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Pesquisa na quarentena

“A música me ajudou a recuperar o equilíbrio durante a quarentena”

O ecólogo gaúcho Guilherme Becker, pesquisador da Universidade do Alabama, fala das dificuldades para manter a produtividade científica trabalhando em casa e cuidando de dois filhos pequenos, e conta que voltou a compor para combater o estresse

Becker utiliza radio telemetria para rastrear animais em campo e entender como o desmatamento afeta o microbioma bacteriano de seus hospedeiros

Arquivo pessoal

“Sou professor do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade do Alabama, nos Estados Unidos, e estudo a ecologia de doenças ligadas a distúrbios ambientais. Atualmente pesquiso uma doença causada por fungos, a quitridiomicose, que está causando declínio na população de anfíbios e tem relação com o desmatamento. Essa pesquisa tem como foco a Mata Atlântica no estado de São Paulo e em parte do Rio Grande do Sul – eu sou gaúcho.

Vim morar nos Estados Unidos em 2017 e estou naquele período probatório de cinco anos em que o pesquisador precisa se esforçar bastante para conseguir financiamento, publicar e fazer pesquisa de ponta – o desempenho nessa etapa da carreira define se o pesquisador está qualificado para ganhar estabilidade e liberdade acadêmica. A pressão é enorme. Em casa, vivemos esse desafio em dose dupla. Minha esposa, Mônica Kersch-Becker, também bióloga, é professora no mesmo departamento e está em situação idêntica. Fizemos o mestrado na mesma época na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o doutorado na Universidade Cornell, nos Estados Unidos. Voltamos para o Brasil para fazer pós-doutorado, ela na Unicamp, eu na Universidade Estadual Paulista (Unesp), mas decidimos voltar para os Estados Unidos e fomos ambos contratados pela Universidade do Alabama.

A pandemia veio em um momento em que estamos trabalhando intensamente com ensino e pesquisa e preparando projetos para apresentar a agências de fomento. Quando nossos laboratórios interromperam suas atividades, transferimos o trabalho para casa e instalamos no quarto os nossos computadores, um ao lado do outro. Mas raramente trabalhamos juntos. De manhã, ela trabalha e eu cuido das crianças. Temos um garoto de 7 anos e uma menina de 4 e eles exigem atenção praticamente o tempo todo. De tarde, eu é que vou para o computador. À noite a gente tenta complementar o que não conseguiu fazer durante o dia. Tive a aprovação de dois projetos recentemente e há um terceiro em revisão. Nas últimas semanas, a Mônica tinha dois projetos para submeter e eu passei a cuidar mais das crianças, para maximizar as chances de ela emplacar os grants. É muito difícil manter o ritmo de trabalho que tínhamos na universidade, por isso estamos ajudando um ao outro ao máximo.

Arquivo pessoal Becker em seu laboratório na Universidade do AlabamaArquivo pessoal

Tenho uma rotina de reuniões virtuais no laboratório. É preciso manter os alunos com foco e motivados. Houve vários projetos de campo cancelados na primavera. Íamos fazer um experimento de simulação de seca na floresta aqui no Alabama, mas tivemos de desistir. O jeito foi mudar a estratégia e colocar os alunos para trabalhar com a análise de bancos de dados. Esses desafios se somam a outros estresses que todo mundo está passando. Meus pais estão em isolamento em uma cidade pequena da serra gaúcha. Ligo todos os dias, porque conversando virtualmente todos nós nos sentimos menos sozinhos e reduzimos as chances de cair em depressão.

A música tem me ajudado a recuperar o equilíbrio. Eu já toquei em uma banda de rock progressivo quando vivia no Rio Grande do Sul e algumas das nossas músicas seguiram uma linha de conservação do meio ambiente. Na quarentena, comecei a compor de novo, em uma parceria a distância com amigos. Tem servidores de música na internet em que se pode gravar em muitos canais. Como eu tinha acabado de aprovar um projeto sobre mudanças climáticas na National Science Foundation, fiz uma música com um pouco mais de ciência do que a média. Tem elementos do rock e de metal melódico e fala do impacto do desmatamento e mudanças climáticas na biodiversidade e no risco de pandemias. Em algumas noites, depois que a criançada ia dormir, eu subia até o quarto onde tenho um piano e vários instrumentos musicais. Aprendi a usar um software de edição de vídeo e consegui fazer um clipe. Dois amigos me ajudaram nesse processo. Um deles, Rodrigo Marcon, tem um estúdio em Flores da Cunha [RS] e fez a mixagem e a masterização. Com isso, coloquei no ar o clipe na semana passada. Na sequência, fui convidado para tocar ao vivo no Earth Institute da Columbia University, em Nova York, em um programa sobre mudanças climáticas em que também abordamos as questões atuais do desmatamento acelerado na Amazônia.

Reprodução O ecólogo canta a música que compôs durante a quarentena em videoclipe feito com a ajuda remota de amigosReprodução

Enquanto compunha, além de me acalmar, senti que minha criatividade passou a fluir melhor também no trabalho de pesquisa. Consegui me desatolar de tarefas burocráticas – tinha um relatório do Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] para apresentar – e retomei a preparação de um artigo de revisão sobre como o desmatamento pode moldar as defesas microbiológicas dos anfíbios.

A universidade deve retomar as atividades em breve, pelo menos parcialmente. A ideia é abrir gradualmente. Logo, as pessoas devem poder trabalhar, respeitando distanciamento, limpando as máquinas depois do uso. Nos últimos dois meses, voltei ao laboratório algumas vezes para ver se os freezers estavam funcionando – temos várias culturas de bactérias criopreservadas. Em abril, apesar da necessidade de isolamento social, tive de voltar à universidade, dessa vez com a família inteira, por um motivo insólito. Houve dois alertas de tornado no mesmo dia e o meu departamento funciona como um abrigo. Quando há alerta, é porque vai ter tornado, embora não seja possível prever o lugar nem a hora. Em 2011, quando morávamos em Ithaca, Nova York, houve um tornado que matou mais de 60 pessoas. Felizmente, não fomos atingidos.

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