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A polêmica do artigo

De forma unilateral, revista cancela trabalho de brasileiros sobre a doença de Chagas

Como às vezes acontece, o feitiço pode ter virado contra o feiticeiro. Se a revista Cell, um dos periódicos internacionais mais respeitados da área de ciências da vida, queria desacreditar o artigo publicado em sua edição de 23 de julho de 2004 pela equipe do médico Antonio Teixeira, da Universidade de Brasília (UnB), a forma de lidar com o caso talvez não tenha sido das mais transparentes, nem eficaz em seus propósitos. Pondo fim a uma negociação de meses com os autores brasileiros do estudo em questão, que havia fornecido as primeiras evidências de que trechos do genoma do parasita Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas, poderiam se incorporar ao DNA de animais, inclusive do homem, o periódico cancelou a validade do artigo num comunicado de dois parágrafos e cerca de 120 palavras divulgado em 23 de setembro deste ano. Fez isso à revelia dos autores, sem apresentar razões inequívocas para seu comportamento. O procedimento unilateral acabou gerando críticas em relação à política editorial da Cell e jogou ainda mais luz sobre o estudo dos pesquisadores de Brasília.

A revista argumentou que, “depois de cuidadosa e extensiva revisão dos dados (de Teixeira) por especialistas independentes da área”, era forçada a retirar o artigo porque havia dúvidas sobre o local do DNA do hospedeiro em que o genoma do parasita teria se alojado. Mas não apresentou nenhuma evidência de fraude, deslize ético ou má conduta da equipe brasileira que redigira o polêmico artigo, situações que normalmente são invocadas quando uma publicação resolve cancelar os escritos de um pesquisador. A comunidade científica, brasileira e internacional, estranhou o procedimento da Cell e reclamou publicamente em reportagens e artigos que saíram em meios de comunicação daqui e do exterior. A reação levou a editora da Cell, Emilie Marcus, a voltar ao assunto num texto maior, o editorial da edição de 21 de outubro passado, intitulado “Controvérsia da retratação”. Resultado da polêmica: o artigo cancelado, aquele que não era boa ciência segundo o periódico, chegou a ser o segundo mais lido no site da própria revista e o editorial explicativo estava na 11ª posição na mesma lista no final do mês passado.

Baiano de 63 anos, Teixeira desenvolve a linha de pesquisa que redundou no artigo da Cell há mais de uma década e meia. Ele se diz perplexo com o desenrolar dos acontecimentos, inclusive com as reações de solidariedade que recebeu de colegas do Brasil e de fora do país. “Jamais poderia imaginar que a atitude arrogante da revista pudesse sensibilizar tantas pessoas no mundo”, afirma o pesquisador da UnB, que defende a validade de seus dados. “Outros laboratórios estão tentando reproduzir os nossos resultados”. O tempo, como sempre, dirá quem tem razão.

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