet, organizadora de O corpo feminino em debate, vai além. Segundo a pesquisadora, a medicina apareceu como alicerce ideológico à cristalização dessas relações de poder, contribuindo para que as principais decisões políticas obtivessem sucesso ancoradas nas diferenças entre homens e mulheres. Em outras palavras, foi uma “ortopedia” quanto ao masculino e ao feminino, colaborando na reprodução e manutenção dos aspectos positivistas-funcionalistas que a ordenação social exigia em determinadas épocas e contextos. A modernidade, no entanto, reserva surpresas ainda maiores sobre esta já diluída diferenciação de gêneros. Desenvolvida a partir das duas guerras mundiais, com seus inúmeros mutilados, a cirurgia plástica conseguiria, ao mesmo tempo, consolidar e solapar essa imposição política sobre o corpo feminino. “Numa primeira visão, a biomedicina teve, e tem, função de controle do social, contribuindo para um disciplinamento do corpo ou docilização, que determina as posturas esperadas e convenientes para a sociedade”, observa a antropóloga Liliane Brum Ribeiro.

Beleza
“A medicalização do corpo feminino, após décadas imersa num darwinismo que se preocupava em achar diferenças, agora, com as cirurgias plásticas, estéticas e corretivas, já não se legitima mais pelo mesmo discurso médico biologizante que, em séculos passados, determinou o que a mulher deveria fazer com o frágil e fragilizado corpo”, afirma. Segundo dados obtidos pelo Projeto Temático apoiado pela FAPESP, Gênero, corporalidades (ainda em desenvolvimento), coordenado pela antropóloga Mariza Corrêa, da Unicamp, “o Brasil é, certamente, um país em que o culto da beleza, da juventude e da sensualidade aparece como uma das características mais marcantes de sua cultura, mas é também o país que conta com uma impressionante indústria da beleza”.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o país, no ano 2000, foi o campeão global em número de cirurgias plásticas por razões estéticas. Há nisso uma notável dualidade. “O corpo, hoje, é sujeito da cultura, possui agência (ação); é como tal que, pelas cirurgias plásticas, o gênero passa a marcar o corpo feminino. Pode-se pensar que o corpo siliconado ou construído pela plástica coloca em xeque os dualismos natureza/cultura, sujeito/objeto, mas também pode elucidar o modo como o sujeito contemporâneo possui seu corpo docilizado por aparatos de poder; informado por disposições estruturadas e estruturantes, mas também dotado de agência. Ou seja, o corpo passa a ser o espaço do ser entendido como devir”, diz Liliane.

Daí o interesse do projeto da Unicamp em “investigar o que há de compartilhado em nossas sociedades quando se trata de pensar os corpos tendo em vista discutir a visão cada vez mais disseminada do corpo como matéria plástica capaz de burlar ou adiar as restrições que lhe são impostas no que ele tem de material, finito e frágil e, por outro lado, de ser adaptado e amalgamado a qualquer convenção culturalmente estabelecida”. Isso pode ser verificado tanto em práticas como o turismo sexual, em que homens de países do Norte procuram mulheres de países subdesenvolvidos a fim de recriar padrões tradicionais de gênero no marco de relações extremamente desiguais, como nos chamados transgêneros.

“Eles são um corpo em transformação e talvez nos façam pensar no corpo metamorfoseado não como uma substância acabada, mas algo orgânico, móvel, em processo. Mais do que um corpo, uma corporalidade, um devir que se refaz sempre em uma corporalidade”, avalia Liliane. Saímos da visão darwinista para entrar na ciência futurista de Donna Haraway, autora do Manifesto cyborg, em que a pesquisadora afirma que “a imagística dos cyborgs pode sugerir uma maneira de sair do labirinto dos dualismos com os quais explicamos, a nós mesmos, nossos corpos”.

Em seu doutorado, recém-defendido na Universidade de São Paulo (USP), “Os dilemas do humano”, Marko Synésio Monteiro trabalha justamente com esse novo conceito de corpo e de como as tecnologias da biologia molecular influenciam a nossa percepção do que é o corpo, o que ele representa na cultura e como nos relacionamos com ele. “Concordo com Haraway quando ela nos convida a aceitar a existência do cyborg não como o fim do natural, com máquinas tomando os nossos corpos. Ela reafirma que somos cyborgs na medida que estabelecemos relações estreitas com a tecnologia, o que, em vez de nos escravizar, é uma possibilidade de liberdade, já que as velhas visões do que significa ser humano podem ser recriadas e repensadas, de modo que não continuemos, por exemplo, a ser tão patriarcais”, analisa Monteiro. Nesse dia, a “filosofia” de Marilyn Monroe fará todo sentido: “Eu não me importo de viver num mundo de homens, desde que eu possa ser uma mulher”.

Republicar