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Urbanismo

A nova terra da garoa que a economia inventou

Projeto mapeia mudanças ocorridas na cidade de São Paulo provocadas pela globalização

SUZANA PASTERNAK/ EQUIPE PRONEXMarginal do Rio Pinheiros: novo centro do setor terciário do municípioSUZANA PASTERNAK/ EQUIPE PRONEX

A partir do final da década de 80, com a abertura comercial, a implantação de novas tecnologias e modelos de gestão, a economia paulista foi impelida a reestruturar a indústria, o comércio e os serviços. A crescente liberalização, integração e a internacionalização das economias – processo conhecido pelo nome genérico de globalização – provocou importantes transformações que repercutiram na organização dos espaços urbanos no município de São Paulo. Esse processo possibilitou a dispersão dos lugares de trabalho, o declínio de áreas industriais tradicionais, a descentralização de empregos e fábricas, a expansão do setor terciário.

A pesquisa Territorialidades da Globalização em São Paulo, coordenada por Antonio Cláudio Moreira Lima e Moreira, do Departamento de Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), procura conhecer melhor as manifestações territoriais da globalização na cidade. Além de Moreira, a pesquisa tem a participação de mais três docentes da FAU: Maria Cristina da Silva Leme, Suzana Pasternak e João Sette Whitaker.

Realizada em parceria com a Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo (Sempla), a pesquisa faz parte do Programa de Pesquisa em Políticas Públicas da FAPESP. Na primeira fase, foram sistematizadas informações disponíveis sobre o tema. Constatou-se uma diminuição das áreas ocupadas pela grande indústria, com forte retração do emprego; um considerável crescimento do setor terciário, movido pela reestruturação do setor industrial e pelos novos empreendimentos gerados pelos trabalhadores desempregados como estratégia de sobrevivência. Um novo tecido industrial surgiu, fragmentado, disperso e mesclado com usos residenciais e de serviços.

Em relação à habitação, o loteamento irregular, a casa própria e a autoconstrução – formas que governavam a localização da população de baixa renda entre 1940 e 1980 – perderam força. Hoje, o que mais cresce são as favelas na periferia. De 1940 a 1980, a cidade era descrita a partir da dualidade entre centro e periferia. Atualmente, novas hipóteses mostram que essa dualidade parece se fragmentar, segundo Suzana Pasternak. “A estrutura ainda mantém os pobres longe do centro, mas nessa nova forma os grupos sociais estariam mais próximos fisicamente, apesar de separados por muros e tecnologias de segurança, e tendem a não interagir em espaços comuns”, diz. “Exemplos que descrevem o que poderia ser a nova segregação são visíveis no Morumbi, onde convivem, separados por muros e grades, favela, prédios populares, residências e prédios de luxo.”

A Marginal do Rio Pinheiros consolidou-se como novo centro do setor terciário avançado da cidade. Dois circuitos de comércio coexistem: os shopping centers, em franca expansão – que servem às classes mais abastadas – e o comércio de rua, para os pobres, dispostos ao longo dos corredores de transportes coletivos. A partir desse mapeamento, definiu-se um elenco de questões que serão estudadas na segunda, das três etapas que compõem o Programa de Pesquisa em Políticas Públicas. Na primeira delas foi estabelecida a metodologia, que é desenvolvida na segunda e seus resultados são implementados na terceira, pelo órgão público parceiro, a Sempla, nesse caso. A primeira etapa foi realizada entre fevereiro e outubro de 2001. A Sempla forneceu técnicos e dados, num valor estimado de R$ 84 mil, enquanto a FAPESP investiu R$ 13,8 mil.

Utilização do espaço
A segunda etapa começará nos próximos meses e deve durar um ano. “Como o projeto envolve a universidade e um órgão público, tivemos que conciliar os tempos das duas instituições, que são bastante diferentes. O órgão público deve se submeter ao calendário político, segue uma lógica muito diferente daquela que ordena a universidade”, diz Maria Cristina da Silva Leme. Articular essas lógicas não é uma coisa simples, é preciso levar em conta as particularidades dos dois lados.

“No caso da pesquisa, a mudança de governo na prefeitura atrasou o início do trabalho, nos obrigou a rever a composição da equipe de pesquisadores.” Três eixos orientam o estudo dos impactos da globalização no espaço urbano paulistano: os efeitos de desindustrialização, a criação de novos centros e a exclusão social. “Queremos compreender os processos que influem sobre o mercado e condicionam a ocupação e a utilização do espaço”, explica Antonio Cláudio Moreira. Ele diz que a compreensão é fundamental para orientar a discussão e a elaboração de políticas públicas que apóiem as transformações do sistema produtivo e corrijam seus efeitos perversos.

Entre os processos cujo conhecimento é necessário para otimizar políticas de intervenção, estão o conhecimento da territorialidade do parque industrial paulistano, ou seja, sua localização, evolução, tendências e a adequação da legislação; o estudo das características dos circuitos de distribuição presentes na cidade – comércio e serviços -, avaliando a adequação das zonas comerciais definidas pela legislação municipal às novas territorialidades do setor terciário; a análise do problema da desigualdade socioespacial em São Paulo, que completa uma nova visão da estrutura urbana da cidade; a investigação sobre o impacto das ações do poder público sobre a estrutura urbana, identificando nexos entre globalização e as ações do poder público municipal.

Osaka, Japão
Um dos aspectos inovadores da pesquisa é a articulação entre a reestruturação econômica e a exclusão social. “Isso permite pensar problemas como as diferenças entre favelas da região da Avenida Luís Carlos Berrini e da Billings, ambas na Zona Sul de São Paulo. Elas têm inserções urbanas muito distintas, com possibilidades de emprego diferenciadas para seus moradores e repercussões diferentes no que diz respeito à violência”, diz Maria Cristina. “Conhecer o perfil das novas atividades econômicas e sua cultura é fundamental.” A coleta seletiva de lixo, forma de sobrevivência precária, é um bom exemplo: se for organizada, será mais eficiente e rentável.

Maria Cristina apresentou a primeira fase da pesquisa no Japão, entre fevereiro e março. Convidada pelo Japan Center for Area Studies, do National Museum of Ethnology, em Osaka, ela viajou com o apoio da Pró-Reitoria de Pesquisa e do Centro de Cooperação Internacional da USP. “Osaka é uma cidade muito diferente de São Paulo e esse distanciamento permitiu recolocar sob outro ângulo certas questões da pesquisa, como a segregação socioespacial. A distribuição de renda é excelente, a pobreza é quase inexistente e é recortada por questões culturais”, afirma a pesquisadora. Em Osaka, não há a noção de centro e periferia, dado clássico da metrópole ocidental. Tudo está misturado: comércio, indústria, residências de classes sociais diversas, até a agricultura penetra no espaço urbano.

O projeto
Territorialidades da globalização em São Paulo (nº 00/01753-2); Modalidade Programa de Pesquisa em Políticas Públicas; Coordenador Antonio Cláudio Moreira Lima e Moreira – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP; Investimento R$ 13,8 mil

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